Anos 50. Certa vez apareceu um parente, um primo distante da minha mãe para se hospedar lá em casa, veio do interior a procura de emprego na capital, disse que qualquer cantinho estava bom. Embora o sobrado em que morávamos fosse grande, havia muita gente morando, família grande, mas tinha um cantinho embaixo da escada e arrumaram uma cama lá para ele.<br><br>De início tudo bem, mas foi ficando e o emprego que era bom, nada. O rapaz era educado, atencioso, mas com o tempo foi ficando claro que ele gostava de uma cachacinha, não chegava a ser um alcoólatra, mas bebia acima da média, então com aquele hálito ficava sempre fora das entrevistas. Chegamos ao mês de dezembro e sempre na aproximação das festas era o costume enviar os cartões de Natal e felicitando o Ano Novo, e também havia o cartão das críticas, uma espécie de gozação em cima de alguém.<br><br>Um dia, eu estava passando em frente a um bazar e notei esses cartões, gostei e resolvi comprar e fazer uma brincadeira com o parente. Chegando em casa, mostrei para minha mãe e disse:<br><br>- Comprei para o primo.<br><br>Quando minha mãe viu, soltou uma gargalhada e logo em seguida me de uma bronca daquelas:<br><br>- Onde já se viu menino, vai lá e devolve isso e pegue outra coisa no lugar ou o dinheiro de volta.<br><br>Mas antes o tal cartão passou de mão em mão, era hora do almoço e meus irmãos e irmãs estavam presentes, riram para valer e ao mesmo tempo disseram a mesma coisa. O tal cartão de críticas era assim: um sujeito totalmente bêbado, sentado na sarjeta com uma chave na mão dizendo: "Se é verdade que o mundo gira, minha casa deve passar por aqui!". O parente não ficou sabendo, logo depois das festas foi embora e nunca mais soubemos dele.<br><br><br>E-mail: [email protected]