São Paulo boêmia e do trabalho

Caipira, recém-chegado do interior, tão logo coloquei os pés nesta gloriosa Terra de Piratininga consegui um emprego de office-boy, bem no comecinho da Avenida São João, esquina com a Rua Líbero Badaró. Embora trabalhasse para três distintos prestadores de serviços, meu salário era um só, na verdade meio salário mínimo, conforme determinava a lei vigente naquele período e eu só tinha 13 anos.

Um de meus patrões era um português, Sr. Anibal, cuja pequena empresa – A. Pinto & Filhos Ltda – operava em pinturas de prédios de apartamentos e residências e minha principal ocupação era levar os galões de tintas para as diversas obras espalhadas pela cidade, em maior número para os edifícios nos bairros de Perdizes, Pacaembu, Sumaré e imediações. Os velhos casarões eram colocados abaixo e vistosos edifícios já indicavam o crescimento vertiginoso desta grande metrópole, para onde acorriam brasileiros e estrangeiros de todos os quadrantes da terra, na somatória de muito trabalho, fé e perseverança.

Apenas uma empresa fornecia as tintas, a Casa dos Pintores, com loja no início da Rua Martins Fontes, bem em frente do edifício do Ministério do Trabalho. De lá eu saia com dois, três galões de tinta e seguia quase em linha reta, a pé, cortando a Vila Buarque, atravessando a Avenida Angélica, até atingir o Pacaembu, Perdizes e Sumaré. Por que a pé? – Ficava com o dinheiro da condução – de ida e volta – bonde ou ônibus, o que me garantia várias sessões de cinema nos finais de semana.

Ocorria, às vezes, de pegar um cineminha no meio da semana, em horário esticado do almoço… Cine Dom Pedro II, próximo da Galeria Prestes Maia, com suas poltronas Pullman confortáveis, era o meu preferido. Do outro lado do Vale do Anhangabaú, na mesma direção, tinha ainda o Cine Cairo com suas famosas poltronas movediças. Tinha o Cine Santa Helena, na Praça da Sé, onde se permitia levar a marmita e o almoço acontecia durante a exibição dos filmes. Todos esses cinemas citados iniciavam suas sessões às 9h da manhã.

O segundo patrão era o Sr. José e um sócio, Sr. Benedito, e se ocupavam em raspagens de tacos (pisos) e na aplicação de Sinteko e Cascolac. Esses me davam pouco trabalho, mas contribuíam com o pagamento do meu meio salário mínimo que era de mil cruzeiros. O terceiro patrão era um comerciante de joias, Sr. Lázio Vieira Pinto, fundador, juntamente com sua esposa, professora, de uma modesta escola que se transformou no hoje grande e conceituado Liceu Carvalho Pinto, no bairro da Casa Verde.

Algumas vezes levei caríssimas jóias às madames, suas clientes, tranquilamente e em segurança, como se carregasse uma simples barra de chocolate! Com esse meu "grande salário", conseguia pagar pensão para minha tia Tereza, que me trouxe de Mococa, comprava roupas da moda – ternos de Alpaca, Sarja Anglotil, gravatas italianas e sapatos de Franca -; ia aos cinemas, ao Estádio do Pacaembu ver o meu Corinthians, visitava meus pais de dois em dois meses em memoráveis e inesquecíveis viagens de trens pela Companhia Paulista até Campinas, onde fazia baldeação para a Companhia Mogiana (de bitola estreita) indo até Casa Branca onde apanhava o ônibus – Jardineira – da Viação Nasser com destino à Mococa.

Quando queria um traje melhor, abria um crediário nas Lojas River, Ética, Ducal, Garbo, Mappin e outras e, creiam, os "carnets" eram pagos religiosamente em dia e ainda sobrava dinheiro! Sempre fui econômico, só não conseguia economizar solas de sapatos, feitos de couro legítimo. Para o trabalho levava marmita que era esquentada com espiriteira.

Aos sábados o expediente se encerrava ao meio-dia, mesmo horário dos bancos e dos escritórios do centro da cidade. Na hora de voltar para casa, já no comecinho da noite, chamava-me a atenção as luzes das ruas, das lojas e os neons de publicidade, coisas estranhíssimas para um menino acostumado com a escuridão das noites do interior, nas fazendas, iluminadas apenas pelas lamparinas a querosene.

Morando na Casa Verde, apanhava o bonde na Rua Antonio de Godoy, junto ao Largo do Paissandu. Enquanto aquela pesada máquina se movimentava sobre os trilhos me "devolvendo" ao lar, acomodado em algum banco de madeira tranquilamente me punha a ler gibis e ficava emocionado com as aventuras das personagens neles contidos, como o "Cavaleiro da Noite", "Fantasma", "Tarzan", "Jerônimo, o Herói do Sertão" e muitos outros.

Vez ou outra corria os olhos para as ruas e vislumbrava jovens mulheres encostadas em muros ou paradas nas esquinas, desde a região central, passando, depois, para a Avenida Duque de Caxias, descendo a Rua Silva Pinto e outras, já no Bom Retiro. Perguntava-me o que faziam ali paradas ou debruçadas sobre as janelas de velhos sobrados. Demorou meses, anos, mas descobri!

Depois de completar 14 anos comecei a me aventurar pela noite, passando sorrateiramente por "aqueles lugares proibidos" e levando, vez ou outra, “algumas corridas de atentos vigilantes desses ambientes noturnos”.

O centro da cidade vivia em constante ebulição, notava-se mais movimentação à noite que de dia e isso se explica facilmente: toda a vida noturna da cidade, as boates, bares, clubes dançantes, restaurantes, os melhores cinemas, se concentravam ali naquela região, diferente do que se observa nos dias atuais. "Som de Cristal", "La Licorne"… Bem, essa fase veio depois, é uma outra história.

São Paulo dos meus amores, orgulho-me de ter colaborado um pouquinho com sua pujança de hoje e, sobretudo, fico feliz quando falo do seu passado que também é o meu. Esse passado não morreu – nem morrerá comigo! Deixo-o gravado em cada página que escrevo e em cada suspiro de vida que me resta viver. (+ jornalista)

Fim.

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