Lembranças de minha infância na Mooca – Outras lembranças

Um dia quando acordei de manhã não havia ninguém no meu quarto, desci as escadas e também não havia ninguém na parte inferior da casa; saí no portão e notei que muitas pessoas passavam comentando algo e viravam a esquina de casa. Abri o portão e acompanhei essas pessoas e quando chegamos à Rua Cuiabá havia uma multidão que tomava toda a rua. Um incêndio de grandes proporções tomava conta da fábrica de brinquedos "Bandeirantes" que havia ali. Logo fui localizado pela mamãe que ali se encontrava assistindo a tragédia. Foi emocionante, aqueles carros de bombeiros vermelhos, enormes com aqueles fortes jatos de água.<br><br>Um dia desses, brincávamos no campinho atrás de casa. Gostei muito de atirar uma tampa de lata que planava no ar e voltava quase que na minha mão. Repeti o movimento por várias vezes, até que a tampa não retornou, foi direto na janela da vizinha de um dos sobrados, quebrando a vidraça. Estávamos eu, o Newton e o Chico. Corremos, demos a volta e entramos em casa, fomos direto para o quartinho dos fundos (edícula) e a mamãe que estava no quarto na parte superior não nos viu. Em poucos minutos ouvimos a dona Wilma nossa vizinha bater palmas no portão. Ficamos quietos como se nada houvesse acontecido e ouvimos a mamãe falar:<br>- ”Vocês estão aí”, o que prontamente confirmamos. <br>Diante da evidencia a vizinha se desculpou e despediu-se. <br> <br>Tínhamos três cachorros: a Mimosa, a Branquinha e a Violeta. A mimosa e a branquinha eram de tamanho médio e muito peludas, seus pelos cobriam seus olhos. A mimosa era da cor branca e preto. A violeta era pequena, de pelo liso, pretinha e marrom. A mamãe sempre dava banho nos três e colocava a branquinha e a mimosa para secar no sol em cima do muro junto ao portão de entrada e a violeta ficava no chão. A mimosa não fazia jus ao nome, era nervosa e muito ranzinza, era só arrastar uma cadeira que ela rosnava e fazia o gesto de morder nossas pernas.<br><br>Certo dia após o banho, como sempre fazia, mamãe pediu que eu ficasse ali tomando conta deles em cima do muro e ordenou que eu não saísse na rua. Do outro lado da rua havia homens trabalhando, abriram aquelas valetas enormes para colocar os canos onde havia de passar o esgoto das casas. Fiquei no portão durante algum tempo apreciando o trabalho e a curiosidade aos poucos foi aumentando, até que não resistindo pensei; eu dou uma corridinha atravesso a rua, vejo o buraco e volto e a mamãe nem percebe.<br><br>Quase deu certo, fui, olhei o buraco e com pressa atravessei de volta correndo sem olhar. Apesar de naquela época ter pouquíssimos veículos, quase fui apanhado por uma Perua que descia do lado oposto, se não fosse a habilidade do motorista que freou rigorosamente arrastando os pneus por mais de dez metros, parando exatamente junto aos meus joelhos. <br><br>A Perua era linda, bege, toda com quadros de madeira envernizada. O motorista um senhor enorme, de meia idade, muito vermelho, cabelos loiros, devia ser descendente de alemão, me pegou no colo, me examinou e perguntando onde eu morava, chamou pela mamãe no portão. Tomei água com açúcar, recebi a visita de muitos vizinhos e tomei uma baita bronca da mamãe. Nunca vou me esquecer! <br> <br>Nossa casa estava em festa, era passagem de ano, a alegria era geral, o fala-fala e o barulho dos fogos tomavam conta do ambiente alegre. A violeta era uma cachorrinha boazinha. Nesse dia ela estava muito assustada com todo aquele barulho e em todo o momento ela se enfiava entre as pernas das pessoas. Para que ela não fosse pisoteada, a mamãe colocou-a no quintal e fechou a porta. No dia seguinte ela estava morta embaixo do tanque. Ela morreu de medo, foi um dia muito triste para todos.<br><br>Na nossa casa morávamos: o vovô Julio pai da minha mãe Solange, meu tio Ney que ainda era solteiro, minha tia Alayde irmã da minha mãe, meus pais e meus irmãos. Na parede da sala havia um relógio enorme com um pêndulo, era muito bonito. O vovô Julio tinha uma cadeira atrás da porta da sala, que tinha um eixo de ferro com rosca e molas que davam o balanço. <br><br>Lembro-me que ele ficava horas nesse local. No banheiro tinha um reservatório de água, de ferro, revestido de ágata, todo branco que lembra muito as banheiras de hidromassagens de hoje. Na hora do banho, a mamãe enchia com uns 50 centímetros de água, era muito bom, eu dava vários mergulhos, ela ficava com muita espuma de sabão. Na sala tinha uma televisão e toda tarde eu assistia lá pelas seis o programa Pullman Junior. <br><br>Esse programa