Começo dos anos 50, algumas casas antes da sapataria do Ministrinho onde depois foi a pensão da Da. Vick, era a pensão do seu Freitas – um baiano ligeiro e falador, chefe de uma família de nessa época cinco filhos, a mãe Da. Esther teve os filhos e batizou-os com nomes que começavam com a letra Z, difícil escolha, mas na pia batismal os nomes dados foram Ziltom, Zitler, Ziclér, Zilando e Zineide, mais tarde, a raspa do tacho recebeu o nome de Zicleide.
Eu fiz amizade, inicialmente, com o Zilando, que para meu desgosto na época era 3 dias mais velho do que eu, ele nascera em 23 de maio de 1940 e eu no dia 26 de maio desse mesmo ano.
Outro assunto que mais tarde me deixava chateado era o comentário que ele fazia dizendo que ele seria homenageado pela cidade de São Paulo e iria ter uma grande avenida batizada com a data de seu aniversário.
Na realidade o Zilando foi e é um grande amigo, nossos caminhos lá na frente enveredaram por bifurcações diferentes, mas sei, com certeza, nossa amizade continua e será eterna.
Mas voltemos à memória motivadora deste texto. A família Freitas já havia se mudado para uma casa da Rua Marquês de Paranaguá, quase esquina com a Rua da Consolação, e ali instalara uma nova pensão, da mesma forma como depois foram para a Rua Bento Freitas, ou para Rua Frei Caneca, e tantos outros endereços. E nossa amizade cada vez mais firme, eu já era considerado membro da família.
Mas, no início, lá na Marquês de Paranaguá, nossa amizade ainda estava se sedimentando, vem um convite para que eu fosse passar um fim de semana com toda a família na chácara deles.
Essa chácara ficava no Rio Pequeno, localidade, na época, quase desértica da zona oeste, antes de Osasco. O pedido de permissão para minha mãe foi feito pela Da. Esther (mãezinha no tratamento dos filhos). Autorização concedida, lá fomos nós.
Na época para se chegar à chácara era um tanto dificultoso para quem não tinha condução própria. Tomava-se um bonde na Consolação e descia-se no Largo de Pinheiros, na Rua Butantã embarcava-se em um ônibus para Osasco, descia-se no segundo ponto depois do Mercadinho, subia-se um morro, descia-se pelo outro lado e estávamos na propriedade, parte baixa onde ficava a piscina, para chegar à casa subíamos outro morro por dentro do pomar de arvores frutíferas e generosas.
Fizemos toda essa peregrinações e entramos na casa vasta e agradável. De imediato, trocamos de roupa, pusemos os calções (termo usado na época para uma coisa parecida com as sungas de hoje, aliás, sunga era usada por dentro do calção para resguardar as partes de olhares mais curiosos ou gestos mais desprovidos de harmonia) e devidamente apetrechados, descemos o morro para cair na piscina que tinha o nome de minha mãe. Piscina Santa Therezinha.
Novato e sem grandes conhecimentos de natação, fui apresentado aquele reservatório de água. A piscina era rústica, toda em cimento e sem revestimento especial, na parte rasa ela tinha dois grandes degraus e depois iniciava a se aprofundar começando com 1 metro e terminando na outra ponta com quase 3 metros de profundidade.
E foi nessa parte rasa que eu me deliciei por quase toda a manhã, por volta das 13 horas a feijoada correu solta e nós só pudemos retornar à piscina depois das 15:30 h. e lá, em conversa com o Zilando, fiquei sabendo que na parte funda tinha um degrau de descanso a 50 centímetros da borda e na farra lá fui eu procurar o tal degrau, achei e adentrei na piscina ficando em pé nesse degrau, então o Zilando me disse que mais abaixo tinha outro degrau, falou brincando, sem medir as possíveis conseqüências dessa brincadeira.
Eu acreditei e desci na busca desse descanso salvador, não achei nada e no desespero fui parar no meio da piscina. O Zilando ria da situação sem a avaliar corretamente o perigo que me cercava. Eu subia e descia batendo freneticamente braços e pernas.
Minha salvação foi que o seu Freitas (paizinho para os filhos) percebeu minha agonia, deu o alarme e o Zilton que era oficial da aeronáutica, pulou com roupa e tudo e me tirou para fora da água.
Eu e o Zilando levamos a maior bronca, mas como não houve seqüelas a aventura foi esquecida. Minha mãe somente soube desse fato depois de muitos anos. E essa chácara foi nosso recanto de férias e fins de semana por muitos anos.
Só percebi que ela não era tão longe quando, depois de casado, fui morar próximo ao Parque Continental e bem depois do Rio Pequeno.
Tenho mais memórias sobre a chácara e um dia as contarei com certeza.