Uma São Paulo diferente

Em 1956 meus pais moravam no Morumbi, ali próximo a ponte do lado direito sentido Palácio do Governo, bem perto do rio. Meu avô criava umas cabeças de vacas de leite; tínhamos também cavalos, era muito bom, tinha também uma lagoa onde pescávamos umas traíras e no rio, às vezes, meu pai pegava alguns peixes e marrecos. Hoje, passo pela Marginal, vejo o local e tenho saudades. Lá, está uma agência de automóvel.

O tempo passou e vovô mudou-se para a Vila das Belezas, onde hoje é o Parque Arriba e meu pai logo tratou de comprar um terreno situado à Rua das Belezas, isso foi lá pelos anos de 1962. Nós vínhamos de trem até a ponte João Dias, ali tinha uma espécie de plataforma e o trem parava para os passageiros descerem. Então, ia meu pai, mãe, eu e dois irmãos, íamos caminhando até o terreno, nessa época a Rua das Belezas era mais uma trilha no meio de árvores altas.

Finalmente a casa ficou pronta e mudamos no mesmo ano. Eu me lembro que havia uma chácara de um senhor português bem de frente a nossa casa; nessa época a Vila era pouco habitada, existiam muitas chácaras, lagoas e áreas verdes, a casa de meu avô era meu local preferido, pois montava os cavalos e corria pelos campos, nadava e pescava nos riachos de água bem cristalina.

Em 1964, entrei no Grupo Escolar Prof. Renato Braga. Estudei os primeiros quatro anos, tirei o diploma e fui fazer admissão na igreja de N. S. de Fátima, na antiga rua. Hoje mudou de nome, então voltei para o Renato Braga para estudar o ginásio até 1976.

No início dos anos 70 a iluminação no Parque Arriba era a lampião, quase toda semana eu ia comprar querosene para os lampiões da casa de meu avô na mercearia do seu Aniba como era chamado. Carros na rua eram novidade, apesar de meu pai ter um caminhão era feirante e eu sempre ia com ele para as feiras; me lembro da travessia na Est. de Itapecerica da Serra, onde o seu Mario, guarda civil, na época nos atravessava no cruzamento, onde havia a padaria São Damião, para irmos a escola. O Renato era na parte de cima da Vila das Belezas.

Hoje, conto essas histórias para os meus filhos e netos e eles ficam espantados, pois tudo mudou: as lagoas e matagais desapareceram, os riachos estão todos poluídos e não se ouve mais o cantar dos sapos e rãs nos brejos, os grilos e as cigarras desapareceram, restam alguns sabiás valentes que resistem aos predadores mais perigosos, o homem. O coitado do Rio Pinheiros grita por socorro, ofegante, sem poder respirar, esperando que alguém o salve, onde antes havia matas e muita vegetação vemos edifícios habitacionais empurrando os sabiás e corruíras para longe.

Infelizmente, pagamos um alto preço pelo progresso. Por isso, posso dizer que conheci uma São Paulo diferente entre os anos 1960 e 1980. A Vila das Belezas está muito diferente, os antigos se mudaram e os vizinhos são outros. O mesmo digo do Parque Arriba, que sofre com o desmatamento e a ocupação dessas áreas onde antes habitavam os sabiás. Espero poder contar mais em outra oportunidade. Abraço a todos os amigos da Vila.

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