O santo médico de Homs e a homenagem de um filho

Ano de 1054 d.C. Culmina o distanciamento, iniciado já havia no mínimo dois séculos, entre os impérios romanos do Ocidente e do Oriente. Por motivos geográficos (Ocidente X Oriente), culturais (uma região marcada pela cultura latina X lídimos descendentes das culturas helênica e bizantina), de estrutura econômica (região com bases nas atividades agro-pecuárias x economia fundamentada no comércio) e, sobretudo, teológicos (Jesus Cristo seria divino, humano, ambas as coisas sem uma fusão entre as mesmas, ou um ser híbrido? Ninguém chegava a um acordo), dá-se o Grande Cisma. <br><br>As igrejas católicas e ortodoxas orientais se separam, divisão que só se superaria parcialmente em 1993, quando o papa João Paulo II e o arquimandrita da Igreja Ortodoxa Antioquina deliram a excomunhão mútua do século XI. Não obstante, a maioria dos santos, seja de devoção comum, há os exclusivos de cada diocese. Santo Elias de Homs é cultuado somente pelas igrejas orientais, principalmente a antioquina, a grega e a siríaca.<br><br>Em 1905 nasce em Homs, na “antanho” Síria, sob jurisdição turca, o senhor Jurjos Chakur. Em 1917, uma epidemia de tifo assola a região. O jovem Jurjos, que contava com apenas 12 anos de vida, contrai a enfermidade. Todos os médicos afirmavam que não sobreviveria. Certa noite, ouviu ruídos de alguém a pilar na edificação aos fundos de sua residência. Altas horas da madrugada, todos dormitavam, à exceção do doente, insone pelas dores. Abre-se silenciosamente a porta e surge um homem que lhe dá de beber um medicamento aviado manualmente, como se soia fazer aos azos.<br><br>Três dias depois, Jurjos e outros habitantes da cidade que também padeciam de tifo achavam-se, para surpresa de todos, sanados. Contando 16 anos, Jurjos vem ao Brasil, tentar uma nova vida, longe da pobreza e da falta de oportunidade de uma província turca que não se desenvolveria sequer sob a administração francesa sob a qual cairia mais tarde.<br><br>Casa-se com uma paulista, filha de sírios, Dona Zuraida, em 1925. Em 1930, vem ao mundo o segundo rebento do casal, Abdo Chakur, que tomaria a profissão de engenheiro pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, colando grau em 1954. Em 1956, Dona Zuraida falece precocemente de cancro. Para homenageá-la, Abdo, então presidente de uma pequena firma de engenharia encarregada de construir uma grande edificação, que comportaria estabelecimentos comerciais na parte térrea e apartamentos residenciais na superior, batiza o edifício com o antropônimo da progenitora.<br><br>Trata-se do edifício Zuraida, número 18 da Alameda Santos, à capital paulista. Em 1985 o pai, senhor Jurjos, a beira da morte, conta-lhe sua cura teoricamente impossível e pede ao filho que homenageie seu físico curador. Em 1987, um anexo ao edifício Zuraida é reformado, originando um pequeno edifício de escritórios, o número 32 da referida alameda, que porta por título o do salvador de centenas de “homsianos” da epidemia de 17: Santo Elias de Homs. Detalhe: o santo faleceu em 207, depois de Cristo.<br><br>A história me foi contada pelo senhor Abdo. Creio piamente, pois minha bisavó, também de Homs, presenciou a peste, antes de vir ao Brasil. Ela morava ao lado da Igreja de Mar Elian e todas as noites ouvia-se alguém batendo o pilão no interior do templo. O senhor Jurjos morava em frente à igreja. Era Mar Elias, aviando as medicinas ao pilão. Dia 6 de fevereiro as igrejas orientais celebram Mar (Santo em siríaco, aramaico e árabe) Elias. Isto pode ser aferido ao calendário litúrgico da Igreja Ortodoxa, da Rua Vergueiro.<br> <br>Sobre a epidemia tifoide, sugiro o portal do mais antigo periódico francófono em circulação do mundo, L'Orient Le Jour (www.lorientlejour.com, premir o ícone "chercher éditions historiques", digitar "typhus 1917 en Syrie"). Sobre outras pessoas que foram curadas pelo santo em 1917, leia-se o volume<br>31 da Revue d'Histoire des Réligions, "Saint Élie de Homs: saint guérisseur" (podem encontrá-la à biblioteca da F.F.L.C.H.U.S.P.).<br><br>Não espero que deem crédito ao falecido senhor Jurjos, minha bisavó ou a este narrador. Porém, eis a história da origem dos nomes de dois edifícios da Alameda Santos. Se passarem em frente, por favor rezem para que cesse o infortúnio que se abate sobre a Síria e o feroz regime que reprime a milhares de seus cidadãos.<br> <br><br>E-mail: [email protected]