"Entre as Flores" da Afonso de Freitas

Primícias do ano, já quase no segundo bimestre. Nesta época, muitas – e muitos, claro, já que sonhar não é apanágio exclusivo feminino, ora bolas! – sonham com os preparativos das festividades do mês das noivas em maio. E já vão minudenciando com esmero (vestido, grinalda). Tudo lindo. E tudo caro. Não se podem negligenciar as flores.

Quem conhece de longa data a Rua Afonso de Freitas, não pode ter deixado de passar alguns minutos lobrigando e elegendo vasos e ramalhetes para obsequiar entes amados em datas festivas, em frente à vitrine da mais antiga floricultura do bairro. Ali instalada desde 1974. Talvez os leitores apreciem alguns fatos sobre a família que gerencia o entreposto das mimosas filhas da Ninfa Flora.

Em 1912 celebrou-se o bicentenário da imigração chinesa ao Brasil. Em 1812, Dom João VI, o rei de Portugal e Algarve e Vice-rei do Brasil, manda trazer chineses, via Macau – então sob administração lusa, o que só se encerraria em postrimeiros anos do passado século XX, quando se tornou a R.A.E.M, Região Administrativa Especial de Macau, de volta ao controle de Pequim – trabalhadores para iniciar o cultivo do chá em solo nacional. Destes míseros fâmulos agrícolas, restaram poucas centenas, dispersos por Rio de Janeiro e São Paulo, em condições quase infra-humanas. Já nas décadas de 60 e 70 do século XX, a imigração chinesa reiniciou.

Em 1973, pela primeira vez o jornal Shin Chû Kuô (Nova China), de Formosa, como chamávamos a República da China, hoje Taiwan, aos azos a única com a qual tínhamos relações diplomáticas, seguindo os ditames estadunidenses, publica um artigo, alertando para que provavelmente o governo brasileiro, "ditadura militar alinhada aos Estados Unidos, seguirá seus vizinhos setentrionais e estabelecerá relações com o regime comunista de Pequim. A emigração ao referido país sul-americano ficará mais difícil."(jornal Shin Chû Kuô, 04 de março de 1973).

Milhares de formosinos – ou taiwaneses, ou chineses de Taiwan, como agrade aos leitores – aproveitam para vir ao Brasil, atraídos pelas dimensões continentais do país e pelo temor de novos enfrentamentos com os continentais, como ocorrera em 1949, quando Chiang Kai Chek fugira a Formosa. Chega a família dos donos da floricultura em começos de março de 1973. Abriram a floricultura em 1974. Há 39 anos na mesma rua, pioneiros na venda de cíclames em vasos.

Andávamos em meados de 78, quando parei em frente à floricultura, procurando um vaso para presentear uma amiga. Surpreendi-me com uma bandeira que não conseguia identificar: fundo encarnado e um sol geométrico de círculo e triângulos azuis como raios. Foi indagando a procedência da insígnia que conheci o dono, senhor Liu.

Ele próprio narrou-me a vinda da família quando leram o artigo do periódico de maior circulação do país asiático. O intuito era batizá-la com o poético nome de Hu'a Chie – "em meio as flores", segundo mo referiu o fundador. Porém temiam que ninguém compreendesse o significado e alteraram para um termo inglês mais ou menos símile à expressão chinesa.

Quem passar em frente ao estabelecimento comercial em questão não tardará em reconhecer: a floricultura é a única da rua e o nome será prontamente entendido. Particularmente prefiro a expressão chinesa: tem a sonoridade peculiar da língua de Wang Wei e dos analetos confucianos.

Um "florilégio" de narrativa sino-paulistana, numa São Paulo de tantas.

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