Muita gente de fora acha que São Miguel é uma cidade independente de São Paulo. Enganam-se. Somos um dos bairros de São Paulo, o penúltimo do extremo leste da capital. Depois de São Miguel, ainda há vestígios de civilização, mas são cada vez mais raros. A razão do engano é exatamente a nossa pujança.
A Grande São Miguel, que compreende as pequenas comunidades de Itaquera, Guaianases, Itaim Paulista, Ermelino Matarazzo, Ponte Rasa e Penha, tem seu núcleo central na Vila Americana, polo irradiador de cultura e riqueza para toda a região. Estima-se que 87% do PIB da Grande São Miguel, já incluídas as pequenas comunidades mencionadas, é gerado na área limitada pela Rua da Estação ao norte, pela Avenida Nordestina ao sul; Praça Padre Aleixo a oeste e Rua Pedro Soares de Andrade a leste.
Na Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, a qual nós da aristocracia local nos recusamos a pronunciar a atual denominação, está o templo religioso mais antigo de nossa cidade. Datada de 1622, tombada pelo Patrimônio Histórico no ano de 1938, a nossa Igreja Velha é um monumento histórico da maior importância. Ponto de visitação de turistas nacionais e estrangeiros foi recentemente classificado pela BBC como o sexto local mais visitado do Ocidente, atrás apenas da Torre Eiffel, do Museu do Louvre, do Cristo Redentor, do Palácio de Buckingham e das obras do Itaquerão.
Temos, também, o nosso Big Ben, tão pontual quanto o original, pelo menos nos três dias em que funciona por ano. Inaugurado em 1967, junto com o Mercadão, funcionou nos primeiros quinze dias e ficou parado quase trinta anos. Nesse meio tempo serviu apenas como motivo de apostas para desocupados. Quando o sujeito não tinha mais nada a fazer chegava ao Estudantil e apostava que ia subir na torre do relógio. A troco de alguns cruzeiros ou cervejas, ou apenas para impressionar as menininhas do Dom Pedro, desajustados sociais e semelhantes escalavam os 600 metros de escadas da torre principal. Azar do bairro é que alguns voltaram.
Mas, afinal, quem precisava de relógio público em São Miguel? Bem que podiam ter instalado no local uma estátua do Antonio Marcos, nosso ídolo maior, que em seus áureos tempos baixava no bairro só para um racha de futebol de salão no Crnq. E vinha com Cauby Peixoto, Vanuza, quando ela tinha memória, o Cláudio Fontana, o Nelson Ned e aquele rapaz que cantava "Tijolinho". As subcelebridades que ele trazia não jogavam nada, mas em compensação, os "oriúndi" jogavam um bolão e sempre havia pelo menos dez deles batendo ponto no Estudantil, ainda que fosse segunda-feira à tarde. Em tempo, segunda-feira é o dia de folga dos artistas e dos feirantes. Entre nós não havia feirantes nem artistas, exceto o Toninho, mas ninguém rejeitava uma pelada na segunda à tarde.
Nosso relógio sempre foi a sirene da Nitro Química. Para acordar, para sair para o colégio, para almoçar e, principalmente, para parar de trabalhar. O último, às 21h30, só servia para os pais das meninas empatarem a nossa vida. Mas a gente sempre arranjava mais tempo. Elas adoravam.
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