Mula preta

Do sertão em tenras idades, mano e eu, com nossos pais viemos, para cidade de São Paulo morar, isso lá pela década de cinquenta…

Eu tenho uma mula preta com sete palmos de altura. A mula é “descanelada”, tem uma linda figura… Solta fogo na calçada no “rampão” da ferradura…

Moça feia e marmanjão, na garupa a mula pula, chega a fazer cerração, todos pulos dessa mula…
Soltei a mula no pasto. Veja o que me aconteceu: uma cobra venenosa a minha mula mordeu…
Acabou-se a mula preta que tanto gosto me deu…

Relembrando essa canção sertaneja, de um Brasil ainda caboclo cheio de lirismo e poesia, vem-me à memória o rosto sorridente de minha mãe, na fazenda onde nascemos, compondo dupla de cantores com o meu pai que viola tocava nas noites enluaradas ao pé de uma fogueira nas belas festas juninas que hoje são só cinzas de saudades.

Aproveitando as férias de verão para uns dias passear e pescar, fui visitar a fazenda dos primórdios de nossas infâncias e que agora é de nosso primo que cuida da mesma e vi a casa em que nascemos e na qual reside o capataz com seus familiares.

Adentramos-a (fui com um amigo) e lá o fogão a lenha, embora inativo permanece como se simbolizando o passado dos tempos bucólicos que não voltam mais. Serve o mesmo de "enfeite" como uma relíquia que meu primo faz questão de manter, pois meus tios, seus pais, após de lá mudarmos, eles residiram.

Ao lado o curral, agora diferente, mas que manteve o charme de outrora e lá "vi" embora com os olhos fechados e num átimo de silêncio, a "mula preta" que na verdade era o nosso cavalo alazão…

Os olhos abri e ao presente voltei…

Nada mais restou tudo mudou…E como diz a canção sertaneja:
“Acabou-se a mula preta que tanto gosto me deu”…

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