Lembranças da minha infância na Vila Brasilândia

Em 1964 minha família mudou-se da Vila Industrial, na zona leste, para uma casa que meu pai (conhecido no bairro como Seu Xavier) comprou na Vila Brasilândia. Esta casa ficava na Rua Guariroba 313, conhecida hoje como Rua Joaquim Ferreira da Rocha. A Rua Guariroba começava na Av. Parapuã, em frente à Igreja Evangélica Cristã do Brasil e terminava na Av. Servidão Pública, que hoje, pelo que vi no mapa, chama-se Estrada Amâncio Barros. O posto de saúde era muito distante, ficava no início da Av. Parapuã. Lembro-me que todas as ruas não eram asfaltadas, e os postes de luz eram de madeira, havia muito barro quando chovia, as pessoas saiam de casa para ir trabalhar e colocavam galochas ou botas de borracha para poder andar.

Os caminhões de gás (Liquigás, Helio gás, Supergasbrás e Ultragaz) só faziam entregas em dias chuvosos com corrente nos pneus. A Liquigás colocava um losango com nome da empresa nas casas que tinham clientes exclusivos. O ponto final do ônibus da Tusa ficava em uma Padaria em frente à Pedreira do Vega, que depois de alguns anos virou Vega Sopave (onde explodiam as pedras todos os dias às 11h), não havia outro jeito das pessoas irem para a cidade, só tinha ônibus na Av. Parapuã.

Meu pai tinha uma barraca de roupas na feira, quando íamos trabalhar, nos bairros de Cruz das Almas, Moinho Velho, Vila Bonilha, fazíamos o caminho de madrugada a pé, pela Estrada do Sabão, que era de terra e havia muitos bambuzais cobrindo a estrada, que nos dias de serração ficava mais escuro. Havia poucas casas no bairro, o comércio maior era na Avenida Parapuã, que tinha o Cine Brasilândia (que aos domingos à tarde íamos às matinês), lojas, farmácia, pastelaria e quitanda; fiz a primeira comunhão na igreja de Santo Antônio.

A primeira televisão preta e branca que meu pai comprou em uma loja japonesa que havia na Av. Parapuã foi uma TV Invictus. Logo que mudamos minha mãe me matriculou no Grupo Escolar de Vila Brasilândia, que ficava na atual Rua Nair Ramos Schuring. Na época, a frente da escola era moderna, construída em concreto, mas aos fundos as salas eram todas antigas, feitas de madeira e o chão era assoalho, tinha um refeitório somente para os alunos da Caixa, ou seja, aqueles mais pobres que não tinham condições de ter comida em casa, uniformes e material escolar. Alguns anos depois, na hora do recreio era oferecido a todos os alunos um copo de Toddy e um pão com manteiga. Havia as classes só com meninos e só para meninas, usava-se uniforme de calça curta, camisa branca e gravata com faixas brancas mostrando em que série o aluno estava, depois é que misturaram os alunos na mesma classe. Nas carteiras cabiam três alunos e tinha até o lugar para colocar o vidro de tinteiro. Na entrada todos os alunos ficavam em fila e cantavam o Hino Nacional, ao entrar na sala de aula, todos ficavam em pé e rezava um “Pai nosso”, para depois começar a aula.

As casas em frente à escola eram bonitas e com jardins floridos na frente, o portão de entrada dos alunos era em uma rua lateral sem saída, pois havia um campo de futebol de várzea e um córrego, onde os moleques caçavam rãs. Os alunos tinham saudades da escola mesmo na época de férias, pois era excelente. Tive vários professores, mas me lembro do Senhor Pedro, meu professor do 4º ano primário, e da professora Magda. No ano de 1966 construíram um palco com cobertura, que era o pátio, depois derrubaram as classes antigas e construíram a novas e uma quadra excelente, onde fazíamos as aulas de Educação Física à tarde. A escola tinha uma fanfarra atuante, o uniforme tipo agasalho era de cor verde escuro com listras nas mangas e calça de cor amarela. Em datas comemorativas, fazíamos desfiles pelas ruas em volta da escola, na Av. Parapuã, e todas as pessoas participavam. Nos horários de entrada havia uma senhora que montava um tabuleiro e vendia bolos, quebra queixo, cocada, sagu e pé de moleque. Trabalhei com um senhor que vendia maçã do amor, raspadinha e machadinho ou martelinho antes de entrar para as aulas.

