Eu tinha apenas 15 anos nos idos de 50, e era magro igual um palito, daí o apelido que meu irmão dois anos mais velho batizou-me: “Cinco Quilo” (no singular mesmo), no seu grito jocoso olha o "Cinco Quilo" deixava-me enraivecido, mas nunca o entreguei ao nosso pai. Nos jogos de futebol, poupava-me de suas “botinadas”, pois sabia que eu não aguentaria o tranco. Pelo menos tinha um pouco de consciência, menos mal.
Alguém achou excelente ideia montar um time de verdade, um misto de infanto/juvenil e sugeriu um nome nada original: Vitória F.C., o autor da ideia, não lembro seu nome, juntou as moedas e comprou um jogo de camisas de segunda mão, rota, cor azul com uma faixa vermelha em diagonal. O calção branco cedido pelo meu irmão mais velho, mais parecia um balão inflável, prestes a levantar voo, tão mirrado que eu era. Mas enfim, pensei, vamos defender a honra da família, tinha algumas qualidades, era um lateral que corria muito, queria fazer gol, era do tipo “fominha”.
O campinho onde jogávamos, situava-se na várzea de um córrego afluente do Aricanduva, hoje Av. Trumain, na divisa entre Vila Formosa e Vila Carrão, tinha uma tira de gramado nas laterais do campo, o resto era um mato rasteiro. Quando chovia, formava um imenso lodaçal, a bola de “capotão”, coitadinha, sofria com os bicos que lhe davam.
Mas o Vitória F.C. era um armazém de pancadas, sendo transformado em Vitorinha, pois não ganhava uma, certa vez uma senhora sugeriu chamar os jogadores pelo nome, ao invés dos jocosos apelidos como é feito em tempos modernos, pois atualmente só falta chamar o "craque" de Doutor. Assim, temos Bruno Rodrigo, Willian José como exemplos, nomes que mais parecem de ator global, bem diferente dos apelidos "sui generis" do Vitorinha F.C., dos anos 50, cujo time "base" era: Irto Manga, Cinco quilo e Tartaruga, Fuminho, Orangotango, e Cabelinho. Enviesado, Caolho, João Bafo de Onça, Bimbo e Raspadinha. Cada apelido tinha um significado, marca de nascimento, tic nervoso, tipo físico ou mesmo certo comportamento do moleque.
Em uma ocasião, em uma partida contra um time de V. Manchester, nosso ponta enviesado que chutava só de “trivela”, hoje o chute é de curva, ou três dedos, acertou um ”tirombaço” na trave do adversário, que caiu pesadamente sobre o guardião, (a trave era de eucalipto e não tinha rede) daí aconteceu um grande sururu, foi gol, não foi, o tempo fechou, nosso centro avante o João Bafo de Onça distribuiu rabo de arraia para todo lado, mas eu não fiquei para contar o fim da história, “pernas para que te quero”…
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