Pequenas tradições que foram a óbito

Quando viajo no tempo, mais precisamente nos idos de 1980 quando já trabalhava no Banco do Estado de São Paulo S. A., desde 1968, tendo passado no primeiro concurso público aberto para mulheres, lembro perfeitamente que todos os dias, em meu horário de almoço, ia ao Mappin, na esquina da Rua Cel. Xavier de Toledo, com frente e entrada também para o Teatro Municipal e para a Rua Conselheiro Crispiniano. Lá rodava desde o térreo até o quinto andar.<br><br>Gostava muito de ir, creio que ao segundo andar, onde havia louças, cristais e porcelanas. Lá me perdia, vendo os vários cristais importados e aqueles nacionais de alta qualidade. Tinha um estande, onde colocavam copos de cristal desparcerados, porque certamente haviam quebrado, a preços muito bons. Comprei copos lindíssimos, diferentes, já que não totalizavam meia dúzia, que enfeitam minha cristaleira até hoje. De lá ia ver os sapatos, as roupas, artigos de cozinha, enfim era um parque de diversões. É bom dizer que frequento o Mappim, denominado de Casa Anglo-Brasileira, desde pequena, porque lá minha mãe mandava fazer minhas botinhas. <br><br>As atendentes, pelo que lembro, eram super elegantes, uniformizadas e tinha uma especial, que guardo na memória, que tinha uma trança em volta do cabelo na frente. O Mappin fez parte de minha vida, desde há muito, e fiquei estarrecida quando fechou. Parecia que um pedacinho de mim, da tradição de São Paulo, tinha morrido. Empresários de plantão, distantes das tradições o mataram.<br><br> O mesmo aconteceu com a Mesbla, outro lugar onde passava meus almoços. O setor de roupas era tão organizado que fazia gosto. Parece incrível, mas ainda tenho roupas compradas no Mappin e na Mesbla. Até brinquedos de Natal. Ela também morreu e lá se vai mais um pedaço da tradição paulistana. Assim, como também faleceu o Banco do Estado de São Paulo, denominado, mais tarde de Banespa.<br><br>Fui advogada daquele Banco e conheço bem a deplorável história de seu óbito. Mais uma tradição paulista que deixaram escorrer pelas mãos, por motivos que não vou identificar, mas que, quem sabe, um dia, um historiador isento e sereno possa contá-los. Essa perda foi uma punhalada nos cidadãos paulistas.<br><br>Tinham naquele Banco o orgulho de São Paulo, assim como minha mãe o teve em 1968, ao me encaminhar para prestar o concurso público. Ela como vários outros se jactavam daquela instituição financeira paulista. Mas continuando a peregrinação, caminhávamos na Barão de Itapetininga, onde tinha a casa Eduardo de calçados, assim como a Sutoris e a Casa Vermelha. <br><br>As noivas compravam seu enxoval na Etan. Fora as lojas de tecidos e as de armarinho, hoje praticamente inexistentes, no centro. Na Xavier de Toledo havia a Mirus Rove, loja de calçados. Também faleceu! Claro que São Paulo, não tem somente essa tradição. Outras existiram, outras ainda existem. Mas acho que muitas pessoas se ressentem e pranteiam esses óbitos que mencionei. O centro ficava mais bonito. Claro que havia os “trombadinhas”, hoje se pode dizer que eram pé de chinelo, perto da violência que campeia nossa cidade. <br><br>Até que ponto, a perda de certas tradições acabam por excluir aquele jeito mais ou menos provinciano da cidade, permitindo todas as mazelas que passamos. Enfim ninguém conhece mais ninguém. Não existem tradições, memória, de sorte que fica mais fácil atentar contra a cidade de São Paulo e seus moradores, que ficam escondidos em suas residências, comprando em sites. É muito triste, mas quando a astúcia de empresários se alevanta, vaidades entram em confronto, muito pouco se pode esperar, a não ser a perda cada vez maior de nossa memória. Creio não estar denegrindo a imagem de nossa São Paulo, apenas trazendo aos que não conheceram nossa memória de um determinado lugar.<br><br><br>E-mail: [email protected]