Seu nome: Joaquim, nascido na cidade de Faro – Portugal. Morava no final do primeiro quarteirão da Rua Tuiuti, esquina com a Rua Pitangui, quase em frente ao portão principal da chácara do Matarazzo. Tinha uma filha, a Maria de Fátima, que era o seu xodó. E não é que a rapariga era uma moça muito bonita; a paquera dos marmanjos. Com a garotada que éramos nós, ela podia conversar, mas os mais velhos nem pensar. Tínhamos pena dela pelo excesso de zelo dado pelo seu pai, não tendo liberdade para nada. Sai sozinha somente para ir ao colégio (de freiras, somente de meninas) que ficava no Brás, se não me engano perto da Rua Redenção. Um dos marmanjos, o Nelsinho, era o galã da Rua e arrastava um caminhão de areia pela Maria, mas ficavam somente nas trocas de olhares, que era correspondida por ela.
Na nossa inocência de criança ainda, até nós o admirávamos e vivíamos sempre comentando como ele conseguia namorar todas as garotas do bairro. Vez por outra ele entrava no meio da nossa conversa e ficava tirando um sarro com perguntas indiscretas para a nossa idade, e conforme a nossa resposta era só gargalhada dada por ele. O "Guido", que era o mais velho da nossa turminha, estuda "acordeom" em um conservatório lá do Tatuapé. Por várias vezes, esse conservatório apresentou seus alunos no Programa do Vicente Leporace, "Grande Gincana Kibon", que tinha também a apresentadora "Clarice Amaral".
Nesse domingo, evidentemente já estavam escalados os pais dos nossos amigos que tinham televisão na época, para receberem a molecada; "O famoso Televizinho". Um dia, estávamos em frente à casa do "Guido" ouvindo-o tocar algumas músicas, quando chegou o "Nelsinho" e ficou trocando ideia com a gente. Ele perguntou ao Guido se ele tinha coragem de uma noite tocar em frente ao jardim da casa do Sr. Joaquim, ou seja, uma serenata para a Maria de Fátima, com ele cantando. Foram risos por todos os lados. Mas levaram a conversa a sério e o "Pilim" ficou de à tardezinha quebrar a luz do poste que ficava em frente à casa da Maria de Fátima com seu estilingue. Luz, câmera, ação: o tocador era afinado, mas o cantador não era lá essas coisas, mas ia indo tudo bem, até que abriram-se as janelas e saiu o Sr. Joaquim blasfemando todo seu repertório de injúrias à dupla, que logo saiu na carreira.
Dois erros: no jardim não havia nenhuma árvore para acobertá-los e o quarto da amada ficava nos fundos. No final de semana, lá estava o Sr. Joaquim conversando com o pai do Nelson, que fez questão de convidá-lo a entrar e ficou lá papeando e saboreando uma "bagaceira" legítima que o seu Nelson pai tinha guardada há anos em sua prateleira. A turma estava toda na esquina só de olho no que ia dar, até que vimos o Sr. Joaquim saindo da casa do Sr. Nelson rindo e um aperto de mão dizendo até mais ao gajo. Não sabemos o que conversaram, mas depois desse dia a Maria de Fátima teve mais liberdade, já saindo na rua e fazendo amizade com as meninas do bairro. Quanto ao Nelsinho e a Maria de Fátima, só ficou mesmo a amizade e a "serenata" que a livrou do cativeiro. Saudade dessa turma da pesadinha.
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