Se eu pudesse dar um presente para uma Senhora aniversariante, eu tentaria dar o meu respeito, confiança e esperança. Essa Senhora, capaz de juntar esforço, sabedoria, paciência, acolhimento, cultura, história e trabalho… Às vezes, irritadíssima com as pessoas que teimam nas mais diversas formas de violência, acaba chorando. E chora tanto que chega a alagar ruas inteiras e uns tantos filhos seus até perdem a casa, seus móveis e têm que procurar arrego na casa de algum parente ou amigo carregando seus colchões na cabeça. <br><br>Essa Senhora é uma mãe amabilíssima. De início, tinha filhos tupiniquins, Kaiapós e kaigangs. Esses filhos brigavam aos montes e davam muito trabalho para a Senhora, que já era sábia em pleno século XVI. Mas ela resolveu, tempos depois, acolher outros filhos. Recebeu com alegria como filhos adotivos vários portugueses. De imediato não entendeu bem o que estavam dizendo. Eram jesuítas chegando e diziam que iriam propagar o catolicismo por ali. A Senhora até pensou: mas os meus filhos legítimos têm sua fé e vivem bem com ela, mas mesmo assim, acolheu. Gostava de chamar o José de Anchieta de Zezinho, o outro de Manuelzinho e assim por diante. Eu só sei que eles acabaram ficando. <br><br>Inventaram logo de criar uma igreja, rezar missa e até disseram que fundaram a cidade. Depois, o coração da Senhora foi deixando entrar outros filhos, mas tantos, mas tantos que ela perdeu a conta. Parece que o mundo inteiro ficou sabendo que existia por esses lados uma mãe generosa, acolhedora, capaz de fazer pratos deliciosos e sempre muito variados. E a comida acabava sendo farta e variada. Uma mãe incrivelmente poliglota e que entendia tudo o que os novos chegados falavam. Abraçava as pessoas vindas de países assolados por guerras… E quantas guerras! Gente corrida da fome, do desemprego e de tantas formas de perseguição. Gente que procurava trabalho e trazia a família toda, carregando seus pesados baús com poucas roupas, ferramentas e saudades. Depois começaram a aparecer milhares de novos paulistas de outras partes do Brasil mesmo, sabendo que ali, nessa terra ainda nova, não faltava água nem comida e que seria possível trabalhar. Quem sabe arrumar algum dinheiro e depois voltar para as raízes…<br><br>Mas a maioria jamais voltou. Essa gente toda resolveu ficar porque compreendeu que uma parte do mundo se fixou no coração dessa Senhora que abre cada vez mais os braços para que mais gente fique ali com ela, fazendo companhia, contando casos. Mas, como mãe boníssima, não suporta ver os filhos brigando e, por essa razão, abre espaços para a fé em todos os cantos. Tem o espaço para católicos, protestantes, evangélicos, espíritas, umbandistas… <br><br>Ela pensa: quem sabe, pelo exercício da fé, eles compreendem que irmão não pode matar os seus iguais, não se deve roubar, desrespeitar direitos, trair. Essa Senhora, que conseguiu chegar aos 459 anos merece todo o respeito do mundo! Se eu pudesse dar um presente para a minha São Paulo, essa Senhora de tantos sonhos, de tantos amores, de buscas, perseverança, saberes e trabalho eu daria esperança.<br><br>É necessário ter esperança nos homens e mulheres de uma cidade única no planeta. Esses homens e mulheres haverão, um dia, de compreender que todos tiveram suas raízes mudadas para uma nova terra para que pudessem simplesmente viver e prosperar. E quem nasceu ali deve ter a sensatez de agradecer ao passado, aos desbravadores, aos imigrantes, aos sonhadores e sofredores, aqueles que viveram em cortiços para que hoje se pudesse viver em prédios altos. Respeito aos pouco letrados que, carregando tijolos e cimento, com seu suor escorrendo, fizeram as nossas escolas e universidades, museus e umas tantas casas de cultura. <br><br>Agradecimento a todos aqueles que souberam partilhar o seu pão, traduzir as suas receitas de família e passou-se a ter a mais rica e variada culinária do planeta. Reconhecimento pelo trabalho de milhares de escravos e imigrantes que lavraram a terra, que fizeram a riqueza do café e o progresso das ferrovias. E depois o operário fez a indústria e nos legou incontáveis exemplos de lutas para que a prosperidade desse o ar de sua graça. Esperança, Senhora! <br><br>Foi ali na Praça da Sé, em pleno Marco Zero, que já se fez greve de fome pelas liberdades. Foi ali que a sociedade gritou por dignidade e aprendeu a perder o medo. Foi na Avenida Paulista que tantos milhões se colocaram para pedir mudanças para que a vida fosse melhor. Que os paulistanos tenham gratidão pela acolhida, entendimento pelas dificuldades, paciência com os transtornos… Porque a Senhora acolheu gente demais! Uma boa mãe não nega colo… Então as ruas, os ônibus, o metrô estão abarrotados… Mas foi a Senhora quem acolheu e não deixou de ouvir os apelos de ninguém.<br><br>Tenha esperança, Senhora. E paciência, porque filho adora esquecer os sacrifícios de mãe. E critica, fala mal, diz que vai embora e não volta mais. Mas volta sim. O bom filho sempre volta. Essa Senhora, essa mãe que ama profundamente seus filhos, chamada São Paulo, merece gratidão eterna, com doçura, olhar terno dos seus filhos e um abraço amoroso com ternura sem fim. Parabéns, São Paulo.<br><br><br>E-mail: [email protected]