Em 1971 quando vim morar no Brooklin boa parte das ruas ainda eram de terra e nelas não havia iluminação pública. Todas as noites meu marido ia me esperar no ponto de ônibus que ficava na esquina da Rua Pensilvânia com a Guaraiuva, quando eu chegava do trabalho, para que eu não descesse a rua sozinha e no escuro só quebrado por algumas luzes que as famílias deixavam acesas para iluminar o jardim e ajudar as pessoas que chegavam à noite.
Estranhei a mudança porque eu morava na Rua Albuquerque Lins esquina com a Rua Barra Funda – local movimentado e barulhento por causa do Cine São Pedro e dos bondes que passavam na esquina. No Brooklin havia muito silêncio e grilos cantando no meu jardim! Como tudo mudou! Hoje é impossível andar no meio da rua como estávamos acostumados mesmo porque não havia trânsito. O de hoje não permite mais isso.
A Avenida Luiz Carlos Berrini que era apenas um córrego se transformou em um polo comercial fervilhante por causa dos muitos edifícios com bancos, firmas, escritórios, a exemplo do que aconteceu na Avenida Paulista décadas atrás. E sei disso porque passei boa parte de minha infância e adolescência na casa de meus avós na Alameda Santos perto da Rua Pamplona e acompanhei o desenvolvimento daquela região que passou de bairro residencial e tranquilo para centro nervoso de comércio, bancos, escritórios, fervilhante de gente e trânsito.
O mesmo está acontecendo no Brooklin. De manhã e no fim da tarde, o trânsito é caótico porque as ruas do bairro até então apenas residencial, não aguentam o fluxo de veículos que aumentou imensamente. No horário do almoço as mesmas ruas são invadidas pela multidão de funcionários, dos edifícios ali construídos, a procura de restaurantes e padarias para uma refeição.
Muitas casas de famílias que conheci e com quem eu e meus filhos convivemos se transformaram em restaurantes, lojas, prestadoras de serviços, ou foram demolidas em massa – quarteirões inteiros – para dar lugar a prédios de apartamento ou de escritórios.
Mas, uma coisa boa está acontecendo. As pracinhas do bairro antes completamente abandonadas estão pouco a pouco sendo recuperadas e mantidas em ordem porque as pessoas as procuram para sentar um pouco depois do almoço, conversar, tomar um sorvete.
Os bons tempos de sossego e grilos no jardim se foram, mas nem tudo é ruim. O progresso é necessário, precisamos dele e, como se dizia antigamente – São Paulo não pode parar e os incomodados que se mudem!
As maritacas e bem-te-vis ainda não mudaram e nos acordam todas as manhãs e fazem algazarra nas árvores da rua e no meu telhado, descendo até o meu quintal para comer a comida do canarinho. Eu também não mudo, pelo menos por enquanto. Os prédios estão chegando perto "do meu quarteirão", mas moro no mesmo lugar – agora asfaltado e com luz na rua e trânsito pesado durante a semana – um pouco sufocado pelos prédios que estão acabando com os quarteirões inteiros de sobrados com quintal e jardim.
O Brooklin mudou, ficou agitado, mas quem mora aqui ainda o acha um lugar agradável para morar!
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