Sumaré do meu tempo

O coração acelerou o ritmo como se a intensidade vazia fosse quase aos meus lábios esta pergunta infantil: "Porque seria que o horizonte se enfeitou à tarde de lilás e ouro?" Será que esta tarde é de festa lá em cima na Rua Havaí e meus ouvidos imperfeitos não podem perceber a música da maravilhosa orquestra do Ray Conniff no toca discos na casa da Joercy? E com os olhos baixos contemplo dentro de mim o suposto desfile do baile que segue o meu encantamento, despertando ideias, imagens, luzes, até que chega a fadiga e o sono igualmente vem. Assim decorriam os meus dias nas colinas da Escolástica no bairro do Sumaré. Passava o tempo observando os acidentes geográficos e punha-me a observar os inumeráveis segredos da natureza, que iam se revelando a maneira de prêmios por um esforço puro e tenaz. A cada hora, surpreendia em torno de mim novas transformações, como se as árvores ali existentes, os animais e as pedras de tom avermelhadas se preparavam para receber o verão já próximo.

A renovação do cenário anunciou-se pelo cheiro de enxofre vindo da terra; é o hálito das folhas mortas ao decomporem-se. Os pássaros começaram a carregar pequenas hastes para construírem seus ninhos nas encostas do barranco do Cursino; quando chovia as enxurradas engrossavam o caudal de lama e os seixos arredondados cobriam-se de terra vermelha. Vez ou outra algum transeunte cruzava aqueles caminhos e trilhas solitário. Como tantas vezes acontecia, a tarde chegou quando minha alma tacanha não se tinha ainda enfastiado do ouro do dia. Debruçado na janela de minha casa, pus-me a contemplar o mágico reflexo que, como uma sementeira celeste, raiava sobre os campos da Escolástica no Sumaré. Sinto a força do éolo, o rei dos ventos que comanda todos os outros desde as brisas mais leves, quanto as piores tempestades soprando na direção cardinal assentada como titã sobre o morro do Piolho e do Careca.

No entanto, o mito de Zéfiro, alocado em uma brisa suave, trás uma aragem agradável, pois ele é o mais leve de todos os ventos. É o emissário que passa suave fecundando as flores e plantas no início da primavera, fazendo renascer a bela flor do salgueiro. Aqui em cima, nos altos do Sumaré, parece que moraram todos os ventos de São Paulo. Era ele um vento esbanjador sobre o telhado de minha casa e de loucos movimentos que de amores cantava nas asas do cata-vento. Muitas flores dependem do amigo Zéfiro para fundirem-se e mediar à união das plantas.

Observo as muitas coisas da natureza para atrair os animais e os insetos na polinização dos campos. O movimento das abelhas e dos pássaros contribuía para o ato da recombinação genética das flores. Durante as noites de calmaria, ponho-me a observar o zodíaco. A Aldebarã, a estrela mais brilhante da constelação do Alfa Touro, de grande magnitude próxima do calão do touro, também, encontra-se a célebre nebulosa do caranguejo. Observo, deslumbrado, os três belos aglomerados: a Hiades, a Pléiades e a estrela Orion.

Caminho agora no alto da íngreme ribanceira da Alfonso Bovero. Aqui em cima a atmosfera é outonal e de cristalina transparência, porque ainda não existia a poluição ambiental. Ouço ao longe os tratores limpando o terreno, estendendo-se o ruído dos motores a intervalos regulares. No céu as aves migratórias já partiram. Só algum pardal travesso ou a sedentária garça branca vagueia ainda, entre os ninhos pendentes nos arbustos do barranco da Rua Paris. Mais à frente, o piado de um curió que adeja em uma obstinação primaveril, entre o trinado sonoro dos biquinhos de lacre que esvoaçam em círculos em torno de uma flor silvestre.

Naquele silêncio matinal, parece que tudo dorme a minha volta. Estou em pleno Campo da Escolástica no bairro do Sumaré. Corre o ano de 1950. Em setembro a televisão finalmente foi inaugurada precisamente aqui, nos Altos do Sumaré na Taba da Tupi, em homenagem ao bairro e começava o show que viria revolucionar as comunicações no Brasil. A Hebe Camargo, desfilava por aqui; a Wilma Bentivegna e outros artistas como Walter Foster, a Vida Alves a Lolita Rodrigues, o Ayrton Rodrigues, o maestro Erlon Chaves e tantos outros do velho prefixo da PRG-4, PRF-3 Tupi e Difusora enchiam de luzes aqueles saudosos e remotos tempos.

Durante a noite a lua se levanta e se alça vagarosa para os lados do leste e projeta ao longe suas gigantescas sombras sobre a montanha do Jaraguá. Atingindo o zênite, o astro parece uma ilha de luz em um disco de cobre. A igreja de Nossa Senhora de Pompéia erguida no topo do cerro da Guiará sobre um vão do contra forte da colina que ampara a torrezinha contra o vento norte; dentro dela há coisas belas que esmaltam os altares de veneração; nas esculturas dos jarrões de prata, das rendas e dos brocados de seda que fulgem nas casulas e nos frontais dos altares e esmeram no centro da nave principal onde a figura de Cristo crucificado em pedrarias de mil cores diferentes está circundada entre luzes e flores. E no meio do altar-mor o incenso dos turíbulos de prata em flocos dissolventes elevava-se para o alto nas orações dos crentes. O templo sagrado ao culto religioso que dentro dele guardam as esfinges dos santos mártires.

Lembrei-me do meu amigo de infância o Dionisio, que morava na antiga Rua Berlim, próximo do aclive do mirador na Cajaíba e que ele me afigurava semelhante a Baco o pantaleão deus romano, por causa de sua frequência nas festas do bairro, pelo gosto exagerado do vinho espumante, das insânias depois das bebedeiras. Era ele o noivo da Hayde a eterna musa da rua. Amara-a com amor juvenil, chamava-lhe muitas vezes "seu anjo tutelar", sua "eterna pomba", envolvera-a muitas vezes com esse abraço apaixonado e quase exasperado com que o amor pretende agarrar-se eternamente ao fugitivo. Era um moleque ainda imberbe, risonho e festivo, de longa cabeleira loira e flutuante, trazia sempre na mão uma garrafa de água ardente fermentada. Casou-se com ela, não sei.

Na longa Avenida Doutor Arnaldo, de fronte da Faculdade de Medicina, jaz a terra de Hades, o deus do mundo inferior, o cavaleiro do zodíaco, aqui no caso, o cemitério do Araçá a terra dos mortos, lugar para onde vão as almas das pessoas sejam elas boas ou más, talvez guiadas por Hermes, o emissário dos deuses, para lá se tornarem sombras. Na crença da mitologia grega, Zeus ficou com os céus e as terras, Posidon ficou com os oceanos e Hades ficou com o mundo das sombras e dos mortos. É que a alma dos mortos tem primeiro que passar por vários estágios e que podem, depois, confiar em Hermes para indicar-lhes o caminho da purificação.

Tudo o que aqui fica registrado foi para matar o tempo, para me dar o prazer de evocar aqueles tempos cujas rápidas pinceladas fugiram mal me dando tempo de saboreá-las. Agora tudo é diferente e os dias parecem intermináveis. Ás vezes semicerrando um olho, ponho-me a olhar a lua e as estrelas, agora diferentes daqueles memoráveis tempos e sem que eu saiba por que da outra luz e das outras estrelas tão vivas ainda na minha lembrança parecem vê-las agora rirem-se não sei se é de alegria ou escárnio, nos campos da escolástica no bairro eclético do Sumaré.

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