No Centro Velho de São Paulo, há uns anos atrás, sentia-se a seguinte impressão. Todos estão por aqui, andando apressados. Lembro-me de um conselho dado daqueles que tem medo de tudo. Disse-me uma voz, certa vez:
– Acostume-se a andar depressa em São Paulo, pois irão pensar que você é de lá. Que coisa pavorosa! Também dizia: Não fique olhando os prédios altos, pois saberão que você não é de lá! (SP). Patético, embora conselhos e caldo de galinha não façam mal a ninguém.
Acostumei-me a andar com passo apressado e se olhava para cima, olhava meio de esguelha, para não ser reparado. Eu “heim”? Aquela interjeição.
Mas o que queria dizer sobre a impressão é que aquelas pessoas apressadas, teriam no fim da jornada ou do que veio fazer, voltaria para os bairros. No Centro Velho, eram “poucos” os moradores. Se ia ao Centro para fazer alguma coisa, depois de feita voltava para casa. Naquele tempo o transporte principal era o ônibus, alguns elétricos que circulavam pelo centro.
Ora, no Centro Velho cada um tinha o seu trabalho. Ou em escritórios, nas lojas comerciais, consultórios médicos e odontológicos, e os que labutavam em lanchonetes e restaurantes. Claro, o pessoal que trabalhava nos edifícios, bancos, serviços de telefonia, etc. E além desses, uns atuavam nos estacionamentos, floriculturas, guardas e segurança, policiamento e os ambulantes e até os hippies lembram?
Momentos marcantes. Já escrevi sobre isso, horários dos lanches dos “executivos” que trabalhavam nos escritórios. Às 10 horas, havia o intervalo de 15 minutos, para reforçar o cadáver. Um suco natural, coxinha, ou algum petisco, empadas… O setor gastrônomo da cidade velha se sobressaia. Não me passava pelo pensamento, um dia, décadas depois, estar relembrando isso. Lá estava o Celso, o Agnelo, paulistanos e eu fazendo o nosso lanche.
Momentos memoráveis. No término do lanche rápido, o Celso, nosso chefe e grande companheiro, dizia sempre o jargão local. “Juízo hem!” Achava aquela saudação carinhosa, elegante e sem maldade. Também o Celso, que não era bobo nem nada, só dizia isso para as “meninas” bonitas do caixa. Tinha uma admiração por aquele homem. Não se espantem. Era competente na função, companheiro, amigo e com o espírito de equipe, um executivo cavalheiro em todos os momentos de convívio.
Uma vez ele me convidou para ir a sua casa, no final, lá longe na Avenida Celso Garcia. Casa simples, mista em madeira e alvenaria, o dormitório ficava acima, em um sobrado discreto. Dormi ali no seu quarto que havia mais camas. Fui acolhido como quem acolhe um peregrino. Um jantar simples, como se chama? O trivial. Uma delícia, pois havia nele a cortesia da casa, a racionalidade dos simples, isso foi servido antes do repouso, refeição própria para os da casa. Me senti nela.
Um registro. Lá do fundo das almas existem pessoas que procuram distorcê-las, não enxergando verdades, isso é próprio do agir inconveniente, desconhecem a sensível cordialidade dos nobres e dos anjos. Diz a Bíblia que devemos praticar a cordialidade, pois sem querer hospedaram anjos. Relato do Gênesis, hospedaram anjos na tenda de Sara e Abraão.
Não os estou julgando, apenas ressalto a indiscrição de alguns observadores que parecem expressar o bom humor, mas no fundo estão ironizando. Não tem importância, apenas estão se revelando a si próprios. Também nesse aspecto é preciso relevar, ter paciência, compreender. Se fazer de desentendido. Não os culpo também. Juro. É que a vida é feita de momentos alegres, espontâneos, simples, cada gesto é percebido ao atento observador. Dizem que se quiser conhecer uma pessoa, deixe-a falar. Provoque-a e terás sintomas do que seja. Também a cordialidade, os bons modos podem ser aprendidos. Basta querer. Esforçar-se.
Centro Velho para mim é uma festa. Se às vezes confundindo as ruas, para onde vai tal viaduto, não importa. É como se fôssemos um dia para Londres. Lá percorrendo avenidas, que se destacam por um detalhe, mencionamos, mas passou, é apenas um detalhe, observado da altura do elevado, não para ser de precisão tal como um relógio suíço, mas para dizer, que o gesto fino foi identificado.
Era assim que eu via as pessoas ao se comportarem e que encontrei por São Paulo. Vejam vocês que não falo de pessoas grossas, mal-educadas, mas sim de pessoas que cada maneira manifestada pode ser interpretada como uma conduta nobre. Não é para qualquer um.
Centro Velho está na minha mente como um quadro pintado a óleo. Pintura a óleo, depois de seca, ninguém mais remove, só se destrói com fogo, queimado com rigor, tornando-se, em minutos, cinzas. Mas quando a pintura é feita por mãos macias e ágeis, talentosas, o brilho evidencia-se. Assim, o Centro Velho me é tão rico, tão rico, como se fosse uma medalha adquirida com grande esforço, com sangue, com fome e saudades.
Esses ingredientes estão junto das palavras que escrevo sobre São Paulo, minha paixão descoberta nos anos 67… Ninguém apaga minhas lembranças. As formas com que detalhamos e esmiuçamos os momentos, aqui e ali, contém falhas, é natural. Todavia, os momentos vividos lá é como se fosse um garoto que sempre quis conhecer o mar. Não sabia como ele era. Só sabia que continha forças e beleza, mas não convencia falar, era preciso ver para compreender a sua importância e beleza. Assim é que conheci São Paulo, como um discreto conquistador ou aventureiro. Percorre o ambiente para ver como ele é. E depois de experimentado seu gosto, visto os modos de se comportarem, acolher, etc… Poder dizer, falar, escrever, complementando o sonho, o ideal, a busca, o conhecimento. Esse ninguém nos tira.
Para amar é preciso conhecer. Aparências enganam, diz o ditado popular. Ganhe afeto, convencendo; você é responsável por aquilo que cativa (Exupéry), não iludindo quem quer que seja. Isso é falsidade. Já dizia o poeta Lupicínio Rodrigues, aqui na terra não volto mais, não volto, a falsidade é muito grande, aqui na terra não volto mais, não volto mais.
"Centro Velho, se escrever sobre ti me dá arrepios, também me dá prazer".
E-mail: [email protected]