A honestidade não é uma virtude! É uma obrigação

Eu sempre fui muito conservador. Literalmente falando, conservador no sentido de não me desfazer de lembranças que consegui durante anos vividos por esse mundo afora. E lembro-me do ditado que diz: "Quem guarda sempre tem". Aliás, tenho alguns álbuns, isso incluindo fotos e filmes repletos delas, como, por exemplo, o filme em preto e branco da cerimônia do meu casamento há 55 anos atrás. Lembro que no ano de 1965, quando deixei São Paulo, tinha inúmeras como recortes de jornal estampando a morte do Rei George VI da Inglaterra, isso em 1952. Logo depois a coroação da Rainha Elisabete II, no começo de 1953. Uma revista especial da Gazeta Esportiva do Campeonato Mundial de 1950 com a inesperada derrota da nossa seleção, recorte da mesma Gazeta com a vitória do Corinthians no IV Centenário.

Inúmeros triângulos prateados da Wolff, companhia da família Pignatari, naquela chuva de prata, quando São Paulo festejou o IV Centenário, recortes da trágica morte do Presidente Kennedy, álbuns de figurinhas de futebol e de diferentes títulos, etc. Entre outros que já não consigo recordar. E que ficaram guardados em um quartinho dos fundos da casa da minha mãe e alguns anos depois quando voltei disposto a levá-los de volta comigo soube, com surpresa, que em uma limpeza que fizeram foi tudo para o lixo, infelizmente pouca coisa foi guardada para mim. Acontece que já se passaram mais de 47 anos desde que deixei a nossa terra, imaginem como consegui material bastante para de vez em quando me deliciar relembrando com as lembranças que guardei.

Esta semana, folheando um desses álbuns, deparei-me com dois telegramas que recebi de uma pessoa que nunca tive quase contato, o pouco que tive se resumiu a uma viajem do Centro de São Paulo, ao Aeroporto de Congonhas. Eu era taxista ele o passageiro. Sinceramente nem lembro como ele era. E só lembro-me do seu primeiro nome, que era Rubens (e que estou lendo agora no telegrama), porque ele me enviou o telegrama pela Western, que naquela época (24-2-1956) era o mais rápido meio de comunicação possível e que chegava ao destinatário em algumas horas não importava a distância. Ele me pedia que eu lhe enviasse seus documentos. Lembro que costumava limpar o carro todas as manhãs antes de iniciar o meu dia de trabalho e ai encontrei uma carteira que continha Cr$ 1.000 cruzeiros e documentos diversos. Aí fiquei imaginando o quanto aquela pessoa estava desesperado com a perda de sua carteira. Foi muita sorte dele eu ter encontrado, pois como ele sentou no banco da frente a carteira acabou caindo no assoalho e lá ficou até o dia seguinte quando a encontrei.

Se ele tivesse sentando no banco de trás, teríamos que contar com a honestidade de alguém que poderia tê-la encontrado, pois era sempre grande o número de passageiros que eu conduzia durante o dia. O meu primeiro passo naquele dia foi procurar dentro da carteira por um endereço dessa pessoa, o que acabei encontrando e só ai lembrei do passageiro que eu tinha levado ao aeroporto de Congonhas mais ou menos às 13h tarde do dia anterior. O seu endereço era do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. E no mesmo dia envie-lhe uma carta comunicando-lhe o achado e que a carteira estava em meu poder e se ele tinha alguém em São Paulo que ele conhecia ou talvez algum parente para que eu retornasse a carteira.

Levaram alguns dias para que ele recebesse a carta. Assim que recebeu a notícia ele imediatamente me enviou um telegrama pela Western rogando que eu lhe enviasse os documentos e resumia que como prova da sua gratidão que eu fica-se com os Cr$ 1.000 cruzeiros. Logo depois que li o telegrama, enviei em uma carta expressa a carteira e pedindo a ele que me comunicasse o recebimento. Só deduzi o que havia gasto e lhe enviei o restante agradecendo a oferta, mas não poderia ficar com o dinheiro. Assim, ele me enviou outro telegrama acusando o recebimento. Mas escreveu uma carta ao diretor de trânsito de São Paulo, na época o Coronel Saguas, que mandou colocar um elogio no meu prontuário. O que me deixou emocionado, pois não imaginava que ele iria fazer aquilo.

Mas continuando a folhear o álbum, encontrei outra lembrança que também me deixava lisonjeado, principalmente depois de tantos anos do acontecido. Era um recorte do jornal Folha da Tarde de São Paulo, datado do dia 29 de setembro de 1959, com o título “Devolveu os Cr$ 5.000 encontrados no seu táxi” e continua dizendo que o motorista do táxi 30-27-39, João Felix Cruz, achou uma carteira contendo cinco mil cruzeiros em dinheiro (inflação já estava subindo), além de vários documentos, no interior do seu carro, pertencentes ao Sr. Carlos dos Santos a quem os devolveu. O fato foi comunicado ao diretor do Departamento Serviço de Trânsito pelo próprio beneficiado, através de uma carta ao Cel. Saguas, que mandou que fosse anotado um elogio no prontuário do citado motorista pelo seu gesto”.

Este foi o segundo elogio no meu prontuário que algum tempo depois me ajudou muito com um problema que tive no trânsito, nas ruas dessa cidade tão congestionada, em que me envolvi em uma divergência com um tenente da polícia militar, que com certeza contarei em um outro texto. Eu exerci a profissão de taxista na minha querida São Paulo, mas sempre com muita dignidade, isso eu sempre fiz questão, e todas as vezes que me apareceu a oportunidade de fazer bem a alguém nunca a deixei escapar. E só agradeço a Deus sempre por esses belos momentos, pois sempre achei que honestidade para mim nunca foi virtude, mas uma obrigação.

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