A Cidade dos Estudantes – Parte II

O capitão da Guarda Nacional, Antonio Bernardo Quartim, proprietário do Sítio Bela Vista, hoje bairro de Vila Maria, no período de 11 de 1876 a 06 de 1891, administrador do Jardim da Luz durante 30 anos, foi o mais popular empreiteiro de obras públicas do seu tempo. Ele foi um dos pioneiros no emprego de tijolos nas construções da Cidade de São Paulo, em substituição ao velho sistema da taipa de pilão. O Teatro São José foi um dos primeiros prédios erguidos em São Paulo com essa nova técnica construtiva. Depois que adquiriu o Sítio Bela Vista, Quartim passou a utilizar em suas obras os tijolos por ele fabricados nas olarias situadas no sítio de sua propriedade.

O Teatro São José somente viria a ser concluído dez anos após a sua inauguração, mas mesmo assim mereceu elogios do historiador Visconde de Taunay, que lhe gabou a acústica e da Princesa Isabel que, em seu diário, o qualificou como "bonito". Apesar de todas as críticas à obra e ao seu realizador vale lembrar um pouco da história do Teatro São José. Esta casa de cultura representou o primeiro grande passo na ascensão da antiga vila, considerada acanhada e caipira, à sua transformação em um dos mais destacados pólos culturais do país. Desde a sua festejada inauguração, em 1864, por quase 34 anos, o São José foi o melhor espaço para a sociabilidade e para a difusão de cultura naquela São Paulo de "fin de siècle". No dizer de Paulo Cursino de Moura (São Paulo de Outrora), foi ele "…o expoente máximo da cultura intelectual da Província onde não só se fazia teatro como literatura, ao tempo da fogosidade irresistível de Castro Alves e da graciosidade de Eugênia Câmara…"

Após a inauguração do São José, Quartim formou, com alguns acadêmicos e artistas, uma companhia dramática e tornou-se empresário teatral. Permaneceu, até sua morte em 11 de julho de 1888, naquela casa de arte onde vivenciou momentos sublimes proporcionados pelos mais renomados artistas da época. O Teatro São José sobreviveria ainda 12 anos ao seu construtor, quando, na madrugada de 15 de fevereiro de 1898, destruído por um incêndio, encerrou sua jornada de glórias.

O Teatro São José seria reconstruído na esquina da Rua Xavier de Toledo com o Viaduto do Chá, mas foi, depois, demolido pela Light and Power Tramway Company que, naquele espaço ergueria o Edifício Alexander Mackenzie, para sediar aquela empresa.

No Teatro São José foram levadas à cena inolvidáveis apresentações líricas e dramáticas, rocambolescas novelas de capa-e-espada, episódios cômicos e trágicos e os mais chorosos dramalhões. As óperas levadas à cena foram 58, das quais a Aida (Verdi) e a Cavaleria Rusticana (Mascagni) foram líderes em número de apresentações que, no total, estiveram em torno de 450. Para interpretá-las, subiram ao palco os mais altos expoentes da arte lírica de então, como o grande Caruso, Tamagno, Maria Peri e muitas outras vozes de ouro. Nas artes cênicas, brilharam atores de companhias teatrais brasileiras, portuguesas e francesas, principalmente, representadas por atores do quilate de Eugênia Câmara, Lucinda Simões e os festejados cômicos nacionais, Vasquez, Machado e Balbina, Capítulos à parte foram as magistrais apresentações dos dois expoentes máximos das artes teatrais francesas, Jean Coquelin e Sarah Bernard. Para ficar apenas com ela, que foi a mais festejada dama das artes cênicas de sua época, recordemos algo de sua passagem gloriosa por esta cidade, onde já se esboçava um clima de "belle époque".

Chegada do Rio de Janeiro, viajando em trem especial pela recém inaugurada Estrada de Ferro do Norte (futura Central do Brasil), a "divina" foi recebida com pompa na "cidade dos estudantes", que lhe prestaram belíssimas homenagens. Após sua apresentação no palco do São José, na noite de 28 de julho de 1888, os acadêmicos da Faculdade de Direito forraram com suas capas o chão que ela haveria de pisar e, se isso não bastasse, foi conduzida nos braços dos estudantes até o hotel onde se hospedara. Gesto de galanteria ao qual não faltaram versos por ela inspirados e a ela dirigidos com ardor.

Em seus pouco mais de 200 anos de existência a Faculdade de Direito deu para São Paulo e para o Brasil uma plêiade de ilustres homens públicos, entre os quais 14 presidentes da República, dezenas de governadores, homens de letras (poetas, cronistas e romancistas), brilhantes advogados e juristas de renome. Qualquer lista ou relação que se faça de egressos ilustres daquela nobre casa de ensino, ela será sempre incompleta, mas saudemos: Álvares de Azevedo, Castro Alves, Fagundes Varela, Guilherme de Almeida, Joaquim Nabuco, Vicente de Carvalho, Alphonsus Guimarães, José de Alencar, Rui Barbosa, Miguel Reale, Ligia Fagundes Teles, Bernardo Guimarães, Alcântara Machado, Monteiro Lobato, e Waldemar Seissel (você conhece?). Peço perdão àqueles cujos nomes não constam desta pequena citação, mas que, igualmente, com seu talento e labor contribuíram para dignificar o nome da Academia e o desta cidade que aprendemos a amar e da qual temos alguns bons motivos para nos orgulhar.

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