De volta às aulas

O mês de fevereiro, nos anos 50, era o começo do ano letivo. Mês em que as férias iam terminando e o verão também. Eu trabalhava na hoje famosa Livraria Saraiva. O Sr. Joaquim Saraiva era o irmão do meio, Sr. Jorge o mais velho e o caçula o Sr. Paulino, os três já falecidos. O Sr. Joaquim era o responsável pela livraria, o Sr. Jorge pela gráfica na Rua Sampson no Braz e o Sr. Paulino dos escritórios e da distribuidora das coleções como a Saraiva, um livro mensal de assinatura e a coleção Rosa também de assinantes, além de outras que não lembro mais, que se localizava na Rua Fortaleza, no Bixiga.

O Sr. Joaquim era considerado por todos como um homem muito bondoso e que ajudou a muitos acadêmicos da Faculdade de Direito 11 de Agosto a se formarem, dando-lhes crédito em todos os livros que precisassem para concluir seus estudos. Ele continuou um sistema de crédito de fichas, que o seu pai, o velho Joaquim, iniciou quando ele imigrou para o Brasil no começo do século e fundou a Livraria Acadêmica, no Largo do Ouvidor que ficava em frente à faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Alguns desses alunos, mesmo depois de formados, como não tinham assinado nenhum compromisso de crédito procuravam se esquivar no pagamento das dívidas que haviam assumido. Aí tínhamos o Benedito, um senhor nordestino que saia em busca dos maus pagadores e quase sempre com sucesso. Lembro quando comecei a trabalhar lá com 14 anos, este foi praticamente meu primeiro emprego e exercia o cargo de entregador dos primeiros três livros da, famosa na época, coleção Saraiva que era editado mensalmente. A primeira entrega era feita por mim ou meu primo Pascoal, que também era entregador e os livros subsequentes eram entregues por outro departamento, a distribuidora da Rua Fortaleza.

Eu considerava o Sr. Joaquim como meu segundo pai. Todos os sábados quando se encerrava o expediente, à 1h da tarde, ele sempre nos dava Cr$ 50,00 como se fosse uma mesada semanal, isso fora o salário mensal que era de Cr$500,00. Saudades do Arnaldo Costa, Salvador Cantafio, que eram os gerentes, e dos colegas balconistas: o Sr. Braga, o Armando Bastos, Dino, Odilon, Olimpio, Ramon, Pascoal, meu primo, e o Ismael Esposito; e de um estudante de direito, que trabalhamos lado a lado e que, anos mais tarde, se tornaria governador do Estado de São Paulo: "Cláudio Lembo". De todos os citados somente eu, o Ismael, o Olimpio e o Dr. Cláudio Lembo é que sobraram para contar a história, pois ao que me consta todos os outros já faleceram.

Tive também o prazer de conhecer personalidades famosas como o ministro Alfredo Buzaid, o professor Catedrático da língua portuguesa Dr. Silveira Bueno, professor Napoleão de Almeida, autor de inúmeros livros didáticos e romances. E o que mais eu admirava é que tive inúmeros contatos, o famoso poeta "Dr. Guilherme de Almeida" com certeza, voltarei com outro texto a respeito de uma obra de arte que ele traduziu e que até hoje me acompanha e me emociona.

Mas meu texto, além da lembrança dos meus ex-colegas e do homem que sempre respeitei como meu segundo pai o Sr. Joaquim, é para relembrar aquelas aproximadamente duas semanas que nos mantinha diariamente superocupados. A Livraria e Papelaria Saraiva distribuía as listas de material escolar de colégios tradicionais de São Paulo que eram: o Colégio Sion na Avenida Higienópolis, o Colégio Assunção no Jardim Paulista (Alameda Jaú, com Pamplona) e o Sacre Coeur, no fim da Avenida Nove de Julho no Jardim Europa. E ainda o Colégio São Luiz na Haddock Lobo com a Paulista e o Dante Alighieri na Al. Jaú, bem pertinho do Trianon.

Lembro que eram pelo menos três semanas de intenso trabalho, que iam das 8h da manhã às 18h30 da noite e aos sábados à tarde trabalhávamos horas extras para repor os estoques, para a segunda-feira pela manhã quando tudo recomeçava. Não sei se as coisas nos dias de hoje continuam da mesma maneira, pois como nossa livraria distribuía as listas de material e livros, os estudantes tinham a obrigação de comprar todo o material na Saraiva.

O que até certo ponto eu hoje acho que não era muito justo, em detrimento dos pais dos alunos que com certeza poderiam procurar preços melhores em outros locais. Mas como se tratavam de colégios tão tradicionais os alunos eram todos de famílias abastadas. Enfim, foram momentos felizes da minha vida onde trabalhei até fevereiro de 1953, quando me demiti para trabalhar de taxista com meu pai.

Ainda tenho dois textos que se relacionam com a Livraria Saraiva. O do Guilherme de Almeida é o que mais mexeu comigo, já verão.

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