Lembranças paulistanas do Ceará.
Consta que São Paulo, depois de Fortaleza, é a cidade que mais possui cearenses.
"Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;
verdes mares que brilhais como líquidas esmeraldas, perlongando as alvas praias ensolaradas de coqueiros…"
Recordando essas lindas palavras de José de Alencar, do meu tempo de estudante, que no romance imortal "O Guarani”, as li, ficou latente o desejo de um dia conhecer a maravilhosa terra em que ele nasceu.
Anos depois trabalhando em uma “multi”, aqui em São Paulo recebi um convite para me transferir para operação da Cia., em Fortaleza.
Não pensamos duas vezes, minha esposa e filhos, em idade pré-escolar, vibraram e lá fomos nós. A princípio meio receosos, mas confiantes.
Fomos bem recebidos pelo gentil e hospitaleiro povo cearense, que fez de tudo para nos agradar e nos deixar à vontade, principalmente à minha esposa, que por ser loira e de pele bem clara, a alertaram quanto aos raios de sol que no exuberante e sempre azul céu cearense brilha.
Tempos depois, já devidamente ambientados, fomos conhecer Morro Branco, a convite de um amigo empresário, cujo prazer tivemos de conhecer. O mesmo nos ofereceu a casa e a "cozinheira".
Ficamos maravilhados e ao abrirmos a geladeira encontrarmos no freezer as lindas e maravilhosas lagostas, cujo sabor não conhecíamos.
Mestre Agripino, jangadeiro-mor, o qual me simpatizei à primeira vista, pela sua personalidade simples e agradável, sempre com um sorriso e bom humor. Chamava-o de "Mestre Velho" e ele se dirigia à mim, como "Mestre Novo". Bons amigos nos tornamos.
Fim de semana sim, outros semana não, eis nós em Morro Branco. Quando lá ficávamos "contratava" o Mestre Agripino, para na jangada dele adentramos os verdes mares… Minha esposa não ia e não deixava as crianças irem. Íamos somente nós dois… E horas lá navegávamos e no mar sumíamos…
Certa ocasião, em tom de brincadeira, perguntei:
– “Mestre e se der um ‘treco’ em você, o que faço?”
Ele:
– “Deixe a jangada ir que na praia ela chega…”
Acreditei, meio ressabiado, talvez assim dissesse para me tranquilizar…
Hoje, 30 anos depois, recordo-me com saudades e até com os olhos marejados de lágrimas os belos e inesquecíveis tempos em que lá vivemos, proporcionados desinteressadamente pelo maravilhoso povo cearense.
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