Como menina curiosa que sempre fui, observava atentamente tudo ao meu redor. Já escrevendo para o site São Paulo Minha Cidade, um dia recebi uma solicitação. Era um jovem pesquisador da USP, atuando na casa de Yaiá no Bixiga. Ele me fez algumas perguntas e entre elas quais eram as profissões existentes no Bixiga na época em que lá residi. Pensei e fui relembrando de tudo que vi, senti e vivi em meados e final dos anos 60. É sobre isso que resolvi escrever e registrar hoje, pois achei muito interessante pensar e relatar ao jovem o que observei. Acho também importante compartilhar e receber complementos, observações, sugestões, etc.
Iniciei com a profissão de barbeiro, de nosso primo Orlando, pois aos sábados lá estava ele, na vila em que residiam meus tios, para exercer seu nobre ofício. Também me lembrei de Dona Paquita, a espanhola baixinha, de coque, já grisalha, que era lavadeira e carregava as trouxas de roupa na cabeça, com o corpo ereto e sempre dialogando com as pessoas. Lembrei dos irmãos Belizzi que eram padeiros, de Dona Carmela Luzzo que possuía um bar, que recebia muita gente para provar os quitutes e cantar, inclusive Adoniran Barbosa e Elis Regina. Lembrei de Dona Tereza Braga que fazia bolos e doces deliciosos. Também do Sr. Agostinho Luzzo, sapateiro. Havia também a alfaiataria dos senhores Tito e Ninon.
A Art Flor fabricava vários tipos de arranjos e eu gostava de observar como eram colocadas as pétalas das rosas. Dona Maria Amélia, a pianista, jovem e solteira, ministrava suas lições em casa. Havia também o bar do Geni, a vendedora de produtos de Avon, Dona Kanako, residente em um prédio, e a pensão de Dona Thereza, que servia comida em casa e à domicílio. Mais adiante também a costureira, especialista em vestidos de festa e de noiva, chamada Marianinha.
Lembro-me de Alice, a cabeleireira de origem oriental, que todos procuravam muito por seu excelente trabalho e simpatia. De feirantes, me recordo ainda do casal de italianos: Vicente e Gina, que vendiam enfeites de cabelo. Do fotógrafo Tucci, com lindas imagens em preto e branco, de crianças e de casamentos nas vitrines. Do motorista particular e de táxi, Sr. Vicente, que dirigiu para Adhemar de Barros e também para a Sra. Odete. Do Sr. José, de origem árabe, que vendia roupas de cama no bairro. Todos procuravam também pela farmácia do japonês para tomar injeções e pedir indicações de remédios. Na Rua Rocha também existia muitas tinturarias, lavanderias e alguns bares. Em um prédio, no final da rua, já quase chegando à Avenida Nove de Julho, residiu a cantora Cláudia, que depois ficou muito conhecida pela beleza de sua voz e por ter interpretado a música “Não chores por mim Argentina”, homenageando Evita Perón.
Lembrei também de Dona Natalina, costureira. De passistas, sambistas, porta-bandeiras, da escola de samba “Vai-vai”, que moravam também na Rua Almirante Marques de Leão. Recordar é viver, já diziam os poetas. Deixo aqui um pouco destas lembranças. Grata pela oportunidade!
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