A minha casa ficava quase na esquina da Rua Guariroba e Rua Pirajuba, tinha a Mercearia da Dona Olímpia e Seu Inácio, que moravam na esquina (ao lado morava Seu Renato), a casa dela teve o primeiro telefone da parte baixa do bairro, devido o seu marido trabalhar na Companhia Telefônica Brasileira (a Kombi da CTB era na cor verde escuro e tinha o símbolo da empresa na porta), ao lado da Mercearia morava seu Henrique. No quintal da casa da Dona Olímpia havia vários pés de frutas (ameixa, jabuticaba, amora e bananeiras), a qual sempre deixava os moleques pegarem as frutas na época certa.

Na mercearia vendia de tudo: cereais, tinha uma vitrine de doces da Bela Vista, como maria-mole, doces em forma de coração de batata e abóbora, casquinha com maria-mole que vinha com um brinde, pirulito do Zorro, Diamante Negro, canudinho com recheio de coco, caixinha da sorte, doce de leite, drops Dulcora, cocadas, Torrone, suspiros, “teta de nega”, chicletes Ping-Pong, balas Toffe, Paulistinha e Astronauta, queijadinha, pedaços de bolo recheados, bananinhas com creme, dadinhos, pé de moleque, paçoca, latas de biscoitos Maria da Duchem, Petibom (que tinha também os pacotes de cor roxa de macarrão), Piraquê e Aimoré, Mandiopã, Ovomaltine (que vinha de brinde um robô dentro da lata), Óleo Salada, margarina Delícia, Claybom e Saúde, Mortadela embalada em celofane e amarrada com um barbante, Maisena, Leite Ninho, extrato de tomate Elefante, latas de doces da Cica, formas pretas com vários pães doces, pão de banha, Tubaína, Laranjada, Limonada, guaraná caçulinha da Antártica, Pepsi Cola, Coca-cola, Grapette, Crush, Gini, Seven-up, Cerejinha, Ginger-ale, envelopes de Ki-Suco e Q. Refres-ko, suco em embalagem de brinquedos, cera Parquetina, café Seleto e Moka, sabão Vencedor e Rinso, anil, sabonete e talco Palmolive e Lifebuoy, lâminas da Gillette, pasta Nugget, pasta Kolynos, goma arábica, BHC, bomba de Flit, espiral para espantar pernilongo, espiriteiras, um cilindro feito de cimento em que havia Cândida, arroz Brejeiro, querosene Jacaré, lampião, lamparina, um latão com óleo que tinha uma manivela e o mesmo era vendido por meio litro ou um litro, caderno brochura, régua de madeira, caixa de lápis de cor, tênis Conga, lancheira, estojo de madeira, papel de embrulho e de seda, mata borrão, tabuada, decalcomania.

Tinha prateleiras de madeira, que para pegar um litro era necessário utilizar um pegador que havia na ponta um tipo de garfo em L, o pão era vendido em meio filão, o sabão era em barra, depois veio o de pedra, o tal Vencedor e depois o em pó (Rinso). A mercearia era também a sede do time de várzea 1º de Maio Futebol Clube, cujo uniforme era vermelho e branco. Na mercearia ficavam todos os troféus e flâmulas conquistadas pelo time. O campo do time ficava no início da Rua Piragibe e a Av. Servidão Pública, onde tinha muitos jogos e festivais. Lembro que logo cedo o padeiro e os leiteiros (da Vigor, União e da Paulista) deixavam na porta da mercearia os engradados, com os litros de leite e o cesto com os filões de pão.

Os bares e mercearias eram o ponto de encontro dos homens, que conversavam muito, além de jogar bilhar, palitinho, dominó e baralho e de tomarem cerveja Antártica, Gim, Rum Bacardi e Montilha, Fogo Paulista, Fernet, Cinzano, Cynar, Jurubeba, Rabo de galo, Bagaceira, Martini, Caipirinha, Conhaque de São João da Barra e Palhinha, Pinga Cavalinho, Tatuzinho e Três Fazendas e Vinho Sangue de Boi, Água Tônica e as Pingas com carqueja, coquinho, canela etc. Os Cigarros mais vendidos eram: Continental, Hollywood, Mexicano, Alfa, Beverly, Macedônia, Kent, Minister, Mistura Fina, Olé, e os cigarros de palha ou seda, pois se vendia também o fumo de corda ou em pacotes já cortados.

