São Paulo minha cidade – um blog que, ao que sei, nasceu sem pretensão, mas que a cada dia fica mais parecido com a cidade que homenageia, grande, enorme.<br><br>A cidade, uma das mais antigas do país fundada no Pátio do Colégio, pelos jesuítas, abriga vários marcos, como a escultura em homenagem aos bandeirantes do artista escultor Victor – imagem do monumento aos bandeirantes – imagem do Obelisco Brecheret, na qual brinquei muito quando criança e o Obelisco em homenagem ao MMDC, Revolução Constitucionalista de 1932, o qual também frequentei em intermináveis brincadeiras, situadas no Parque do Ibirapuera, que como o próprio parque conta um pouco da história da cidade "muito mais que maravilhosa" (sem plágio).<br><br>Museus, parques, monumentos, praças, bairros inteiros (Mooca, Brás, Bexiga, etc…) fazem parte da história. Entretanto, nunca poderia imaginar (até outro dia) que o restaurante Giratório, inventado por meu tio e de propriedade de meu pai, pudesse se comparar a esses ícones da cidade e fosse tão importante como os mesmos, constituindo-se parte integrante dessa história.<br><br>Descobri isso por acaso ao procurar um artigo de minha autoria sobre o Jardim Paulista, onde vivi grande parte (a melhor) de minha vida. Ao procurar este artigo, deparei-me com outro, para meu espanto, sobre o Giratório, com dezenas de comentários, admiradores, pessoas que conheceram, frequentaram e se lembravam com saudades dele, pois infelizmente ele não existe mais e foi ao escrever ao autor dessa matéria, tão cara para mim, que recebi muitos pedidos para escrever mais sobre a história do Giratório.<br><br>Assim tomei coragem e aqui vai…<br><br>Eram os idos de 1958 e meu pai (Ezio Barioni), um pintor, contemporâneo do Volpi na escola de Belas Artes, que apesar de ter se sentado com os mestres em Burano e ter quadro catalogado no museu da Comuna de Verona, nunca vendeu um quadro, porque dizia que vender arte é se prostituir, passou o ano todo com minha mãe viajando pela Europa. Enquanto isso, aqui no Brasil meu tio Mário Genari Filho (homônimo de um grande artista) inventava, construía e colocava para funcionar o restaurante Giratório na antiga Rua Amador Bueno, quase esquina com o Largo do Paissandu onde ficava a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e posteriormente a estátua Mãe Preta. Imagem da estátua e do Largo Maquete do giratório (*)<br><br>Ao retornar da Europa, o Giratório é inaugurado. Apesar de pequeno lembro-me como se fosse hoje. Entre as centenas de pessoas fui apresentado ao meu irmão (Ezio-Pipo), filho de outra companheira de meu pai (ele teve duas ou três além da oficial, da qual se desquitou quando meus dois irmãos mais velhos ainda eram jovens). Nem entendi bem, mas depois ficamos muito amigos e parceiros.<br><br>Foi um sucesso. Fiz uma "maquete" para os que não o conheceram. Tinha portas de "saloon" (abre e fecha) na entrada e na saída. Você entrava, lavava as mãos e secava nas máquinas de ar (não foram as primeiras, como eu disse antes, mas as mais "modernas" daquele tempo, sem pedestal). Voltava e em um balcão escolhia entre vários pratos e fazia o pedido. O atendente passava o pedido via interfone (este sim o primeiro no Brasil, trazido pelo meu pai da Itália), para a cozinha.<br><br>A cozinha era toda de vidro e as pessoas almoçavam vendo os cozinheiros preparar as comidas, lavar as louças, etc. Higiene e qualidade em primeiro lugar. Bons tempos! Depois de pedir, dava-se meia volta e sentava-se, pedindo a bebida. Ao girar, tudo cronometrado, as pessoas recebiam as bebidas, em seguida seu prato. Começava a comer, calmamente, visualizando o frisson da cozinha. Em certo ponto, havia uma abertura no vidro por onde as pessoas escolhiam entre dois tipos de sobremesa (que mudavam a cada dia da semana). Mais um pouco e em outra abertura, entregavam-se os pratos e talheres sujos para serem lavados (em uma máquina inventada por meu pai). Como eu disse tudo cronometrado. Ao terminar a sobremesa, mais uma abertura no vidro para entregar as taças e colheres e pronto… Levantava-se e dava lugar aos próximos fregueses. As massas eram todas feitas em casa. O queijo era parmesão legítimo. Tudo de primeira.<br><br>Esse era o Giratório, mas o mais legal são as histórias. Em certa época um conjunto de crioulos muito doidos, chamados "os Uirapurus", que fez muito sucesso com uma música do mesmo nome e que cantavam com vozes (afinadíssimas) do mais agudo ao mais grave, se tornaram fregueses. Todos os dias iam almoçar (e cantar) por lá. Eu adorava.<br><br>Outro freguês (mais que) ilustre foi o grande Manoel da Nóbrega, humorista que imortalizou o programa "a Praça da Alegria", pai do atual Carlos Alberto de Nóbrega, que plagia seu pai em a atual “A praça é nossa” (muito sem graça, infelizmente).