No meu tempo tinha…

As ruas de terra e as de paralelepípedos. As casas com seus cortiços e terrenos baldios com seus campos de futebol. Tinha as escolas públicas consideradas as melhores para a época, em que se fazia a 4ª série e ao mesmo tempo preparava-se para o tal exame de admissão que faríamos ao final do ano. Reprovado em dois anos seguidos era jubilado, tendo que se transferir para uma escola particular, ao contrário de hoje. <br><br>Tinha a televisão em preto e branco que começava a “gatinhar”, crescendo pouco a pouco, sendo os cinemas o lugar mais concorrido e frequentado por nós paulistanos.<br><br>Tinha os filmes épicos de grande sucesso que merecia a seção da meia-noite. Geralmente tinha seções o dia todo, com início pela manhã. Ficávamos em fila a espera da próxima seção. Ao abrirem-se as portas, aquela correria para pegar um bom lugar. Por várias vezes sobrava somente a primeira fila, onde saíamos com dor no pescoço de tanto ficar olhando para cima. <br><br>Tinha outra atração que eram os circos. Instalavam-se em um terreno baldio do bairro permanecendo por alguns dias (a permanência dependia da frequência do público). <br><br>Tinha os parques de diversões, com sua permanência idêntica as dos circos. Teve o Parque Shanghai que funcionou na Avenida do Estado (Parque Dom Pedro) famoso na época, onde conheci a primeira montanha russa.<br><br>Tinha o fotógrafo "Lambe Lambe", na Praça da República, e também na Praça da Luz, onde tirei várias fotos. Enquanto comíamos pipoca ele fazia a revelação, podendo ir curtindo a foto pelo caminho. <br><br>Tinha o Realejo que aparecia lá na Rua Felipe Camarão de vez em quando, tocando aquela música característica e predefinida, onde o som ecoava-se pela rua no giro de uma manivela (uma espécie de órgão mecânico portátil). O gostoso era ver o periquitinho tirar a nossa sorte com o seu bico.<br><br>Tinha o comerciante ambulante, amolador de facas e tesouras na sua plataforma de madeira com um esmeril (pedra de amolar) montado em cima de uma roda de ferro igual a de uma carroça. Sua presença era logo notada pelos moradores, ao ouvirem aquele som característico e suave do seu apito (flauta de pã).<br><br>Tinha em frente das escolas, igrejas e parques o Pipoqueiro – não me refiro aos jogadores de futebol e sim àquela pipoca quentinha e saborosa feita na hora, tendo também o vendedor de quebra-queixo, com o seu tabuleiro (forma) onde era notado na parte de cima do doce aqueles pedaços de coco, que delicia. Cortava-se com uma espátula para servir aos alunos e era mastigado, mastigado… que ficávamos com o queixo dolorido de tanto mastigar.<br><br>Tinha o vendedor de biju, com sua matraca barulhenta para chamar a atenção dos moradores da rua, mas aquela casquinha feita de biju… que gostosura. <br><br>Tinha as fotos de nossa primeira comunhão e também aquela da escola que era tirada todo ano. Era montada geralmente nas escadarias da escola, com os menores em baixo e os marmanjos acima. Não podia fazer careta e nem apontar os dedos para cima.<br><br>Tinha a caixa de retratos da família. Todos reunidos e – olha como você era magricela – essa é da escola, vê se você me acha nela – olha essa aqui, parece que ela vai pisar na barra do vestido de tão comprido – olha o modelo do maiô daquela época, risos – veja só o papai de bigode – vê se encontra aquela do tio Chiquinho dormindo na hora do terço – Varava-se a madrugada até terminarem as fotos.<br><br>Tinha o Sr. Abrão, turco (mascate) vendedor, geralmente de cobertores. Compravam-se em várias parcelas, onde eram anotados os valores em um papel (aquele papel de pão da época). Por muitas vezes, reunidos com a mamãe, ela nos falava da sua época, relatando os bons momentos vividos e as dificuldades superadas, mas, a exemplo de nós, com ótimas recordações que lhe deixou saudades.<br><br><br>E-mail: [email protected]