Ginásio 7 de Setembro – décadas de 50 e 60

Sou “paulistaníssimo” de coração, neto e sobrinho de italianos e alemães, radicado nos EUA e a caminho da aposentadoria.

Em 1954 eu comecei o que naquele tempo se chamava de "curso primário" no Ginásio 7 de Setembro, na Av. Lins de Vasconcellos, esquina com a Rua São João Del Rey, uma área localizada entre a Vila Deodoro, Aclimação e Cambuci.

O proprietário e diretor do colégio era o Prof. Benedito de Maio Oliveira. O colégio era muito conhecido, respeitado e referência na região. Era obrigatório o uso de uniforme pelos meninos e meninas que incluía o logotipo bordado nas camisas (um grande número 7 em vermelho) e nas gravatas azuis dos meninos. A maioria dos alunos era de moradores da área e todos praticamente se conheciam, muitos eram vizinhos, parentes e amigos. Não eram todos que podiam pagar para estudar no "Sete", como era conhecido. Um de meus amigos de classe era o Dennis Carvalho que depois evoluiria para uma prolífica carreira artística. Outros se tornariam empresários e profissionais liberais.

Nos fundos do colégio havia uma quadra de basketball que era a área de recreio, com um pequeno quiosque onde vendiam sanduíches, refrigerantes, chocolates e balas para a meninada. No outro lado da avenida, ficava a lojinha da Dona Lina, uma Italiana mal-humorada, natural da Calábria, que vendia material escolar. Alguém lembra do mata-borrão?

Após três anos de "primário", na época era obrigatório fazer o "curso de admissão ao ginásio", após o quarto ano, ou seja, seria um quinto ano antes de entrar para o chamado "curso ginasial" na época. Então me transferi para o Colégio Marista Nossa Senhora da Gloria, no Cambuci, que oferecia um curso que combinava o quarto e quinto anos em um ano. Após passar no tal curso, iniciei o "ginásio", que consistia de quatro anos, no tal Colégio Marista. Alguns alunos rebeldes chamavam os "irmãos" (os padres) de urubu de papo branco e acabaram saindo do colégio. Apesar de ter sido incluído no Quadro de Honra por três vezes e ter ganhado medalhas pelas boas notas que tirei, era quase impossível sobreviver à disciplina nazista daquele feudalismo bizantino que desafiava o bom senso e ignorava a lógica, quando durante a "3ª série" fui gentilmente convidado a me retirar do colégio. Compareci a reitoria com meu pai e o tal "irmão reitor", com cara de poucos amigos, explicou ao meu pai que eu era um aluno "rebelde" e nos entregou um documento azul que formalizava a minha expulsão.

Era o tal "bilhete azul", que depois foi popularizado e utilizado em todas as atividades humanas. Virou gíria. Voltei para o "Sete" para reiniciar a 3ª série e concluir o ginásio. O ano era 1960 e o início de uma década que transformaria o mundo ocidental.

O "Sete" era também muito admirado pela sua famosa fanfarra e pelo seu time de futebol de salão, um esporte emergente na época. E mais: tinha um punhado das garotas mais lindas de São Paulo.

A fanfarra ensaiava duro nos fins de semana para desfilar orgulhosamente todo dia 7 de setembro pelas principais ruas do bairro e todo 9 de julho no Vale do Anhangabaú, competindo com fanfarras de outras escolas da cidade de São Paulo. E ganhou vários prêmios. Então comecei na fanfarra tocando "caixa", "surdo" e depois "corneta". Era preciso muito, muito pulmão para tocar a corneta com as notas certas. Quem ensaiava a fanfarra era um cabo do exército contratado pelo colégio, um mulatinho baixinho metido a galã para impressionar as garotas da fanfarra.

O time do "Sete" era imbatível. Competia com outras escolas e clubes e raramente perdia um jogo ou um campeonato. Quando o jogo era no colégio, o bairro inteiro começava a vibrar uma semana antes e a contagem regressiva começava. O nível de interesse em ver o time do colégio jogar era o mesmo que qualquer time oficial de futebol como o Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Santos.

No dia do jogo, os portões do colégio só abriam um pouco antes do início, pois havia sempre uma multidão bloqueando as ruas para ver o time jogar. Era preciso fechar os portões a força para conter a multidão, após a quadra estar lotada, incluindo pessoas trepadas nas árvores em torno da quadra. Não havia um ginásio de esportes, era uma quadra de cimento cercada por bancos, árvores e salas de aula. Os jogadores do time de futebol de salão do "Sete" se tornaram ídolos na área. E eram alunos comuns e amigos de todos.

Um clássico da região era o jogo contra o time rival do Clube Anchieta no bairro vizinho Jardim da Glória. Era do nível de um clássico de futebol como Palmeiras x Corinthians. Os mais famosos do time do "Sete" eram o Bebeto, Toninho, Ney, Zinho, Loverci, Gilson, Orfeu.

A potencia do chute do Orfeu era de uma bomba mortal, semelhante a do Pepe, jogador do Santos, na época e posteriormente a "patada atômica" do Rivelino do Corinthians. Era ele quem cobrava as faltas. E a multidão começava a sentir pena daqueles que faziam a barreira. Em um jogo contra o tal Clube Anchieta, ele soltou a bomba. A bola atingiu a cabeça de um jogador da barreira que desmaiou no ato.

As vitórias eram celebradas na memorável Pizzaria do Gino (Nobili) dos imigrantes Italianos Gino e Germano e suas esposas que mal falavam português e faziam a melhor pizza do planeta com receita sob segredo, só saboreei pizza semelhante em Nápoles, Itália. Ou no Restaurante “A Baianinha” ou ainda na “Mercearia do Hilário”, todos nas redondezas.

O time de basketball era também muito bom, mas não tão competitivo como o de futebol de salão. Conclui o curso ginasial no "Sete", me formei em química superior e depois em medicina com pós-graduação aqui nos EUA. Fui cirurgião geral, médico de emergência e de terapia intensiva em dois hospitais privados de São Paulo.

O "Sete" foi um marco na cidade de São Paulo e se foi com o vento, assim como muitos da época. Hoje, funciona naquele prédio uma faculdade. Sua memória está viva na mente de todos que lá estudaram e venceram. E parafraseando Júlio Gouveia com seu programa nas manhãs de domingo para a meninada na extinta TV Tupi Canal 3: “Mas isto é uma outra estória que fica para uma outra vez”.

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