Há poucos meses fui convidado a dar uma palestra sobre literatura africana e sua influência na moderna literatura das Américas, em Moji das Cruzes. À saída do centro cultural, uma das assistentes veio parabenizar-me e indagou-me sobre minha ascendência. Disse-me então que seu pai é "palestino de antes de 48" – trata-se da designação pela qual os árabes israelenses, isto é, israelenses descendentes de árabes que já estavam na parte do protetorado britânico da Palestina, que daria origem ao Moderno Estado de Israel por votação da Liga das Nações em 48, preferem ser denominados. Como a esmagadora maioria dos árabes do Brasil é formada por sírios e libaneses, e só recentemente palestinos refugiados após a Guerra de 67, fiquei curioso por conhecer a trajetória de seu pai: um palestino de antes de 48, no Brasil? Era para mim inaudito.
Levou-me à sua casa e seu pai contou-me sua história. Ele e a família moravam em uma minúscula vila chamada Kufar Rumaneh, atualmente um bairro de Ashkelon, Israel, chamado Kfar Rimon. Seu pai, o avô da minha jovem assistente, era caixeiro viajante e fazia trajetos comerciais: Amã, Beirute, Damasco, Homs, Jerusalém e Cairo, nas cidades sírias e libanesas; ouvia maravilhas sobre a “Amiryka” – América. O jovem Daud se encantou com os relatos de humildes camponeses que prosperavam em "Buynos Aires" (Buenos Aires), "San Baulo" (São Paulo) e "Muntefidyo" (Montevidéu).
O pai escreveu aos parentes de seus clientes libaneses e, após uma batalha de documentos, juntar centavo por centavo, Daud realizou seu sonho e veio ao Brasil. Ao chegar a Santos, a família inteira dos fregueses do pai veio recepcioná-lo e o trouxeram a “San Baulo”. Alojaram-no no melhor quarto da casa e, em poucas semanas, a San Baulo já era sua, tanto que passou a ser “Sáo Paulo” – as nasais sempre representam problema para não lusófonos. Dois anos depois, Daud se deu conta de que era gerente, balconista, relações públicas, estoquista e faxineiro da loja à Rua Oriente. No entanto, seu salário era apenas o de balconista e brigou com a família dos patrões. "- Não sabia o que fazer: minhas economias não eram suficientes para ir para Buenos Aires ou Montevidéu. Não dava para voltar: meu passaporte britânico caducou e não era mais válido para entrar em Israel. Se abrisse uma loja em São Paulo, ninguém ia frequentar: àquelas alturas, metade da colônia árabe já estava dizendo que eu era um ingrato. Peguei tudo o que tinha e fui para Moji das Cruzes, na época uma cidadezinha pequena e sem bares. Abri um, contratei uma cozinheira negra (agora já sei por que a filha se interessa por literatura africana), linda de morrer; seis meses depois nos casamos. Às vezes eu morro de vontade de ir para São Paulo (as nasais já não são problema para ele) procurar os filhos ou netos do meu patrão, me apresentar e pedir desculpas".
Pedir desculpas? Indaguei sem entender o porquê. "- Sim, porque naquela época só as grandes lojas como o Mappin Movie Store tinha uma pessoa para cada coisa. Quase todo mundo era faxineiro, balconista, gerente e relações públicas ao mesmo tempo e só ganhava como balconista, como eu. Briguei com eles sem motivo. Não eram meus parentes, nem fregueses do meu pai: eram parentes de fregueses. Receberam-me como um filho; até quiseram me apresentar para moças da colônia, como fizeram com o filho deles. Mas, minha esposa é mojiense, meus filhos também. Não dá. Mas que o senhor (eu, que relato sua história aqui) mora na melhor cidade de São Paulo, mora". Concordo com ele. Será que os descendentes dos patrões dele sabem quem ele é?
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