O show de um balão sobre o Itaim

Flutuando entre as poucas nuvens da tarde fria, percebi o pontinho minúsculo e parei na calçada focando para a imagem tão comum ao mês de junho. Eu estava na esquina da Rua Jesuino Arruda com a Bandeira Paulista e comecei a medir sua trajetória lenta, direcionada para o meu pedaço. Em um primeiro momento calculei que deveria estar saudando e acompanhando a linha da Avenida Santo Amaro até se desviar um pouco mais de 20 graus para o oeste, ao mesmo tempo em que a sua imagem crescia também vinha abaixando.

Escolheu os ares da Vila Olímpia e seguiu sua direção cruzando a Rua Cabo Verde, depois a Alvorada, vindo a soltar seus últimos pingos de breu incandescentes sobre a Rua Professor Vahia de Abreu, manteve-se em silêncio cobrindo a Avenida Doutor Cardoso de Melo deixando também para trás a Gomes de Carvalho, suplantou a Casa do Ator e depois a Quatá quando começou a girar fazendo arrastar umas fitinhas que vinha trazendo presas aos vértices daquele cubo gigante que compunha sua figura, perante aos estupefactos. A essa altura eu já estava hipnotizado e não despregava o olho do balão, constatando cada vez com mais certeza:
“Tá vindo pra cá!”

E de fato, passou por cima da Rua das Fiandeiras e continuou se exibindo para a Santa Justina. Quem poderia saber se não era o último balão de grande porte a planar sobre a Rua Clodomiro Amazonas. Não posso precisar, mas talvez estivéssemos em meados dos anos 70 e aquelas cenas já vinham se tornando cada vez mais raras. Diferente das duas décadas anteriores quando avistávamos balões de todos os tipos e em maior número nas noites de São Pedro, era uma festa no céu: Careca de Padre, Pião, Mexirica, Bola, Cruz, Charuto (com uma ou mais bocas deitados), Caixa, Almofada (com ou sem faixa), Estrêla, Zepelin, Dado… E esse era um dado, enorme! Pelo tamanho que agora se tornava mais claro eu já imaginava umas 256 folhas, sua cor era o branco iluminado pelo sol poente que o tingia um pouco de amarelo e conforme girava podíamos ver os números colocados em bolas pretas recortadas. O papel de seda vinha bem estufado demonstrando forte pressão interna, lá dentro do bicho devia estar igual uma caldeira, muito embora já parecendo vir se apagando quando ficou mais ou menos acima da Rua Comendador Miguel Calfat.

Seu voo estendeu-se para o Itaim Bibi, quando sobressaiu por entre as casas e os poucos “predinhos” da Rua Ministro Jesuíno Cardoso e tornou-se bem mais visível na reta da Rua Bandeira Paulista, o vento jogava-o agora um pouco para o lado oposto, mas mantinha a coisa sempre em uma altura média, não caía mais do que aquilo e vinha na minha direção… A boca colocada no vértice formava um triangulo e penso por isso é que não parava de girar… E vinha! Sobre a Cibramar se reteve e fez muitos olharem para cima. Na região da Joaquim Floriano o vento deve ter diminuído e o "Dado Gigante" começou a dar seu show!

Com o dedo indicador apontando para o infinito o balconista da Farmácia Santa Eulália esqueceu o atendimento aos fregueses, com o nariz empinado o taxista Café também olhava através do para-brisa, esticando o pescoço estavam funcionários da Casa Paes, saíram para a rua quase todos os que estavam na papelaria do Japonês e o mesmo aconteceu com os frentistas do Posto Santo Antônio, com a turma da lanchonete Diana (que também se chamou Ida), com os alunos do Costa Manso ou no pátio interno da Kopenhagen, todos pressentiram que havia algo no ar.

Na verdade, naquela tarde memorável e inesquecível todo o Itaim parou no tempo. Sobre a Rua Tabapuã foi que tive a visão dourada da coisa como se fosse um sonho… Ele começou a cair… Mas não era uma queda, era um leve deslize e quando passou por cima da minha cabeça a rua já estava cheia, com turmas de catadores profissionais, loucos, amadores e curiosos que o perseguiam. Seu translado aéreo, assustou moradores, encantou crianças e continuava na reta da Rua Bandeira Paulista, a cachorrada latindo, ainda não havia tantos prédios, e ele baixou um pouco mais sobre a Avenida 9 de julho na altura do Sacré Coeur, com centenas de catadores agora bloqueando o trânsito nas quatro pistas ali existentes. Fiquei só assistindo, a queda do que pode ter sido, quem sabe, a mais vertiginosa viagem de um balão junino…

O "pouso" aconteceu no Jardim Europa, no início da Rua Alemanha, eu estava na última ilha da avenida e pude ver o monstro ainda bem cheio e soltando fumaça quando desceu entre as árvores “Cesalpinas” próximo àquelas casas de alto padrão, acostumadas com a paz e o silêncio reinante do nobre bairro paulistano. O cenário de uma guerra estava ali esperando, o balão deu show até nos seus minutos finais e eu tive tempo de contornar a esquina e entrar na Rua Alemanha para assistir de camarote a chegada de uma Pick-Up Ford F 100 levando na caçamba dois ou três catadores armados com longas taquaras, no derradeiro momento de uma verdadeira loucura generalizada com alarido infernal e o grito:
– ” Ninguém raaasssgaaa!”
Até me afastei um pouco, tamanho o número de pedras atiradas que vinham de todas as direções. Não dá para descrever.

O lindo Balão Dado com seus gomos muito bem estudados, provavelmente deve ter sido solto antes de Santo Amaro, com suas bordas finas muito bem coladas e que proporcionou o maior deslocamento humano que pude presenciar, quando eu ainda morava na Rua Jesuino Arruda, foi triturado em questão de segundos… Os que tentaram pegá-lo na unha, com ou sem taquara ficaram cobertos pela fuligem e tiveram que se contentar com pequenos e ridículos picotes do papel de seda amarrotados na mão.

Voltei para casa caminhando sozinho bastante impactado, digerindo as cenas presenciadas. Percebi que de algum jeito estava armazenando essa história. Aquela tarde parece que ficou gravada para sempre!

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