Quando criança sempre quis ser professora, o tempo passou e o sonho ficou adormecido. Foi quando li um anúncio pedindo voluntários para alfabetizar adultos. Me inscrevi, fiz a entrevista e fui aceita. Fiz um curso rápido com técnica de pré-alfabetizar um adulto em apenas três meses. Escolhi segunda, quarta e sexta-feira das 19h às 21h (terça e quinta seria outro voluntário).
Era um colégio diurno no Sacomã, que emprestava suas classes à noite, para dar uma oportunidade de ler e escrever para quem nunca as teve. As turmas que completavam os três meses de aula ficavam semi ou quase alfabetizadas, e se quisessem tinha a segunda etapa com mais três meses de aulas para aperfeiçoar a escrita.
Tive alunos que me doía de ver o esforço penoso de sair tão cedo de casa, carregar apenas uma marmita para almoçar e a noite ir direto para a escola, fazendo uma caminhada tão longa de volta. Mas eles tinham uma grande esperança de melhorar de vida. Um dia um aluno de mais ou menos 50 anos me disse:
– “Fessôra” eu era cego e agora enxergo tudinho.
Como você se curou? Pergunto ingenuamente eu:
– Fez cirurgia nos olhos?
– Não “fessôra”, eu num lia nem a letra A agora saio na rua e enxergo tudinho, o nome das ruas, dos ônibus até as placas de ofertas do mercadinho! Foi só emoção!
A cada três meses, fazíamos uma festinha, para entregar um certificado simbólico aos alunos que terminavam a primeira etapa. Tínhamos que apresentar algo como poesia, música, dança, o que fosse mais fácil para eles. Lembrei que quando concluí o primário apresentei uma peça de teatrinho bem curtinha, mas muito engraçada e com conteúdo de incentivo para quem aprendeu a ler. Eles subiam no palco e recebiam aplausos dos parentes, esposas, filhos e netos que lá compareciam…
Nesta época, tive a ideia de fazer alguns sorteios entre eles para dar mais alegria ao evento. Consegui de um supermercado da região jogos de panelas, ferro de passar roupa, edredons, etc.. Ganhei para o sorteio até uma TV doada pelo escritório onde trabalhava. E assim fiz: ensaiei meus alunos e me diverti muito com eles. Chegou o grande dia, e foi um sucesso! A surpresa foi um aluno, já senhor de meia-idade, que participou da peça. Ao subir no palco para pegar seu certificado, disse bem alto e de bom tom: “Meu povo, agora além de saber ler e escrever, também sou artista de teatro. Palmas para mim!”
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