Traí. Sim, não escondo. A esta altura da minha vida seiscentista, optei por confessar. Penso que a confissão é, quase sempre, um ato nobre. Tirante uma que se faz ajoelhado por motivo religioso e outra, arrancada sob ameaça ou tortura, a confissão tem lá sua nobreza. É uma confidência, um segredo repentinamente escancarado. Faz bem ao ego e se vier acompanhada de um bom arrependimento (que não é o caso) pode-se conseguir um belo perdão.
Traí, como dizia, meu grande amor. Não foram tantas vezes que só me reste a penitência do inferno, nem uma só vez, o que me faria mandar o castigo aos diabos. Fiquei em uma espécie de meio termo. Por duas vezes fui infiel à minha amada, o que me coloca, pelo menos em minha ética, alguns dias num brando purgatório.
Em uma dessas oportunidades que o fado proporciona, deixei minha amada por sua vizinha. Vizinha! Fui morar com ela por três anos! O motivo? Minha grande paixão estava me custando os olhos da cara, acompanhados por talões de cheque e cartões de crédito. Antes da falência fatal, fiz mala e enchi a cuia. Depois de recuperar minhas finanças, voltei ao grande amor. Sabem o que ela fez? Abriu os braços e me recebeu. Assim mesmo, como se nada tivesse acontecido! Até parece que fui ao bar tomar uma cerveja, enquanto ela preparava o jantar.
Não aprendi a lição. Tanto é assim que tive uma paixão súbita, tempos depois. Fui atraído por uma amante, também brasileira, com sotaque diferente e fala deliciosa. O repentino idílio teve a duração eterna de quatro anos. Quem já teve um novo amor que rejuvenesce, que nos faz viver uma imensa e infindável criancice? Eu já. E foi assim que voltei aos braços da minha antiga amante.
E, desta vez, minha amada me recebeu como uma mãe recebe o filho depois de uma inocente arte. Eu aos prantos. Ela sorria! Foi o fim de minhas desventuras. Não casamos, simplesmente vivemos juntos como todos os falsos casais modernos. Nossa relação sempre foi aberta, sincera (minhas traições não contam!). Eu a conheci ainda criança e foi um desses amores à primeira vista de que tanto falam. Estamos juntos até hoje e assim ficaremos para sempre. Espero ter criado juízo.
Tivemos, durante esse tempo todo, nossas briguinhas. Coisas de casal, nada sério. Ciúme? Ela não tem, não que eu saiba. Eu tenho, e muito! Especialmente durante as festas que damos. Ela recebe a todos tão bem, com um afeto, um carinho de causar inveja. Os visitantes querem voltar sempre! Pensando bem, acho que não é ciúme. Se fizer alguma diferença é egoísmo! Eu, que me dividi tanto, não quero reparti-la com ninguém… Claro que meu amor é de outros também. Se eu quiser ficar com ela, tenho que aceitar.
Já que entrei por esses atalhos íntimos, me permito neles caminhar. É que a danadinha é tão bela que tenho que falar do seu corpo. Muitos dos seus falsos amores o maltrataram. Cuspida e escarrada é minha amada, mas de beleza eterna, esculpida por Brecheret, desenhada por Ramos de Azevedo e Niemeyer.
Poetas, romanticamente, tossiram sua garoa até prematura morte. Outros passearam por seus Campos. Leminski a ela foi apresentado por Décio, o Pignatari mostrou ao paranaense a concreta flor do Lácio paulistana.
Elis, a Deusa maior, e Demônios cantaram Adoniran, o querido maloqueiro. Baianos passearam na garoa e tocaram as curvas esculturais e as esquinas do meu amor. Surgiram moços Premeditando a Lira, Arrigo atonal e dodecafônico. Obrigado, Zélia (amada nova mutante paulistana), por reviver o sempre vivon Itamar (um beijo, Nego Dito).
E obrigado, muitíssimo obrigado, Rita de Sampa (nunca mais fale em parar, minha Santa).
Obrigado a todos que rimam, desenham, esculpem, constroem e cantam minha amada.
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