Eu venho de um tempo em que as mulheres eram separadas em: “estas" e " aquelas". Isto bem antes da pílula, da minissaia, do divórcio e de outros itens que fizeram surgir um terceiro tipo: "as guerreiras". "As guerreiras" romperam com os preconceitos, mostraram que podiam ter, ser e acontecer o e no que bem quisessem e hoje caminham lado a lado dando-se às prerrogativas que só a metade tinha, ou seja, " eles", os que tudo podiam e tudo faziam sempre e em todas as épocas. Hoje, as guerreiras tudo podem, tudo fazem, estão em todos os lugares, em todas as profissões e muitas delas são as provedoras de seus filhos e casas.
Naqueles idos não, éramos divididas em "estas" eram as que tudo tinham e nada podiam; e as "aquelas" eram as que nada tinham e tudo podiam. O casamento, véu, grinalda e virgindade seriam as portas de entrada para algumas das coisas proibidas, tipo frequentar boates, teatros, bailes noturnos etc., sempre acompanhadas pelo marido.
Isto posto, fantasias rondavam a cabeça de meninas feito eu, normalistas que estudavam, que liam, que tinham conhecimento das muitas coisas, mas que jamais se atreveriam a sair das regras milenares que nos eram impostas. Sabíamos, também, de ouvir falar, da existência de bailes do cabide, festas monumentais, cabarés, dancings onde se picava cartão e tínhamos até dúvidas se existiam de fato ou se eram prosa dos garotos exibidos. Uma coisa era certa – havia as boates.
Aqui em São Paulo havia a boate Bambu e a lenda urbana que contava que o milionário Baby Pignatari havia solicitado uma alcatra mal passada e que o atendente argentino levara um pedaço da anca do boi dizendo:
-“esta se queda en la parte donde se pica la aña"
Baby adorou a frase e desse modo nasceu a "picanha".
Funcionava desde 1950 e era decorada toda em junco e toras de eucalipto. Em 1954 foi escolhida como a melhor boate de São Paulo. Estávamos entrando no quarto centenário, tudo era festas, e os anos nos diziam dourados.
Pois bem, agora o fato que vou contar. Naqueles tempos, certo dia ouvi papai dizendo que sábado cedinho iria intimar uma pessoa que trabalhava na Boate Bambu. Aquilo me interessou, papai era oficial de justiça, tinha uma lambreta para com esta intimar o pessoal difícil de ser encontrado, daí também o horário e dia escolhido. Precisava primeiro vencer a barreira das duas que mandavam em casa, minha mãe e minha avó, porque papai era mais fácil de dobrar. As duas se alvoroçaram e tentaram me demover, " boate não é lugar para menina de família, sabia?". Foi um jogo duro. Uma queda de braços.
Boates povoavam nosso imaginário de meninas de família e eu as pensava cintilantes, feéricas, perfumadas, tocando músicas americanas, mulheres lindíssimas, de meias nylon com risca atrás, vestidos justos, saltos altíssimos, circulando envolvidas em peles ao lado de homens charmosos, românticos, interessantes, e, melhor ainda, na rodinha de segunda-feira quando desfilávamos nossos programas de final de semana, poderia jogar, “em passant”, " estive na Boate Bambu". Seria o máximo.
Finalmente, após muito insistir e ter o aval das duas eu acabei sendo levada na garupa. Não usávamos capacete e papai ia de terno, gravata, chapéu e galochas porque chovera a semana inteira e era barro para todo o lado, enquanto eu, lá atrás, me sentia desconfortável, pois usava uma franjinha e o vento a fazia bater na minha testa e isto acontecia sempre que andava de lambreta. Voltava meio enxaquecosa, voltava com uma sensação chata na testa, enjoada, empoeirada. Mas nesse dia nada era mais ou tão importante do que estar dentro de uma boate. O barro, o desconforto, a franjinha batendo na testa, nada iria ofuscar a sensação de estar indo para uma boate.
Lembro-me vagamente do caminho, pois nunca mais lá voltei, parecia ser uma estradinha estreita e a boate apagada, apareceu em um alto, uma espécie da colina, e o caminho era o que levava ao aeroporto de Congonhas. Não me recordo bem, mas parece-me ter subido uns degraus de madeira e lá entramos. Dois empregados, de tamancos, estavam lavando e as cadeiras estavam todas viradas sobre as mesas. Um bar de madeira, vazio, me pareceu desolador. Onde está o glamour, as mulheres, a música e os perfumes inebriantes? Nada, apenas os homens fazendo limpeza, portas escancaradas e papai, lá no fundo, dando papéis para um dos empregados assinar.
Esta foi a primeira das muitas vezes em minha vida que eu me deparei com o que resta depois de festas, brilhos, cintilâncias, extravagâncias… Aprendi que as coisas, os objetos, tudo, enfim, só terão brilho se os tirarem de nós, os homens e as mulheres, e que sem nossa presença tudo perde a graça e o encanto. Voltei tão sem graça, tão desencantada que, na segunda-feira, ao ser perguntada como havia sido meu final de semana, suspirei, “o mesmo de sempre!".
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