Os imigrantes de pós-guerra

As memórias qual lençóis ao vento se agitam. Reminiscências dos tempos idos nos conduzem inexoravelmente como por uma imensa ampulheta, através de orifício, lentamente como pó, um filtro escoa as lembranças, do vivenciado. Muitas vezes um agitado caleidoscópio em remoinho, com recordações completas de fatos e situações.

Em outros momentos, porém, a memória deixa de lado o encanto dos faustos e nos trai, na crueldade deixando apenas retalho, verdadeiros trapos perdidos, das coisas que nos encantaram. Mesmo assim vale a pena recordar, mesmo quando omitimos por esquecimento, jamais por desapego àqueles com quem convivemos. Assim permito-me contar algumas poucas coisas que me recordo de minha infância.

Na década de 50, aportaram em Santos, os imigrantes, destruídos em suas vidas pela segunda guerra, destituídos de quase tudo, humildes, sem recursos, com pouco mais que suas roupas puídas, mas plenos de sonhos, grandes esperanças, dotados de uma vontade férrea de reconstruir suas vidas em um novo país, a procura da dignidade perdida e de um canto para crescerem com suas famílias em paz.

Meus pais imigrantes antigos, tendo chegado ao Brasil em meados dos anos 20 tinham pleno conhecimento das agruras que assolavam os novos imigrantes, já que tinham como espelho suas próprias experiências enfrentadas após a primeira grande guerra e assim, tentavam dentro de suas possibilidades apoiar os que nos rescaldos da grande guerra por aqui arribavam.

Morávamos em Vila Prudente, em uma casa grande e que ainda tinha no quintal uma garagem donde foi expulso o carro para se transformar em mais um quarto, mais um quarto de serviço que meu pai transformou em dois lindos aposentos complementados com uma cozinha e um banheiro. Era o local para receber os imigrantes.

Os primeiros a chegar foram os Margus, um casal com um filho. O pai aparecera no portão da fábrica onde meu pai trabalhava gerenciando a produção. O porteiro chamara meu pai, pois sabia que ele conhecia um pouco de diversas línguas e a pessoa tentava se comunicar em uma língua estranha. Após tentativas em alemão e russo, meu pai descobriu que os Margus eram de origem estoniana, tal qual meu pai. A conversa ficou fácil e havia a possibilidade de um emprego na empresa. A pergunta de onde morava, o Margus respondeu que estava no centro de triagem e recepção de imigrantes na Mooca. Meu pai convidou-o a vir morar em nossa casa até ajeitar a vida, dizendo "Sempre há lugar para um imigrante lá em casa” e assim, foi chegando à nossa casa. Uma família em busca de dias melhores, cá no Brasil.

Era uma família que fazia o possível para ser agradável e recordo-me das histórias da guerra que ele contava, dos horrores que passaram, a sobrevivência, quase um milagre, e, o que me deixou impressionado, foi o fato dele ter em sua parte interna do braço acima do pulso gravado um número, que ele informou ser sua identificação. Perguntei o porquê disto, para que deveria ser identificado assim, pois afinal ele tinha um nome.

O velho Margus me respondeu que era devido a sua origem. Na Alemanha da época era deste modo que se identificavam pessoas que não se enquadravam nos conceitos de pureza racial vigentes no período nazista.

Sua resposta me marcou, como uma primeira luz de conscientização, uma revelação de que o mundo não via os homens como homens, mas sim como castas diferenciadas, algo não claro para mim naquela época, mas que balizou, como um divisor de águas, em minha parca percepção infantil. Outros imigrantes vieram, outras famílias passaram por nossa casa. A história era sempre semelhante, eram imigrantes exauridos pelos rescaldos da guerra, só procuravam por um canto onde pudessem viver e trabalharem em paz com liberdade. O Brasil era a transmutação deste sonho em realidade…

Recordo-me dos Kenkmann, um casal e quatro filhos, de um encontro casual com meu pai, no bar em frente ao seu serviço, que, ao tomar um cafezinho viu aquele senhor com ar triste, quase desesperado, sem dinheiro, nem a quem recorrer, que viera do alojamento na Mooca ao Ipiranga a pé a procura de serviço, pois haviam lhe dito que o Ipiranga abrigava muitas indústrias e que talvez lá encontrasse um serviço.

Meu pai notou aquele estrangeiro, com roupas puídas e ar longínquo, e puxou conversa. Após superar a dificuldade inicial de se comunicar, ele contou da preocupação com a falta de serviço e um teto para se abrigar e por cima com uma família grande. Novamente um emprego e um canto para morar foram providenciados lá em casa.

Recordo-me da chegada deles em casa, uma malinha de papelão, um caixote que fazia às vezes de um baú, recheado com todos os tesouros de seus parcos pertences e muitos sonhos. Para mim, foi ótimo tê-los conosco, pelos amiguinhos de brincadeiras que tinha ganhado.

Outros ainda passaram por nossa casa, me recordo de uma senhora viúva, a senhora Latti e a sua filha. Alguns que conviveram conosco passaram, mas dos quais infelizmente não recordo os nomes.

Quem, porém, me marcou intensamente foi uma senhora, que tinha chegado ao Brasil com o marido, engenheiro e que se estabelecera razoavelmente bem, pois após a guerra tanto ela como o marido tinham trabalhado para os aliados, no pós guerra, devido ao fato de falarem inúmeras línguas e serem detentores de vasta cultura. Para tristeza, porém, o marido faleceu. A esposa sem parentes, perdida, sem saber o que fazer recebeu o convite de vir morar em nossa casa, era a Sra. Ene Rava. Ela aceitou, e logo determinou que queria ser chamada de Dona Ene, rapidamente arranjou um emprego, mas queria de qualquer modo recompensar, meus pais, pela acolhida.

Minha mãe sugeriu como uma troca justa, que ela me ensinasse falar Inglês como retribuição, o que ela aceitou sem pestanejar. Dona Ene foi uma pessoa particularmente especial, uma verdadeira preceptora que me ensinou não só o Inglês, mas também o Francês e quando já estava fluente nestas línguas, pedi-lhe para me ensinar o Alemão, ela pareceu relutar, mas após algumas semanas respondeu.

Está bem, te ensino, mas só para você e mais ninguém e em continuidade me confidenciou, como que para justificar sua demora em me responder. Meu nome de solteira não é como todos conhecem, mas me chamo Rosenthal, deixando perceber feridas deixadas por sua origem, pelo pavor da guerra. Comentei com a minha mãe a respeito, que me respondeu saber o nome verdadeiro de Dona Ene e que a mudança do nome pelo casamento tinha salvado a vida dela durante a guerra.

Isto se explicava pelo terror da insanidade bélica que havia destruído muitas famílias. E mesmo assim, Dona Ene, sapientíssima, enfronhou-me ainda na gramática latina, contou histórias e levou-me a sonhar, na descoberta de outros povos e nações, além de relatar suas ricas experiências de vida. Posso dizer sem me acanhar que ela moldou muito do eu que sou. Os tempos passaram, todos esses imigrantes moldaram suas vidas e venceram neste nosso país, superando algumas vicissitudes da vida paulistana dos anos 50 e 60.

Quanto a meus pais e a mim restaram belas recordações dos amigos que eles se tornaram.

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