Já lá se vão mais de 60 anos e, sem muito esforço essas memórias ainda povoam minha mente.
Corriam, de forma acelerada, os anos 50. Eu moleque, torcia para que eles corressem cada vez mais sem desconfiar que no futuro, na segunda década do século XXI, eu iria chorar pedindo a Deus que os dias andassem de forma lenta para me permitirem ficar por aqui um pouco mais de tempo.
Sabendo que não poderei interferir, nunca, nessa decisão, me deixo levar pelos pensamentos e vou me encontrar menino, ainda usando calças curtas e sapatos de pneu de caminhão, brincando, despreocupado, nas calçadas da "movimentadíssima" Rua Augusta, no quarteirão compreendido pelas Ruas Caio Prado Jr e Marques de Paranaguá. Estou defronte ao número que coincidentemente, é a casa onde moro.
Olhando para frente, na calçada oposta da que estou, posso distinguir os portões da Escola Santa Monica, onde estudo todas as manhãs e, uns poucos passos depois, um aparelho estranho, enorme, fincado na calçada. Era a bomba de gasolina recém-inaugurada, de propriedade do sapateiro, estabelecida nessa mesma Rua Augusta, na calçada de número impar, bem na esquina da Rua Marques de Paranaguá e, lógico, em frente à bomba (ou seria geringonça?). É preciso esclarecer que naquela época, no pós-guerra, inexistiam os Postos de Serviço como atualmente, mesmo porque estávamos saindo da situação de uso dos carros a gasogênio, que por sinal eu cheguei a conhecer.
Bem, voltemos ao tema central desta narrativa. O sapateiro, proprietário da bomba de gasolina atendia pelo nome de Pedro Sernagiotto recebido na pia batismal, porém era muito mais conhecido por seu famoso apelido "Ministrinho", craque alviverde da época do Palestra Itália, o primeiro futebolista a fazer nome no exterior, no Juventus de Turim (Itália). Ponta direita veloz, depois de fazer nome na Europa voltou ao Brasil em 1934 jogando pelo Palestra até 1935, jogou depois na Portuguesa de Desportos e no São Paulo e encerrou sua carreira nos anos 40, então Palmeiras.
Esse homem, franzino, sapateiro remendão, tinha por mim um carinho especial, éramos palmeirenses de coração, coisa que o Serginho, seu sobrinho e meu amigo, não era, pois torcia pelo tricolor, naquela época do Canindé.
Ministrinho, embora levando vida humilde e regrada não abria a mão de comer bem. Assim, encomendava seus almoços diários, e os recebia no mesmo horário, do Restaurante Transmontano, tradicional casa paulistana que estava estabelecida em frente ao prédio dos Correios no vale do Anhangabaú.
As cenas que relato neste texto estão vivas e as cores na minha mente e fico triste por não poder narrá-las com mais fidelidade e clareza. Mas dentro dos meus limites acho que consegui fazer um pequeno esboço da saudade que sinto no peito.
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