Estação da Luz – Saudades de um tempo bom

A placa estava ali, bem a minha frente nos detalhes de um dístico de identificação da estrutura de ferro pintada de marrom brilhante com os dizeres “Joseph Westwood & Cº Limited Encineers & Contractors London”. Essa nomenclatura estava impressa em uma das colunas do pilar de ferro da Estação da Luz que foi construída nos fins do século XIX e inaugurada no início do século XX. Tinha ela por objetivo de sediar a recém-criada Cia Paulista de trens da São Paulo Railway (SPR) de origem britânica. Todo o seu material construtivo, incluindo os tijolos dos muros externos de arrimo de suas laterais sendo todos importados diretamente de Londres. <br><br>A sua estrutura de ferro também tinha vindo da Inglaterra para a modelagem da construção da estação e de sua linha de montagem. A antiga Estação da Luz foi escolhida em um catálogo de origem britânica pelas autoridades da época, com a importação da estrutura metálica de ferro fundido que lhe dá sustentação até os dias de hoje e foi totalmente trazidas em navios da Inglaterra por meio de peças pré-moldadas e remontadas aqui no bairro da Luz. <br><br>O grande projeto inicial é atribuído ao inglês Henry Driver, sendo a estação similar à “Flinders Street Station”, uma estação de trens existente em Melborne, na Austrália, e que foi inspirada pela Chhatrapati Shivaji Terminus, de Mumbai. O local gerou até uma expressão idiomática nos paulistanos da época: "Eu o encontrarei sob a torre do relógio da Luz". Tal expressão fazia referência ao relógio instalado na torre da Estação, que era visto em todas as direções, desde a Avenida Tiradentes, do Jardim da Luz, Rua Prates e José Paulino, da Santa Ifigênia, da Avenida Duque de Caxias até um trecho da Avenida São João. O relógio era o principal referencial para acerto dos relógios da cidade. <br><br>No período áureo, ou seja, nas primeiras partes da vida útil da estação aquilo que poderíamos chamar de a "imagem da cidade", a São Paulo Railway (SPR) ou popularmente conhecida por "inglesa" foi a primeira estrada de ferro construída em solo paulista entre 1862 e 1867 por investidores ingleses e tinha inicialmente como um de seus maiores acionistas investidores o Barão de Mauá. Ela ligava Jundiaí a Santos e transportou por muitos anos até a década de 1930, quando a Sorocabana abriu a Mairinque Santos. A estação, vizinha do Jardim da Luz, compunha com o edifício da Pinacoteca do Estado um marco na definição da região da Luz, marcando os limites dos bairros do Bom Retiro e Campos Elíseos. Além disso, até meados dos anos 1970, um terceiro elemento configurava aquele espaço de forma bastante marcante: na perspectiva da Avenida Tiradentes localizava-se, em frente à Pinacoteca, um monumento à figura de Ramos de Azevedo, arquiteto responsável pelo projeto de diversos edifícios importantes naquele período, inclusive o prédio da Pinacoteca. <br><br>Desta forma, tendo como referência aquele monumento, alguém localizado tanto no Centro Antigo quanto nas regiões mais próximas ao Rio Tietê para o qual a Avenida Tiradentes se estende, poderia localizar o bairro da Luz e especular a que distância estava da Estação. <br><br>Meu pai entrou para a ferrovia em 1915 por intermédio do Nicolau Alayon e do Baltazar Fidelis, ambos os administradores da ferrovia naquela época, fregueses assíduos de meu avô paterno que tinha uma casa de comércio na esquina da Rua Mauá com a antiga Rua Conceição (antigamente se chamava Rua Triste), hoje Avenida Cásper Líbero, e através de contatos com esses dois clientes da loja de meu avô é que meu pai conseguiu um estágio gratuito de um ano completo para prática do telégrafo Morse, uma referência necessária na ocasião. <br><br>Em 1916 ele foi admitido definitivamente como telegrafista de terceira categoria, posteriormente, por merecimento e antiguidade, foi conduzido ao cargo de encarregado geral do telégrafo Morse, permanecendo na ativa até 1953 quando definitivamente se aposentou. Na década de 1946, quando estava se esgotando o prazo contratual de 90 anos com o governo brasileiro e os dirigentes ingleses, misteriosamente a Estação da Luz sofreu um incêndio, destruindo uma ala da administração, após o que o governo brasileiro tomou conta do patrimônio e surgiu a denominação da Estrada de Ferro Santos a Jundiaí da Rede Ferroviária Federal.<br> <br>Após o incêndio foi-lhe adicionado um novo pavimento no bloco administrativo. A partir desse período, o transporte ferroviário entrou em um processo de colapso e degradação no Brasil assim como também o bairro da Luz, por causa da migração da zona do meretrício onde as mulheres estavam confinadas nas Ruas Itabóca e Aimorés, no bairro do Bom Retiro, extinguidos durante o governo do Lucas Nogueira Garcez e foi se espalhando pelas ruas e cercanias do bairro da Luz levando também a Estação a igualmente a se deteriorar e degradar. Com as obras do Metrô de São Paulo, conduzidas na década de 70, o Monumento a Ramos de Azevedo teve de ser removido do local, levando a uma alteração radical da configuração espacial da paisagem original daquele local, assim como a sua percepção cotidiana dos transeuntes. <br><br>A Estação da Luz era tronco e estação central da antiga ferrovia Santos a Jundiaí. A linha foi desativada por completo em 1996, com a liquidação da Rede Ferroviária Federal. Em 1º de dezembro de 1996, no cumprimento do programa de desestatização proposto pelo Governo Federal de então, a antiga malha da Santos a Jundiaí foi entregue sob regime de concessão à MRS Logística para a operação de cargas, sendo que a concessionária tem hoje o domínio da ferrovia entre Santos e Rio Grande da Serra e a permissão para operar no entre Rio Grande da Serra e Jundiaí. Este último se encontra sob o domínio da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, que ali opera suas linhas 7 (trecho Jundiaí-Luz) e 10 (trecho Luz-Rio). <br><br>Agora se apercebendo da grande utilidade dos ramais ferroviários, finalmente o governo Federal se sensibilizou e percebeu a necessidade da expansão das ferrovias em todo o Brasil para o escoamento das mercadorias, interligando os principais centros de produção, facilitando e barateando o frete nos transportes públicos. Depois do sucateamento das ferrovias dando lugar as rodovias, o país se limitou a exportar as mercadorias com valores não competitivos com os demais países exportadores. Meu pai, de onde estiver, deve estar feliz ao sentir a sensibilidade do governo para a nossa velha, querida e eficiente ferrovia, tão esquecida e abandonada pelo poder público.<br><br>Vale aqui lembrar que em quase todos os países civilizados do mundo as ferrovias ocupam um papel de destaque ligando os estados, as cidades de norte a sul e de leste a oeste no escoamento de seus produtos industriais e agrícolas barateando dessa forma inteligente o frete das mercadorias transportadas. <br><br><br>E-mail: [email protected]