Valentes, Vagabundos e Ordinários

Valentes, Vagabundos e Ordinários. Este era o currículo que predominava para muitos dos moradores da Vila Olímpia no final dos anos 1950, início dos 60.
A Vila Olímpia estava nos primeiros lugares do ranking da coisa ruim. E põe ruim nisso. Em certos bairros só de ouvir falar no nome do bairro tinha gente que tremia igual vara verde.
Até um time da Vila Maria, bairro tido como de gente brava e forte, um dia tremeu na Vila Olímpia. E respeitou muito a vila quando do jogo de volta foi lá em seu território. Os valentes da Vila Olímpia iam com tudo em qualquer região, não só da cidade como no estado. Brigas eram com eles mesmos. Quando o Flamengo ou a Portuguezinha iam jogar em campo adversário o pau comia solto. E quem levava a pior eram os donos da casa.
Para se ter uma idéia de como a coisa na Vila Olímpia era ruim, foi de lá que saiu o primeiro assassino de motorista de praça. Foi Natanael, um cara revoltado por ter seu pai acorrentado ele por muito tempo ao pé da cama, devido ser sangue ruim. Quando do crime ao taxista ele estava acompanhado por Nego, um cara tranqüilo que não participou do crime, mas por estar junto foi condenado a uma pena menor. Natanael pegou 24 anos de cadeia. Quando saiu resolveu matar o juiz que o condenou. Invadiu a casa do Meritíssimo no Brooklin, este estava ao telefone com um delegado, que sentiu algo estranho na mudança de voz do juiz. Mandou a polícia na residência. Ao chegar lá houve um tiroteio, uma pessoa da família do juiz, filha ou Mãe, não me lembro bem, acabou morrendo baleada e Natanael ficou crivado de balas.
Um dia fui visitar um amigo meu que estava engaiolado na detenção. Muitos da Vila Olímpia estavam lá devidamente guardados. Birolho, Loreca e outros que eram gatunos. Loreca não era da lista dos valentes, mas era um gatuno de mão cheia, era o rato de quintais, desde roupas nos varais a botijão de gás. Fazia uma bela limpeza em residências.

Dessa turma de vagabundos em quem a polícia nunca botou a mão foi no Gato. Crioulo esguio, forte, olhos verdes, que flutuava aos olhos mulheres num encanto simplesmente fora do normal. Era segundo línguas, o quebra galho de mulheres carentes e frustradas no casamento. E como elas eram felizes, muitas delas faziam a apologia do grande garanhão, assim na cara dura. Este era o Gato, cujo nome verdadeiro ninguém sabia. Somente eu e Candinho sabíamos, e também por acaso. Um dia ele mostrou a foto de uma linda moça de cabelos longos, uma loira muito bonita, corpo escultural, que ele entregou dizendo que se tratava de um travesti. Era um professor de dinheiro, que o financiava em muitas coisas. Na foto ofertada pelo traveco, tinha uma dedicatória: Ao Edson, com muito amor. Gato era um dos valentões da Vila. Numa refrega com Gegê, só ficou sem uns dentes porque Gegê era muito forte e o agarrou para dar-lhe uma cabeçada, na tentativa de apartar fiquei com sangue pela camisa. Numa briga, não conseguindo o agarrar, ele dava pernada em tudo e todos que estavam por sua volta. Rabo de Arraia era com ele mesmo. E olhe que nunca se esqueceu da arraia. Em 1967 eu o encontrei na padaria Vitória Régia (Rua Cardoso de Mello, esquina Ponta Delgada). Mal cumprimentou já foi dizendo: Branco, dei um puta coro no Zezo ontem na Vila Nova, que só Deus foi testemunha.
