Sob a mira das armas da amizade

A pacata Rua Groenlândia, no fim dos anos 60, abrigava (deve abrigar ainda) a residência oficial do comandante do II exército, cujo quartel está situado no Ibirapuera.
Casa de esquina, muro baixo, cercado de folhagens Espinho de Cristo, tinha, tanto na própria Groenlândia como na Rua Venezuela três ou quatro guaritas, nas quais ficavam perfilados sentinelas.
O maior aparato que se via era quando o general entrava ou saía de casa e um ou dois pracinhas paravam momentaneamente o trânsito. Fora isso, tudo o mais era discreto e impressionantemente calmo.
Meu pai tinha uma mercearia há mais ou menos 100 metros da casa do general, como era conhecida e diariamente os pracinhas vinham até nós para comprar lanches e refrigerantes que levavam para saboreá-los entre as refeições normais.
Falávamos pracinhas, mas na verdade era a tropa de elite do exército, a famosa PE, com seus uniformes impecáveis, lenços brancos no pescoço e outros aparatos. Era engraçado pois se um deles aparecesse com roupa de “briga” ou seja de trabalho interno teríamos dificuldades em reconhecê-lo. Mas o interessante é que eles vinham diariamente à nossa mercearia e levavam sempre aquele algo mais que meu pai acrescentava aos seus fregueses. Até os empregados domésticos conheciam o valor dos diversos tipo de sanduíches ou o tempero das famosas sardinhas fritas feitas pela minha mãe e que eram vendidas no balcão.
Uma vez, o próprio general deu uma passadinha por lá. Nem desceu do carro.
Apenas um dos pracinhas veio até meu pai, falou alguma coisa, gesticulou, deu uma piscadela, como dizendo “O homem está ai”. Meu pai sorriu, fez um breve aceno e o carro se foi.
Uma noite, voltávamos nós de um passeio e o pneu de nosso carro furou.
Furou justamente em frente da casa do general.
Tão logo o carro parou, dois pracinhas se acercaram do carro, dando ordens para que saíssemos dali. Argumentos daqui, ordens dali, um princípio de tumulto, até que um dos pracinhas reconheceu o velho “seu Zé” da mercearia.
O mais rapidamente possível correu até o capitão da guarda e informou quem estava por ai. O capitão, soubemos depois, que já ia tomar providências mais enérgicas contra os suspeitos, abrandou a voz, abriu um sorriso e deu ordens para deixar a gente trocar o pneu com calma.
Assim foi feito, enquanto eu lutava com porcas e parafusos e meu pai rodava pneus cheios e vazios daqui para lá, dois pracinhas ficaram ao lado do carro, batendo papo com a gente, armas nos ombros, fazendo uma guarda diferente.
Estávamos nos fins dos anos 60, na velha e pacata rua Groenlândia.