Década de 1940. Sistematicamente, nos dias de Natal, meus pais e eu passávamos o dia na casa de meu avô na Rua Alegria no saudoso Brás. Lá estavam sempre reunidos, além de meu avô Luiz, seus filhos com suas esposas ou maridos e naturalmente netos. Eram dias muito felizes, alegres e descontraídos, afastados de seus afazeres cotidianos. O almoço, naturalmente constando macarrão, claro feito em casa, aquele molho denso, porpetas e polenta (como bom nortista italiano). Durante o dia os adultos punham em dia suas conversas e quando a propagação permitia, ouviam um pouco de rádio ainda “insipiente”. As crianças se esbaldavam no imenso quintal jogando e se emporcalhando com a bola de meia.
No fim da tarde, após algumas partidas de tômbola, era hora do lanche, as crianças acompanhadas das tias iam comprar na venda, na esquina da Rua Piratininga: pãezinhos, salame e queijo fatiados e algumas garrafas de guaraná. As crianças à noite já estavam aflitas, desejosas de voltar a casa para ver o que iriam ganhar, quando menores, do Papai Noel.
Lembro-me, com muita saudade dessa época, quando ao chegar a casa, na Rua General Osório após descer do bonde na Rua Santa Ifigênia, fiquei algumas vezes decepcionado. Afinal, a criança não tem o senso de avaliação para saber que seus pais não têm, na ocasião, dinheiro para comprar o presente desejado. Meu desejo era ter um trem elétrico.
Até que em uma dessas ocasiões lá estava o objeto dos meus sonhos. Fiquei deslumbrado e lembro-me até hoje, essas coisas marcam, o ar de satisfação nos rostos de meus pais. Só alguns anos mais tarde é que pude avaliar o imenso sacrifício que meu pai deve ter feito para aquela extravagância. Mas, criança é assim mesmo.
No entanto, se bem avaliado, concluiremos que esse comportamento é importante para a criança. O desejo possivelmente é a mola que impulsionará no futuro sua busca e pertinácia na vida. Ainda hoje ao contemplar os magníficos detalhes da locomotiva e dos vagões do meu querido Lionel não só me extasia a verossimilhança como também me vem à mente as sensações todas que relatei. Claro, me lembro com um misto de alegria e saudades.
Durante meus anos de vida sempre mantive desejos e esperanças. Com frequência atingi os objetivos. Espero, já nesta idade que jocosamente se denomina de "burro velho" segundo muitos, que de fato haja após a morte continuidade. Acredito que mesmo lá do outro lado os desejos e as esperanças devam continuar, com o mesmo valor, pois só assim a evolução espiritual poderá continuar. Em vez de um trenzinho, vou desejar e muito que todos os que me deram tanta alegria estejam por lá reunidos para grandes e belos natais. Porém, desejo mais do que tudo, por enquanto, que isto venha a ocorrer só daqui muitos natais.
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