reunia várias crianças como eu. Serviam bolo e refrigerante em volta de uma mesa e a apresentadora Cidinha Campos, que era um pouco mais velha e muito mais alta que todos, cantava músicas acompanhada pelas crianças, contava histórias, batiam palmas, passava desenhos animados. O programa era muito alegre, tinha também os palhaços torresmo e pururuca, e o Durval de Souza que auxiliava. <br><br>Não tenho certeza da idade da minha tia Alayde, ela era bem novinha, mas para nós parecia grande. Nós (eu e o Newton) a provocávamos muito, lembro-me que um dia ela fugiu de nós e trancou a porta da cozinha deixando-nos entre o quintalzinho e a edícula. Coitada, nós cuspimos na porta inteira de cima até embaixo, a porta ficou uma “cusparada” só, quando ela abriu, só ouvimos o grito: <br>-“Solaaaaaange!”, era o grito de socorro para nossa mãe.<br><br>Meu pai fazia as compras uma vez por mês e estocava tudo no armarinho que ficava no corredor entre a sala, o banheiro e a cozinha. Ele fumava um cigarro que se chamava "Pullman" não tinha filtro, era um maço vermelho e tinha a imagem de uma carrocinha branca. Quando não tinha ninguém olhando, a gente pegava um maço desse cigarro, íamos ao quartinho dos fundos, fechávamos a porta e nós, Newton, Wagner e Chico, acendíamos um cigarro cada e ficávamos soltando a fumaça e quando acabava um pegávamos outro, até acabar o maço. O quartinho ficava totalmente tomado pela fumaça. Ainda bem que o papai nunca descobriu!<br><br>Certa vez, era um sábado de manhã, meu tio Ney era ainda solteiro e não estava em casa. Ele tinha alguns amigos que moravam na Rua Cuiabá, em frente ao bebedouro dos cavalos. Um dos amigos, o que me lembro se chamava Paschoal, bateu lá em casa e pediu emprestado o jogo de malhas de ferro do Ney, que eles sempre se reuniam para jogar. Quando meu tio chegou e lhe comunicamos que emprestamos as malhas, ele ficou furioso e fez nós dois, eu e o Newton, irmos lá buscá-las. Os amigos estavam jogando e ficaram decepcionados, mas devolveram! Elas eram muito pesadas para nós e no trajeto até em casa caíram várias vezes no chão.<br><br>Meu tio Ney era exigente mais muito legal. Ele trabalhava de caixa na Duchen e todo fim de ano ele trazia maços de cem notas de um cruzeiro cada, às vezes de dois, notas novinhas sem nunca terem sido utilizadas, lacradas, com cheiro de tinta, e nos presenteava com um maço para cada: Newton; Wagner e Célia. Eu amava aquele gesto! Ficávamos quase que o ano todo sem gastá-las, eram lindas.<br><br>Todos os sábados à noite os meus tios Paulo e Flavio, irmãos da minha mãe, se reuniam com suas esposas e filhos na nossa casa e virava uma baita festa. Eles possuíam um carro preto cada um, que se chamava "Austin". Quando a Alayde se casou com meu tio Agnelo também passaram a se reunirem conosco, foi uma época muito boa. Meu tio Agnelo gostava muito de brincar comigo e meu irmão, ele pedia para ficar com o corpo duro, segurava pouco acima dos tornozelos e me levantava na altura do teto da casa, era assustador, mas muito bom, eu gostava! Ele fazia isso também com o Newton.<br><br>Um pouco acima da nossa casa, do outro lado da rua tinha o açougue do seu Manoel, ele era meio gordo. O açougue tinha duas portas de ferro muito altas. Eu ia sempre com a mamãe comprar fígado de boi, meu pai gostava de comer acebolado.<br><br>Lembro-me que um dia fui com a mamãe na Rua da Mooca. Descemos a Rua do Oratório, atravessamos a Avenida Paes de Barros e paramos na calçada do meio que dividia as duas pistas e ficamos esperando o farol abrir. Quando o farol abriu, uma senhora com seu filho, um menino de uns dez anos, atravessaram antes de nós e ela foi apanhada por um carro preto que não obedeceu ao farol. Ela caiu no chão, o carro deu uma paradinha, o menino correu lá e socou várias vezes a traseira do carro gritando:<br>-“Você matou minha mãe!“<br>Em seguida o carro arrancou e foi embora, a senhora foi acudida pelas pessoas e não morreu, dizia que doía muito a sua perna. O menino ficou chorando ao lado da mãe e nós, eu e a mamãe, fomos embora. <br> <br>Certo dia eu, o meu irmão e o Chico brincávamos no pequeno jardim que ficava na frente da nossa casa, quando o Chico me empurrou com força e eu caí com as costas em cima de um limpador de sapatos. Esse limpador era de ferro e tinha uma lâmina cega de ferro a uns 15 centímetros de altura do chão e servia para limpar o barro da sola dos sapatos. Lembro-me que doeu muito, perdi o fôlego e fui logo acudido pelos meus pais. A dor nas costas durou vários dias.<br><br>Continua…<br><br><br>E-mail: [email protected]