A encrenca foi por causa de ponto de drogas. Disse a ele:
– Cuidado Gato. Ele é mais fraco do que você pode te pegar a traição, e ai você vai levar desvantagem. Dois dias depois, 23 de maio de 1967, Zezo está que nem louco à procura de Gato. Corria numa bicicleta por todos os cantos do bairro. Até que o encontrou no bar do Bonelli, (Rua Alvorada quase esquina com a Rua Nova Cidade). Parou a magrela e foi logo dizendo: Gato, hoje vou te matar! Só não te mato agora para não prejudicar o Bonelli. Pegou a bicicleta e, subindo a rua Alvorada, entrou na Rua Baluarte, desceu a Cardoso de Mello e virou a esquerda na rua Nova Cidade. Nesse momento Gato tinha deixado o bar e estava e virou a direita para a Nova Cidade, batendo de frente com Zezo, que mal desceu da bicicleta de deu dois tiros em Gato deixando esticado bem no meio do leito carroçável. Terminou ali, uma vida de muita vagabundagem e pequenos furtos. Seu trabalho para sobreviver. Logo, a rua ficou cheia de gente. E, quem não conhecia o Gato? Muita tristeza, por quem conviveu bastante com ele como eu, por exemplo, seu colega de futebol em vários times. A mãe do Dinho chorava convulsivamente como se fosse o filho dela ali esticado. Já tinha gente cochichando. Vai ver que ela era comida dele. Mas, na verdade, ele era amigo do filho dela. Muitas vezes, almoçava lá na companhia dela e do filho. Uma coisa que ele tinha de bom, sabia respeitar a casa dos amigos. Quem ria de boca a boca era o Altino, o carvoeiro da Vila que depois se tornou jornaleiro. Gato fazia às vezes dele na cama com sua mulher. Além do Gato, tinha outros valentões, na Vila. Adão, Pelocha e Álvaro, três caras da pesada. Batiam sem dó até na mãe se fosse necessário. Um dia eles resolveram ir ao Bixiga dar uma chegada nos treme tremes da rua Pain. Quando estavam na praça 14 bis, mexeram com uma mulata que fechava todo o comércio da 25 de março. Ela já estava próxima ao barracão de ensaios do, ainda, cordão Vai Vai. Chegando lá contou para seu macho o ocorrido e para lá foram três que também não ficavam atrás numa encrenca. Foi porrada para todo o lado. Ao final do quebra pau, eis que sai todos ensangüentado o trio de valentões da Vila Olímpia. O que me surpreendeu foi que eles contaram com a cara mais lavada do mundo o que aconteceu, na íntegra. Não tiveram um pingo de vergonha. Esse trio e mais o Gato, quando ainda vivo, tinham a mania de encerrar as atividades dos parques de diversão não só da Vila Olímpia como também do Brooklin Novo. Era 1958, e eles entravam no Bar de dona Conceição, conhecida cafetina do bairro. E iam todos para traz do balcão colocar seus revólveres. Sempre vinha a polícia (saudosa Guarda Civil) dar batidas nos bares, pedir documentos e revistar.
Já Zé Nabero (José Nabeiro) era o oposto dos acima citados. Cara tranqüilo pacato, muito boa gente. Por ter fisionomia bonita era paquerado por todas as moças. Mas era casado, e bem casado. Sua esposa era nossa amiga, e na casa deles se fazia àqueles bailes regados a Cuba Livre e Hifi. Nabeiro um dia veio com aquela notícia que todos gostam de ouvir. Ia ser pai.
Começou então aquela expectativa até a chegada do nono mês. Durante a gravidez perguntas e mais perguntas. Adivinhações sobre se seria menino ou menina. Eis que chegou a hora e veio um menino. Mas não foi muito além. Dias depois ele morreu. Não me lembro o que aconteceu. Mas me lembro muito bem que fomos dar um apoio a ele e esposa que saíam do hospital. Quando sua esposa estava entrando no carro Nabeiro avistou o médico.
Foi até ele e perguntou qual o procedimento que sua esposa teria de fazer com respeito ao leite, pois seus seios estavam cheios. O médico com um sorriso maroto disse; coloca um bezerro para mamar. Mal terminou a última silaba levou uma tremenda porrada na cara e rolou escada abaixo. Quando deu com os costados no último degrau levou um chute pela cara. Foi difícil segurar o Zé. Aquele que nunca foi valente um dia mostrou o que era.