Nada além de um olhar

Na década de 40, morava na Rua Antonieta (atual Comendador Miguel Calfat), na Vila Nova Conceição. Havia um grupo de meninos e meninas com idades entre nove e 12 anos, todos vizinhos, que se reuniam quase que diariamente para as tradicionais brincadeiras infantis da época.

Certo dia, notamos que quase em frente as nossas residências vieram morar novos vizinhos: pai, mãe, uma menina pequena (cinco ou seis anos) e um menino e uma menina com idades equiparadas as nossas. Não demorou muito tempo para esse menino e essa menina se integrarem ao nosso grupo e quando isso aconteceu senti uma agradável surpresa. A menina era muito bonita e no seu primeiro olhar a mim dirigido, notei que além de fixar por alguns instantes, seu rosto esboçou ligeiro sorriso. No dia seguinte ao nos encontrarmos, repetiu-se a mesma cena e eu retribuí também com um sorriso. A partir de então passamos a se olhar mutuamente sempre de maneira prazerosa.

Quem comandava as brincadeiras era a menina maior do grupo. Tinha 12 anos, já próxima dos 13. Dentre as brincadeiras sugeridas havia uma que consistia em separar meninos de um lado e meninas do outro e cada um era chamado a escolher o seu par. Na primeira vez que a menina do olhar foi convidada a escolher, ela se dirigiu a mim e quando chegou a minha vez, eu escolhi ela e daí em diante, toda vez que a brincadeira voltava, ela sempre me escolhia e eu sempre a escolhia com olhares acompanhados de sorrisos.

Após cerca de seis meses que nos conhecemos, em um pequeno acidente quebrei um braço. Fui levado ao Hospital (São Luiz) e o mesmo foi engessado. No dia seguinte, não tendo comparecido para as habituais brincadeiras, recebo com muita alegria a visita da menina do olhar, só que desta vez sem sorrisos e com um olhar triste demonstrando sentimento pelo acidente. Conversamos um pouco sobre o ocorrido e ela se despediu caminhando lentamente até o portão. Retirado o gesso, voltamos ao convívio do grupo.

Quando nos conhecemos ela tinha nove anos, eu dez, a mesma idade do seu irmão que além de amigo nas brincadeiras era colega de classe no Grupo Escolar. Certa vez, já com 11 anos, saindo da aula ele me conta que ficou sabendo que em um cinema da cidade iria passar um filme em série, todos os domingos pela manhã das 10 às 12 horas. Eu e minha irmã vamos assistir. Você quer ir com a gente, perguntou. Durante vários meses, eu, a menina do olhar e o irmão, todos os domingos às 9h pegávamos o ônibus da linha 80 (Vila Nova Conceição) na Av. Santo Amaro, em direção ao centro. O ponto final do ônibus era no Vale do Anhangabaú, sob o Viaduto do Chá junto à entrada da Galeria Prestes Maia. Descendo do ônibus, em três minutos estávamos na entrada do Cine Pedro II para assistir o filme seriado "Império Submarino".

Os assuntos que mantinha com a menina eram sempre triviais. Nunca houve alguma insinuação de sentimento. Apenas os olhares se enamoravam.

Aos 12 anos terminei a quarta série do Grupo Escolar. Aos 13, fui fazer o curso de Admissão ao Ginásio (que naquele tempo existia) na A.C.M – Associação Cristã de Moços no centro da cidade, no começo da Rua Santo Antonio, no período da tarde. A menina estudava pela manhã. A partir daí os encontros tornaram-se escassos. Vez ou outra nos finais de semana, sempre com um "oi", acompanhado de sorrisos.

O pai trabalhava em uma firma bem próxima da residência e tomando conhecimento que a firma iria mudar para outro bairro e sabendo do local alugou uma casa nas cercanias. Em um desses finais de semana prolongados, meus pais decidiram passar uns dias na praia e quando voltamos fui informado por vizinhos que a família havia mudado para a nova casa. Não houve momentos para despedidas. Nunca mais tive notícias.

Os anos foram passando. De menino passei a adolescente. De adolescente a jovem. De jovem a adulto. Conheci Angelina com quem me casei em 1959 e estamos unidos pelo matrimônio há 53 anos. Mas, voltando à história, no início da década de 60, a Hebe Camargo tinha um programa na TV de muita audiência: "O mundo é das mulheres". Além da Hebe, mais três artistas entrevistavam personagens famosas da época.

Lembro da Cacilda Lanusa, Vilma Bentivenha e uma terceira que não consigo recordar o nome. Vez ou outra comparecia uma convidada substituindo alguma por qualquer imprevisto. Sempre que iniciava o programa a Hebe apresentava as participantes. Certa vez, depois de apresentar nominalmente duas participantes a Hebe completa dizendo: Hoje vamos apresentar uma convidada.

Com vocês a… Quando ela diz o nome completo da artista eu tive um sobressalto. Era a menina do olhar, naquela altura uma linda moça de 27 ou 28 anos. Além de entrevistar, também cantou uma música. Não lembro se houve outra participação. Também nunca mais tive notícias.

Passaram-se cerca de 15 anos desse episódio, em um estabelecimento comercial (papelaria) que possuía na Av. Santo Amaro, entra um senhor com vestes de executivo aparentando 40 e poucos anos, dizendo:
-“Olá Roberto, como vai?” Não reconheci e perguntei:
-“De onde você me conhece?”
-“Sou o irmão da. . .”
Quando ele diz o nome, outro sobressalto. Era o meu amigo de infância, que não via há 30 anos, irmão da menina do olhar. A primeira pergunta que fiz foi:
-“E ela como está?”
-“Está bem, casou, está com seis filhos.”
Em seguida completa:
-“Roberto, desculpe. Estou super atrasado com um compromisso. Entrei só para dizer um "oi". Quando passar de novo por aqui, entro para a gente conversar.”
Despediu-se e foi embora… para nunca mais voltar!

Aqui termina a história da menina do olhar que certamente hoje é uma linda senhora de 78 anos. Que bom que terminou assim. Que bom que ficou "nada além de um olhar", pois hoje sou casado com Angelina há 53 anos que me deu uma filha e um filho que são motivos de orgulho, dos quais originaram três lindas netas, que amo muito.

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