E o gato?

Manhã fria e ensolarada de inverno em São Paulo. Minha vizinha, uma senhora bem idosa, se depara com um gato morto no seu jardim. Passado o impacto da cena, percebeu que havia alguns varredores na rua; chamou-os e solicitou que retirassem o "corpo" de seu jardim e o levassem embora. Provavelmente sensibilizados pelo ocorrido e pelo pedido tão comovido vindo de uma senhora tão idosa, prontamente atenderam e recolheram o gato.

Recolheram-no, envolveram-no em um montinho de grama retirada das calçadas que eles estavam varrendo e colocaram o gato… imaginem onde… na porta da minha casa. E lá ele ficou até eu ser chamada por outra vizinha:

– Márcia, tem um gato morto na sua calçada. Você precisa chamar alguém para retirá-lo.

Como agora o problema era meu, resolvi enfrentá-lo para buscar uma solução. Liguei para alguns lugares pedindo orientação sobre o que fazer, até chegar ao órgão responsável pela limpeza pública, e após explicar o ocorrido, travou-se o seguinte diálogo com a atendente:

– Senhora, o gato tem que ser recolhido pelo dono, que deve providenciar sua remoção e destinação.

– Moça, não sei quem é o dono, só quem sabe é o próprio gato, que, no caso, está morto, e mesmo se estivesse vivo não saberia dizer.

– O gato não é da sua vizinha?

– Não senhora, ele apenas morreu no jardim dela.

– Nesse caso, o gato não poderia ter sido retirado pelos varredores da rua. Vou lhe passar um telefone para a senhora entrar com uma reclamação contra eles.

– Não quero reclamar de ninguém, só quero resolver um problema que nem meu era até agora há pouco. Mas, voltando ao assunto… E o gato, moça, que faremos com ele?

– Um momento, senhora… (muitos minutos depois):

– A senhora tem certeza que esse gato não tem dono?

– De novo essa história?

– É porque não tem previsão para recolher animais mortos em determinadas situações.

– Vamos fazer assim, moça: vou guardar o número do protocolo desse atendimento e remover o gato por minha conta; se não conseguir levá-lo a nenhuma clínica veterinária, vou ser obrigada a descartar o "corpo" no rio aqui da esquina. Se houver alguma reclamação contra mim eu me defendo com esse número de protocolo e informo que tentei, mas não consegui que ele fosse removido em uma boa.

Antes que ele começasse a se deteriorar tive que tomar providências.

– Mais um momento, senhora… (muitos minutos depois):

– A senhora aguarde, que dentro de 24 horas providenciaremos a retirada do animal. Mais alguma coisa?

– Não, obrigada. Bom dia.

E assim, algumas horas depois, esse "munícipe felino" se despediu dessa vida tendo seu resgate digno, praticamente um funeral, sob muitos olhares curiosos, sendo que de um observador infantil mais atento surgiu a seguinte pergunta:

– Ô tia, é assim que se faz um enterro de gato?

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