A esperança é a última que morre

Naquela terça-feira chuvosa saio de casa às 11h, tenho que ir ao ponto da Nove de Julho pegar um ônibus, chegar na Vila Nova Conceição ao meio-dia e mostrar para minha cliente Dona Júlia um apartamento de dois milhões totalmente reformado. Ando cinco quarteirões chegando no ponto. No ponto tem a placa das linhas que param ali, onde aparece o Jardim Selma, que passa na Nove de Julho, Praça das Guianas, Canadá, Brasil e República do Líbano onde desço na João Lourenço.

Vejo o meu ônibus só que ele está vindo em fila dupla e nem consigo fazer sinal. Perdi. Agora é esperar o próximo … Grande veículo para transporte de muitos passageiros com itinerário e pontos preestabelecidos chamado ônibus. 20 minutos depois vejo outro Selma, só que está parado no ponto anterior de onde estou. Sinalizo e vou correndo tentar pegar o ônibus distante 30 metros do ponto onde ele devia parar. Mas mesmo me vendo sinalizar ele sai sem me esperar e já vai para a pista do meio, por que lá na frente tem que virar á direita na praça.

Sinalizo com o guarda-chuva para ele parar para mim, mas ele simplesmente acelera na minha direção. Já estou no asfalto mais de metros da calçada, vejo que o ônibus não vai parar, levanto o guarda-chuva e dou com tudo no para-brisa dele. O ônibus diminui, parando dez metros de mim. Vou na direção do ônibus perguntar para o motorista se ele bebeu, mas ele me vendo aproximar, acelera se afastando e fazendo sinal com a mão apontando para trás.

O carinha parado no ponto me olha não acreditando no que vê, juntamente com mais algumas mulheres na plateia, então ele fala:
– “O motorista está apontando para o primeiro ponto onde ele está parando faz tempo, a parada dele sempre foi no segundo mas de repente mudaram, começaram a parar lá e agora todo mundo se confunde.”
– “Caramba, mas por que não mudam essa porcaria de placa do ponto?”
Falei me sentindo um idiota com a ponta do meu guarda-chuva amassado. Desisto. Pego um táxi e vou contando o caso para o motorista.
-“ … lá fora motorista não permite ninguém no ônibus ficar de pé, nem ficar de pé falando alto para vender, entrando de graça e deixando a gente sem graça.”
– “É.”
– “Pois é. Noutro dia entrou no ônibus um fulano e quando ele não conseguiu vender nada, simulou um assalto assustando todo mundo, dizendo que estava armado e ia matar o cobrador. Eu estava pensando em me defender. Ele corria risco de vida.”
– “E daí?”
– “Daí que quando chegou no ponto ele desceu rindo alto e tiveram que acudir uma mulher desmaiada quase sem respirar. Não sei o que aconteceu pois tive de descer no próximo ponto.”

Fiquei com tanta raiva que alguns dias depois um cara usando nariz de palhaço entrou no ônibus que eu estava, já fui falando antes dele começar a fazer o velho discurso:
– “O meu se você gosta de falar alto no ouvido dos outros vai trabalhar na feira, deixa de incomodar quem paga passagem e quer viajar sossegado. Abra a boca do meu lado, que eu te faço comer todos esses chocolates com papel e tudo!”

Falei segurando o braço dele delicadamente. Acho que ele não gostava de papel, pois desceu no primeiro ponto sem dar um pio. O meu motorista do táxi já está meio pálido achando que está transportando um gordo careca desvairado bem vestido e perfumado. Chegamos. Era meio-dia em ponto e onde está a minha cliente? Esperei a figura quase uma hora, mas ela não veio e não telefonou desmarcando nosso encontro.

Vou embora. Vou andando pela República do Líbano até a firma na Estados Unidos. Vejo um carro escuro sair da faixa do meio para pegar a faixa da calçada onde eu estou, alcançando uma longa poça de água que molha um bocado o meu paletó. Andando com o paletó pendurado na mão para secar, vou pensando: Temos aquele maravilhoso ponto de ônibus na República do Líbano, novo, perto do Clube Monte Líbano. Um ponto com assentos e cobertura, onde muita gente fica esperando passar coletivo, mas não passa nenhuma linha ali.

De vez em quando o que passa é o funcionário da firma ao lado, avisando aos infelizes desavisados que só passa ônibus no próximo ponto, uma quadra distante. Se você perguntar ao funcionário porque o ponto não é retirado do local ele ri e diz que pelo menos assim ele pode ser útil de vez em quando. Ele é um exemplo de civilidade, palavra atualmente meio esquecida e em desuso.

Tinha essa matéria Educação Cívica na Caetano de Campos ou no Coração de Jesus. Acho que esquecemos. Mas pensa Pedro, você com 60 anos e quando vai mudar? …acho que nunca. Espero que as pessoas tratem melhor as outras pessoas na minha cidade (“me tôo”). Bem que isso poderia acontecer, pois é muito cansativo discutir e ter de ficar dando guarda-chuvada em ônibus.

Interessante… Aquela minha dor no ombro direito que me atrapalhou durante meses e eu não sabia o que fazer para melhorar e nem parei de usar computador, depois da pancada do ônibus no meu guarda-chuva minha dor passou como por encanto. “Plimmmmm!” Que alívio… Se soubesse disso eu tinha enfrentado o Selma antes.

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