As famílias tinham muita amizade entre elas, as donas de casa trocavam receitas, mandavam bolos, doces, ajudavam alguém quando estava doente. Como quem plantava mandava verduras de presentes para os amigos e os compadres ou mesmo ovos das galinhas ou carne de porco, cabrito ou leite de cabra. Havia uma integração muito grande entre as pessoas. As casas em que havia fogões à gás eram de marcas como Wallig ou Brastemp, das geladeiras: Frigidaire, Brastemp e Gelomatic, e os televisores: Invictus, Colorado RQ, Telefunken e Empire. No período em que morei neste bairro nunca presenciei ou fiquei sabendo que alguém teria roubado um litro de leite ou pão de algum estabelecimento ou casa. No terreno ao lado da minha casa, havia uma grande pedra com um buraco em cima de uns dois centímetros de profundidade e 20 de largura, como se alguém tivesse tirado uma tampa, onde brincávamos de escorregador.

Na esquina, havia uma rua sem saída: Travessa Itaipava, como é conhecida hoje, e no final desta rua tinha uma enorme pedra e embaixo uma mina de água, em que as mulheres lavavam suas roupas e batiam nas pedras e colocavam as roupas para quarar no Sol, em cima das gramas que havia do lado de fora. Como fosse uma enorme caverna, entrando por baixo da mina, tinha túneis entre as pedras que davam saída em cima da pedra e na chácara do Seu Pedro. Lá de cima, empinávamos as pipas e os barreletes. Subindo a Rua Guariroba, quando a mesma fazia uma curva, tinha a chácara do Seu Pedro, havia verduras, frutas, legumes, mas o mais curioso era um pequeno lago em que havia uma pedra no meio e em volta da água, onde tinha peixes pequenos, como se fosse um aquário natural.

Na mesma rua, do lado direito, tinha outra chácara, onde subíamos entre as árvores e saíamos na Rua Virajuba e íamos até Vila Santa Teresinha, recém-criada, onde tinha um córrego cheio de tábuas em volta, onde nadávamos. Brincamos muito nas Ruas da Moeda, Camaratiba, entre outras. Havia época para todos os tipos de brincadeiras dos moleques, como empinar pipas e suas carretilhas, barreletes, quadrados e capuchetas, balão de todos os tipos (caixão; estrela; chinesinho; mexerica; carrapeta), peteca, ioiô, pião, bolinhas de gude, jogo de bota feito com celuloides de relógios de pulso, polícia e ladrão, salva, pega-pega, esconde e esconde, bater figurinhas, jogo de taco, carrinhos de rolimãs, cabra-sega, duro ou mole, mana-mula, lanterna feita com lata e carvão em brasa dentro, fazer estilingues encapados, mãe da rua, de mocinho e bandido devido à influência dos filmes da televisão, como Durango kid, Rin-tin-tin, James West, além do futebol que eram jogados em campinhos de terra e com bolas feitas com meias que davam mais agilidades. Os álbuns de figurinhas que davam prêmios (a Holandesa, Nossas Coisas e de Chapinhas), Desenhocop. As revistas em quadrinhos da Ebal que tinha só a capa colorida (Zorro, Batman e Robin, Flecha Ligeira, Dom Chicote, Raio Negro, O Fantasma, Mandrake, Super-Homem, Paladino, Judoca entre outros).

A maioria das casas só tinha rádio (ABC a Voz de Ouro) ou Rádio Vitrola onde se tocavam os LPs de 33, 45 e 72 rotações, e escutar os programas ou novelas de rádio como Juvêncio o Justiceiro do Sertão, os programas como O Velho Realejo, Jorge Paulo, Zé Betio, Gil Gomes, Barros de Alencar, Hélio Ribeiro, o futebol com Fiori Gillioti e os noticiários como o Repórter Esso. Nas casas que possuíam TV a programação só começava após as 12h, como a TV Excelsior, Tupi e Globo. No Carnaval brincávamos nas ruas com seringas cheias de água, coloridas com a tinta que saia das folhas de papel de seda usadas nas pipas, martelo de plástico e máscaras de papelão.