<br><br>Uma faceta humanista de meu pai, quase acaba em desastre. Ao assumir a propriedade do Giratório (meu pai comprou o restaurante de São Paulo que era de propriedade de uma sociedade, para que a mesma se capitalizasse e construísse o primeiro Giratório do Rio de Janeiro) ele ficou muito chateado ao ver que várias toneladas de comida por mês eram jogadas aos porcos (uma empresa retirava – de graça – como lavagem), tendo (já naquela época) tantas pessoas sem ter o que comer. Como naquela época não havia tantas leis de consumo (que dizem que você tem que jogar fora uma comida boa porque se o cara para quem você der a comida passar mal – não necessariamente por causa da sua comida – ele pode te processa e você paga até as calças para os órgãos encarregados de proteger os consumidores, para advogados, juízes, etc…) ele resolveu que a comida boa que sobrasse seria, após o expediente, dada aos pobres.<br><br>Primeiro dia, uma beleza, os empregados foram no Largo Paissandu, chamaram os mendigos (naquela época era politicamente correto chamá-los assim) e uns oito ou dez comeram. No segundo dia, apareceram uns 20 ou 30. A notícia se espalhou. Depois de uma semana, às 3h da tarde já começava a formar uma fila de centenas de mendigos, maltrapilhos na porta do restaurante, inclusive atrapalhando o movimento, uma vez que só fechada às 21h.<br><br>Um mês depois, além das centenas de mendigos, apareceram os "guardadores de lugar" que cobravam e "organizavam" as filas de espera, inclusive com brigas que precisavam ser apartadas pela própria polícia. Resultado: depois de um mês, os porcos voltaram a se refestelar com as sobras do Giratório.<br><br>Outra história memorável aconteceu com meu tio Baby. Baixinho, atarracado, briguento e marrento, quando novo, batia até em guardas civis (vários). Hoje tem nome em rua e ginásio de esportes porque "inventou" os "Jogos abertos do interior". Um dia, uns cinco ou seis rapazes (de 20 e poucos anos), faziam a maior algazarra, falando alto, falando palavrões… O caixa interfonou para o escritório (no piso superior) e avisou meu tio Breno (o administrador).<br><br>Este chamou o tio Baby, que tinha uma pequena oficina no andar superior do Giratório. O tio Baby desceu e ao ver os rapazes foi logo dizendo (impedindo que iniciassem seus pedidos):<br> “- Aqui não é lugar de farra e nem palavrões. Se quiserem comer aqui, abaixem o tom e se comportem.”<br>Ao verem aquele velhinho os rapazes começaram a rir e um começou a falar: <br>-“ Olha aqui seu ve…”(acho que queria dizer velho, mas não conseguiu terminar). <br>Tio Baby pegou-o pelo colarinho, deu-lhe uns safanões e o atirou (como um saco de batatas) porta afora. Como a porta era de "saloon", para mim que havia descido também para ver a cena, pensei estar em um filme de bang-bang. Foram um após o outro, os cinco (ou seis) esbofeteados e arremessados porta afora pelo "velhinho" e para mim (observador), foram cinco (ou seis) portas de saloon se "abrindo (sai saco de batata) e se fechando, para em seguida abrir de novo…<br><br>Assim histórias aconteceram por mais de 12 anos. Infelizmente, naquela época não havia o Fgts. Quando um empregado fazia dez anos de casa ganhava "estabilidade". Não podia mais ser mandado embora ou teria que ser "indenizado". Indenização significava uma montanha de dinheiro que o patrão tinha que pagar para o empregado. Nenhum patrão deixava isto acontecer. Com oito ou nove anos, mandava o cara (por melhor que fosse) embora.Todos podiam fazer isso, mas não o Sr. Honestidade, Ezio Barioni (do qual tenho enorme orgulho). Após 12 anos funcionando e sendo administrado pelo meu tio postiço Breno (um excelente administrador, uma vez que meu pai nunca administrou nenhum dos inúmeros negócios que teve), Deus achou por bem levar o tio Breno embora.<br><br>Logo em seguida, um dos cozinheiros (excelente) completou os dez anos. Meu pai tinha esperança que ele continuasse, mas ele quis sair. Indenização! Em pouco mais de seis meses, o outro antigo cozinheiro também completaria os dez anos. Sem o tio Breno para gerir, meu pai ofereceu sociedade para este segundo cozinheiro, um italiano (burro segundo diziam, da Calábria) que prontamente aceitou. Menos de um ano depois, ele saiu e abriu seu próprio restaurante na Alameda Santos. Sem indenização, mas não precisou. Em menos de um ano ele quase levou meu pai a falência.<br><br>Logo depois desse segundo golpe, o açougue (que também era do meu pai e fornecia carne para o Giratório) fechou (a Rua da Consolação foi alargada e a casa foi abaixo). Um segundo restaurante (Dominguinho que ficava na Avenida 9 de Julho, também fechou graças ao outro sócio do velho). E para completar, o dono do prédio, para renovar o contrato de aluguel pediu simplesmente o dobro.<br><br>Resultado de tudo: O Giratório de São Paulo também fechou, uma vez que os demais (de Santos, os dois do RJ já haviam fechado e o de Portugal nem chegou a completar uma ano).<br><br>Tenho muitas outras histórias do Giratório, mas…ficam para uma outra vez!<br><br>(*) quem quiser ver as imagens pode ver no meu blog: bloguioni.blogspot.com.br<br><br><br>E-mail: [email protected]