Quase asa branca

Já comentei sobre os pássaros que frequentam nosso jardim, atraídos por uma panelinha de frutas, e um vidro de água açucarada. Alguns ficaram famosos, como o sabiá Plínio, o Jovem, que nos visita desde filhotinho, quando acompanhado pela mãe.

E muitos outros, periquitos, sanhaços, pardais, beija flores, bem-te-vis, cambacicas. Até mesmo um canário, e belga, apareceu. Já relatei tudo isso. Felizmente, continuam vindo. Mas, sempre surgem novidades, caídas dos céus.

Certo dia, meu filho, vindo da academia, deparou com uma rolinha bebê andando pela rua. Não era, de forma alguma, o lugar mais adequado para tal passeio, quase implume, indefesa diante de carros, passantes ou predadores. Isto se não morresse de fome.

Foi então acolhida em casa, m uma gaiola muito grande para seu tamanho, e passou a ser alimentada no bico. Por sorte, era gulosa, e tudo aceitava de bom grado. E esses bichinhos se desenvolvem rapidamente.

Logo, Angelina – desculpem, nós a denominamos Angelina Rolie – estava já de bom porte, e a gaiola, antes grande, agora era pouca para seus voos. Hora de bater as asas. Onde a soltaríamos?
Não se via muitas outras rolinhas pelo bairro. Uma ou outra, numa rua aqui, noutra ali.

E não queríamos deixá-la ir sem companhia, uma só rolinha não faz verão…lembrei-me de uma casa nas redondezas que costumava manter um prato de quirera para os pássaros. Passamos por ali, e o prato continuava. Mas, rolinha nenhuma.

Passamos então a por alpiste no jardim de casa e as rolinhas foram aparecendo. Poucas, a princípio. Colocada sua gaiola na mesinha de centro, Angelina logo passou a demonstrar sua inquietação por seguir as colegas. Abri então a portinha, e lá se foi ela para o galho mais alto do ipê. O caso foi resolvido em casa mesmo.

Desde então, quirera e ração passaram a fazer parte de nossa rotina. Mal espalho pelo chão, e acontece, logo que viro as costas. Vindas como do nada, dezenas de rolinhas descem ao mesmo tempo, disputando as sementes. Um dia, porém, novidades no pedaço. Meu filho declarou: “tem vindo também asa branca. Vocês já viram?”

E realmente, tínhamos visto umas pombinhas maiores, e mais claras que as rolinhas. Não mais que um casal. Mas de tamanho, aspecto e comportamento – menos arisco, bem diferentes.
Até mesmo asa branca bateu asas do sertão? E isto justo na comemoração do centenário de Gonzagão, o cancioneiro mór do Nordeste?

Seria mesmo a famosa Asa Branca, pássaro imortalizado em sua canção? Fomos verificar melhor, e não era. Mas, quase. Asa branca, também da família dos columbídeos, ou pombos, é maior e mais escura. Só quando bate mesmo as asas do sertão é que se vê o branco debaixo.

As nossas são avoantes – nome que, pelo jeito, também provém lá do agreste. E parentes próximas da asa branca.

Mais arrebentes que vêm ocupar a complicada São Paulo, e, tal como os seus predecessores, aqui serão por nós bem acolhidas.
Quem sabe um dia, seguindo seus voos, também aporte aqui a sua famosa parente, trazendo no rufar das asas uns discretos resquícios dos lamentos do mestre sertanejo.

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