Lembro-me nos menores detalhes daquele dia de fevereiro de 1949. Era meio-dia quando o meu parceiro de folguedos o Fernando (nanico) sugeriu que déssemos uma chegada até uma lagoa do bairro do Limão. A visita seria rápida, o suficiente para um bom mergulho naquelas águas poluídas da várzea do Tietê. Porém, havia chovido muito no dia anterior e por isso, resolvemos dar uma chegada até lá. Com certeza, havia a expectativa de que a lagoa estaria completamente cheia. O caminho era simples. Uma caminhada rente ao muro da antiga fábrica do Matarazzo, na Vila Pompéia, saindo do caminho da antiga Rua Antártica ainda de terra batida rumo à tubulação de cimento armado onde desaguava a sujeira da indústria Matarazzo, debaixo da linha dos trens da Sorocabana e Santos a Jundiaí. Ali havia uma trilha tortuosa entre pastos de capim gordura. Seguimos preocupados, em cismas, porque a água encobria a velha trilha e avançava lentamente pelo terreno encoberto.
Estávamos assombrados ante o cenário majestoso que a pouca distância nos adregou naquele mar de águas barrentas e sujas. Paramos no meio da travessia ao avistarmos no meio da várzea uma pedra negra, musgosa, quase encoberta pela enchente. Ali havia um moleque mulatinho, com uma vara de taquara nas mãos a espera de alguém que pudesse lhe fazer companhia naquela perigosa travessia. Quando não chovia o caminho era fácil, era só seguir na estreita trilha e pronto estávamos do outro lado da várzea, no bairro do Limão. No entanto, devido à grande chuva do dia anterior o caminho se tornara perigoso, porque não se tinha visão do solo.
Um passo em falso e poderíamos perfeitamente cair em um poço, ou nalguma reentrância profunda e fatalmente morreríamos afogados. No espelho luminoso d'água refletia-se somente o topo da vegetação luxuriante encoberta pela enchente. Havia uma exalação do cheiro áspero e forte de resíduo do lodo no reflexo do bater do sol sobre as águas imundas da várzea. Das margens do Tietê, sobrevoavam sobre o céu azul as peregrinas garças brancas que vinham pousar nos galhos arroxeados meio submerso na enchente. O moleque mulatinho caminhava na frente, tateando a vara de taquara a procura de possíveis saliências no meio do terreno pantanoso. Uma pequena cobra colorida, parecida com uma coral verdadeira circundava em torno de uma pedra arroxeada. Ficamos assustados com aquela presença indesejável. Seria ela venenosa? O jeito era afastarmos o mais rápido possível daquele animal. Agora a água já cobria até a altura do pescoço do meu amigo Fernando que era nanico, e estava no limite da respiração; eu era um pouco mais alto do que ele, a água já me batia na altura dos ombros.
Naquele momento não tínhamos mais como retroceder, ou voltar atrás. Tínhamos que avançar em frente até alcançarmos o outro lado da várzea, na margem oposta no bairro do Limão. De repente o mulatinho, nosso companheiro de jornada, caiu repentinamente em uma saliência do terreno e afundou rapidamente. Para sua sorte e providência, o nanico que vinha logo atrás dele agarrou-o pelo pescoço e puxou o moleque para cima, salvando a sua vida. O susto foi grande. Olhando para o horizonte, parecia que aquele aguaceiro não acabava mais. Já estávamos na metade da travessia e não sentíamos ainda os pés na terra firme. À medida que avançávamos, a água começou abaixar; agora batia no peito do nanico e na minha cintura. De repente, tropeço em algo que parecia ser um emaranhado de cipó de folhas, perco o equilíbrio e caio na água.
O meu sapato, as meias e a calça curta todas secas que eu sustentava em uma das mãos acima da linha d'água ficou boiando na sujeira da várzea. Desgraçadamente aquela odisseia, a maldita invenção do nanico de irmos nadar naquela sujeira da várzea do Tietê a ideia, não tinha sido muito feliz. Agora era tarde para remoer toda aquela situação desagradável. Finalmente chegamos do outro lado do alagado e atravessamos um cercado de arame farpado que separava uma pinguela, um arremedo de rua, que naquela época dava para a lagoa da várzea do Tietê. Ali, um bando de moleques que nós não conhecíamos saltavam de um barranco de terra vermelha para um mergulho naquela sujeira de águas cor cinza. Alguns chafurdavam no leito do barranco, com as águas até a altura do peito; outros davam braçadas rápidas até o meio do alagado e voltavam para se apoiarem nos arbustos nas ramagens da margem. A molecada estava feliz.
Aquela piscina de pobre fazia toda a diferença; não tínhamos que pagar nenhuma mensalidade, não havia nenhuma restrição ou exame médico, o sol queimava a pele e a gratuidade do espetáculo proporcionava uma satisfação pessoal, embora conquistada a duras penas pela travessia do alagado da várzea do Tietê. Mas moleques sempre foram moleques. Sem nenhuma noção dos riscos para a saúde, apesar de naquela época ninguém sabia nada sobre doenças que poderia ser provocadas pela sujeira das águas, da urina contaminada dos ratos podendo produzir a temível leptospirose. Nós chafurdávamos sem receio em meio à sujeira. Depois de algumas horas de mergulhos do alto do barranco, aconteceu o inesperado.
Quando caminhava com a água na altura da cintura, cai em um provável poço ou saliência e afundei rapidamente. Enquanto engolia aquela água suja, fui descendo ao fundo daquele alçapão traiçoeiro enquanto me debatia já quase sem fôlego; quis a providência divina que encontrasse na descida uma saliência no canto do poço e com o pé esquerdo consegui dar um solavanco e sair fora daquela armadilha. Naquele momento acabou a brincadeira para mim. Chamei o nanico para irmos embora daquele maldito lugar, onde muitos moleques da minha idade tinham perdido a vida ali afogados. A volta era longa, não mais voltaríamos pelo alagado da várzea do Tietê e tínhamos que caminhar até o pátio ferroviário da Barra Funda, próximo ao Largo da Banana. O caminho era mais longo, porém mais seguro. Quando chegamos ao pátio de manobras da ferrovia havia muitos vagões de carga com as portas corrediças abertas e nos deparamos com um verdadeiro tesouro de frutas expostas: maçãs, abacaxis, bananas, caquis, uvas e outros frutos todos armazenados nos vagões de carga e serem transportadas para os caminhões de coleta e distribuição de mercadorias da antiga Estrada de Ferro Santos a Jundiaí com destino ao Mercado Municipal da Cantareira.
Para mim e o nanico aquilo era um suculento tesouro, uma tentação totalmente colocada a nossa disposição. O nanico não se fez de rogado. Apanhou dois suculentos abacaxis, colocou alguns cachos de uvas nos bolsos da calça, arranjou um pequeno caixote de papelão e colocou dentro dele algumas maçãs; coube a mim, também, apanhar um bonito cacho de banana nanica e um abacaxi. A volta para casa foi coroada de satisfação e por termos descoberto ao acaso aquela maravilha de frutas a nossa inteira disposição sem que ninguém obstaculizasse o nosso intento. Quando cheguei a casa, antes mesmo das explicações necessárias, já o meu pai me aguardava com a antipedagógica cinta de couro na mão, para a devida e merecida correção naquela perigosa e estúpida aventura de dois irresponsáveis moleques.
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