Desde criança, nos anos 50 para 60, quando tínhamos em nosso quintal plantações e criações de pequenas aves e animais, nunca me esqueço de certos vegetais que consumíamos, alguns nunca mais encontrei e que meu pai plantava ou até comprava nas chácaras vizinhas. Lembro-me de muitas verduras, frutas, legumes e ervas que há muitos anos não encontro mais, é claro que também nunca saí à procura com ênfase, mas reparo nos mercados e feiras livres e não vejo.
Esse tema veio a minha mente fazendo caminhada no Projeto C.E.U., no Jardim Casa Blanca, bairro de Vila das Belezas, Zona Sul, onde vejo diariamente duas grandes hortas, cerca de 200m² cada, bem cuidadas, onde duas senhoras cuidam cada uma de uma horta, que por curiosidade ali foi uma grande chácara nos anos 1940 até 1960.
Depois de quase um ano fazendo caminhada, diga-se de passagem, é um local muito agradável e também deve ser um dos maiores projetos desse ramo em área verde e pista para caminhada entre árvores, que lembram uma fração mínima da Mata Atlântica, com trajeto de diversas dificuldades de percurso como subida, escadaria, retas e curvas.
Logo cedo, por volta das 6h, antes de trabalhar, saio de casa para ir a esse local, distante de minha casa uns 500m, e sempre reparo nessas senhoras cuidando da horta; outro dia resolvi parar para conversar com elas e perguntar quais hortaliças elas plantavam além daquelas visíveis pela cerca como: chuchu, mamão, couve, enquanto descansava um pouco da caminhada. Fui convidado a entrar no cercado de alambrado e a visão foi maravilhosa, quantas variedades de folhas e legumes ali encontrei. Lembrei de uma fase de minha infância: eu frequentava muito uma chácara que tinha muitas variedades de frutas, verduras e legumes, além daquelas que meus pais plantavam no fundo do quintal, e fui lembrando, por isso queria saber se ali existiam esses itens.
Recordei que comia um legume chamado cará, vi no supermercado esse legume, mas não era o mesmo que conhecia na minha infância e vim saber depois de pesquisar que aquele cará que conhecia era o cará-moela, por parecer com a moela de frango. Nascia verde e depois de maduro ficava meio marrom, roxo, e dá em ramas, parecido com rama de maracujá, e o que eu via no mercado era o cará tipo raiz, como se fosse uma mandioca, parecido com o inhame, que são tubérculos. Também notei um certo tipo de vagem chata, em forma de meia-lua, muito rara nos mercados, nunca mais também comi, mas a senhora da horta já me prometeu um pouco, fiquei sabendo que era ervilha torta e não vagem ou será vagem também?
Meu pai semeava um almeirão japonês de folha verde clara, fina e longa, seu caule é roxo, e pouco amargo, nunca mais encontrei e nessa horta do C.E.U. eu vi. Há um outro cereal que lembro: o feijão guandu, um feijão pequeno e menos durável que os outros, onde meu pai plantava ao lado da cerca, também é raro encontrá-lo. Em termos de fruta tinha a pitanga e uvaia, araçá, amora, que nunca mais apreciei, pois não se trata de fruta comercial por sua fragilidade, porém muito gostosas; além disso, tínhamos também o limão rosa, muito suculento, muito difícil de achar, vejo às vezes em algumas casas antigas de quintais grandes e às vezes vejo em feiras livre do bairro.
Nem vou considerar as gabirobas, pretinhas, caninhas, araçá, que eram frutinhas do mato, nada comercial, e com a urbanização dos bairros elas desapareçam, são encontradas nas reservas florestais somente. Hoje em dia, com o avanço da tecnologia de alimentos, com a modificação genética das plantas, parece que foram escolhidas espécies mais rentáveis e duradouras. Outras frutas e legumes melhoraram sua genética, assim como o feijão carioquinha, o nosso milho, arroz, entre muitos que foram totalmente modificadas em laboratório para melhorar a qualidade e alta produção.
Não pude esquecer-me das ervas medicinais, "milagrosas", que nossas mães plantavam e usavam ou ainda eram indicadas pelas vizinhas para a cura de certos males. O uso dessas ervas era por crenças ou tradição, ou ainda por falta de posto de saúde próximo de nossas casas. Tínhamos, no quintal, o boldo para dor de estômago, losna, horrível e usado para gastrite ou coisa semelhante, além do capim-santo, erva cidreira, a babosa, cânfora e que hoje são raras, mas encontradas em casas do ramo de fitoterapia, e cada vez mais objeto de pesquisa devido a sua comprovação de bons resultados para a saúde.
Como herdeiro de alguns hábitos de meu pai, ainda conservo em um canto do jardim de casa um pouco de hortelã, salsa, cebolinha, coentro e manjericão, apesar de encontrar esses itens com facilidade no comércio, mas faço como terapia e para lembrar de um passado não tão distante.
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