“Carnaval, futebol e justiça, na São Paulo dos anos 30".
No ano passado, 2011, minha neta Paola de 21 anos iniciou na FIEO, de Osasco, o curso universitário de Direito. Dentre os livros que lhes foram recomendados, está uma obra que a Paola faz questão de me mostrar. Sabendo de minha predileção por literatura policial, pergunta, sem atinar sobre minhas condições de memória, se eu conhecia o fato narrado no livro.
Peguei o livro e me interessei logo pelo nome, enredo e pelo escritor: "O Crime do Restaurante Chinês", escrito pelo professor do Departamento de Ciência Política da USP, Boris Fausto.
O professor Fausto, nascido em 1930, baseado em publicações jornalísticas, radiofônicas e em sua prodigiosa memória, narra no melhor estilo novelesco dos grandes criadores de romances policiais, não um simples crime de morte, mas sim uma verdadeira chacina, ocorrida em 1938, na Rua Wenceslau Brás, nº 13, próximo a Praça da Sé, no chamado Centro Velho de São Paulo.
Entremeados com o Carnaval, Copa do Mundo daquele ano e os primeiros sinais da 2ª Guerra Mundial, a narrativa prende nossa atenção pelo inusitado da horrenda selvageria praticada pelo(s) assassino(s). Coloco essa dúvida, pois nunca chegaram a saber quem realmente foi ou foram os assassinos.
Eu nasci em 1932 e, com 6 anos, tenho uma vaga recordação deste fato, pela proximidade de minha residência (Rua Assumpção, no Braz, a 15 minutos da praça da Sé) e pela repercussão que abala São Paulo da época. Este livro, publicado pela "Companhia das Letras" em 2009, sob a magistral pena de Boris Fausto, nascido em São Paulo, de origem judaica, aposentado pela USP, enriquece esta soberba narrativa com uma profusão de fotos de jornais da época, como a Folha da Manhã, Correio Paulistano, A Gazeta, O Estado de São Paulo, dando ao leitor uma ideia bem viva dos acontecimentos na ocasião.
Quatro pessoas foram assassinadas: o dono do restaurante, Ho-Fung, sua mulher, Maria Akiau e os dois empregados, o lituano José Kulikevicios e o brasileiro Severino Lindolfo Rocha. O dono e os dois empregados foram mortos a cacetadas desferidas por meio de pilão de 70 centímetros de comprimento e a esposa do Ho-Fung, Maria, estrangulada. Foi preso um suspeito, Arias de Oliveira, que, por ser negro, evidentemente ficou trancafiado muito tempo por ter confessado, sob tortura, o crime. Provada sua inocência, foi solto com ajuda de jurista de grande prestígio.
A tragédia é envolvida por um manto de mistério, intrigas, vinganças, terrorismo chinês, preconceito, enfim, um caldeirão cheio para espicaçar os mais desencontrados palpites da população paulistana. A repercussão atingiu quase todas as manifestações artísticas, chegou a ser tema de uma moda de viola gravada pelos irmãos Laureano, cuja autoria coube ao mais famoso dos dois, Ochelsis Aguiar Laureano.
Gravada no início de abril de 1938 pela Odeon, para alegria do público pouco exigente, mas que gostava de rir de fatos espetaculares transformados em toada repentista, por curiosidade, vamos levar a todos os leitores a letra dessa triste homenagem:
"Na cidade de São Paulo, teve outro, vou contar.
Na Quarta-feira de Cinza, terminado o Carnavá.
No restorante chinês, no centro da capitar
Mataram quatro pessoas
Todas no mesmo lugar AÍ…
Tarvez fosse por vingança, talvez fosse pra robar
Ainda era bem cedinho, o povo tava alarmado
Já correro na polícia, fizero um comunicado
Logo veio um dotor, também já veio o delegado
Fizero o levantamento foi tudo indentificado.
Só fartava o criminoso que tinha de ser achado.
O dono do restaurante um desfeite recebeu
Era um chinês conhecido foi um dos que pereceu
Pois mataram a cacetada com dois empregados seus.”
E mais algumas estrofes para colocar o ocorrido no rol das grandes tragédias que recebem as atenções de todos. Ávidos do sensacionalismo, os jornais mal se preocuparam com os dias de carnaval. A interpretação do andamento da polícia nas investigações recebe críticas ou elogios, cada parcela da população, a seu modo, manifesta seu entendimento.
Mesmo assim, há notícias dos desfiles nas ruas, os corsos se apresentam com as atrações de todos os anos, carros abertos e lindas garotas, rapaziada alegre, fantasias marcantes. A Copa do Mundo promete novidades nas transmissões. Porém, o mistério da chacina continua até hoje, para tudo terminar na Quarta-Feira de Cinzas… De que ano? Só Deus é que sabe.
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