Os moleques tinham muita criatividade, pois se divertiam criando seus brinquedos com pouca coisa e havia interação entre todos. No Natal, alguns ganhavam brinquedos como bolas de futebol, bonecas, revólver de espoleta da Estrela, ou corte de tecidos para a mãe fazer roupas, outros que os pais tinham mais condições ganhavam velocípedes, triciclos ou bicicletas. Subindo a Rua Pirajuba tinha o Mercado do Seu Antônio, que era um português, entrando a direita na Rua Virajuba, quase no final tinha a casa de um japonês que trabalhava no Hospital das Clínicas, e ele levava os exames clínicos das pessoas e depois trazia os resultados e os remédios.

Lembro quando colocaram o asfalto e os postes para luz da rua, do início da Rua Guariroba chegando até a esquina da Rua Pirajuba, quando começou a passar o primeiro ônibus que era uma jardineira de cor azul marinho. Aí, quando a Av. Servidão Pública foi asfaltada, começou a passar as lotações que iam até a Vila Santa Teresinha. Em 1968, foi inaugurada a primeira feira livre na Rua Guariroba com a Rua Pirajuba, que tinha barracas de cereais, bolachas, frutas, verduras, frios, sapatos, roupas, brinquedos, além das máquinas que moíam café na hora.

Em 1970, quando o Brasil conquistou o tricampeonato de futebol tinha tantos fogos, balões que enchiam o céu, as pessoas comemorando nas ruas. Lembro-me de um mecânico que pintou um Jipe, listrado de verde e amarelo, e desfilava pelas ruas comemorando a conquista da Copa. Mesmo com as ruas sem iluminação, as crianças brincavam alegres, mesmo a noite, como as pessoas vinham do trabalho com tranquilidade. Lembro-me do tiro ao Pombo (Clube), e também da Macedônia, que tinha um campo muito bom, onde os moleques da minha rua iam jogar contras, valendo Tubaínas e flâmulas. O nosso time chamava-se Estrela Dalva Futebol Clube, que tinha as cores preta e branca. Teve uma ocasião em que a margarina Delícia trocava 450 embalagens dos tabletes por uma bola de couro (capotão) e 250 tampas das latas por um jogo de camisa. Eu e meus amigos juntamos tudo e um vizinho levou em um posto de troca, lá na Galeria Prestes Maia, aí ficamos todos na expectativa até ele chegar. Quando chegou, trouxe uma bola de couro preto e branco e um jogo de camisa com as cores da Portuguesa, ou seja, verde e vermelho. Quando fomos estrear as camisas elas pareciam camisolas, devido o tamanho.

No bairro, passava o carvoeiro, o Seu José, um espanhol, o peixeiro que anunciava as suas vendas com um fone daqueles parecido com os dos gramofones, o amolador de facas com seu apito, os vendedores de quebra-queixo, os de “bijus”, que traziam nas costas um latão e tocava uma matraca, o sorveteiro e sua corneta de algodão-doce e pirulito, além do guarda noturno que andava a pé e, ao passar nas ruas de madrugada, dava um assovio com seu apito e iluminava os quintais com seu farolete.

Em 1971, comecei a trabalhar na feira, na banca do Seu Adélio, uma banca de frutas que fazia feira na Vila Penteado, Vila Bancaria, Vila Carolina, Freguesia do Ó, Itaberaba e Tiro ao Pombo. Eu, como todos os moleques da época, ia para a feira trabalhar em bancas ou fazer carretos para ajudar a mãe. Na banca do Seu Adélio, nós ajudávamos a montar, a fazer os pacotes de limões e a vender. Pegávamos uma caixa de uva e saíamos a vender os pacotes de limões no meio da feira. Por este trabalho, além da porcentagem pela venda de cada pacote de limão, levávamos para casa um caixote de tomate, cheio de frutas e verduras. Todos os dias quando vinha para casa, comprava na banca de cereais uma lata de Marrom-glacê para levar para meus irmãos.

No ano de 1972, mudamos para o bairro do Bom Retiro, pois meu Pai havia vendido a banca de roupas e arrumou um serviço de zelador. Retornei umas duas vezes à Vila Brasilândia e nunca mais voltei. Meu pai alugou nossa casa, que nos anos 80 acabou sendo vendida. Espero ter contribuído para manter vivas as ótimas lembranças que sempre tive da Vila Brasilândia.

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