Corria solto o início da década de 60, iniciava-se o ano letivo no Colégio Estadual Antônio Firmino de Proença. Os primeiros dias do curso noturno eram fascinantes, os já alunos do colégio procuravam rostos conhecidos entre as caras novas recém chegadas. Verdade seja dita, o que fazíamos era garimpar entre as alunas que arribavam, as mais lindas, tarefa difícil, tal era o abastamento de novos rostinhos a chilrear, alegres, pelos corredores.
A Mooca era um excepcional bairro de formosuras, obra da mais bela miscigenação entre espanhóis, italianos, portugueses, árabes, judeus, lituanos, alemães armênios, etc.; de todos os matizes e que permitira abrolhar um jardim onde afloravam as mais esplêndidas flores transmutadas em simples meninas. Em um repente privilegiado, logo no primeiro dia de aula, eis que meu olhar, em um relance pela janela, avisto em um corredor contíguo um vulto formoso, uma verdadeira ninfa, e eu que apreciava as belezas recém chegadas, sem maiores razões do que contemplar o belo, senti-me motivado de imediato por uma angustiante curiosidade, contundente, veloz, sem saber como relatar, pois com certeza tal ocorria pela primeira vez, e que se vertia em uma sensação de que alguém muito especial acabava de ser avistada.
Miragem! Sonho! Devaneio! Quimera! Sei lá como definir, mas a tarefa a que me propunha era, de já no próximo intervalo de aulas, descobrir onde encontrar aquela musa. As aulas se arrastavam, teimando em retardar o intervalo, mas finalmente o badalo do sino anunciou prazerosamente a trégua. A angústia da demora fez-me quase voar pelos corredores, desabar escada abaixo e alcançar esbaforido o pátio. Esquadrinhei com os olhos a procura de um semblante conhecido e, pulcro, topei o nada, campeei cada canto, descobri um vazio. Oh, decepção! Não me deparei com quem buscava.
No dia subsequente, ansioso, não via a hora de chegar ao colégio. Um misto de decepção e surpresa, pois a vi conversando com um colega da minha sala. Antes da entrada e mais ainda durante o intervalo do recreio. Ela tinha um sorriso cativante, invejava eu a boa sorte de meu colega em já a ter como amiga ou quiçá namorada, achei ter chegado tarde. Rolavam os dias sem que nada se alterasse, um par de semanas já estava a completar e apesar de vê-la sempre com o meu colega de classe eu continuava discretamente a admirá-la. Na falta de experiência cri que aquilo poderia se chamar de paixão! Afinal, nos anos 60 a descrição e respeito eram parte do comportamento natural. Almejava para que este estranho anseio fosse superado, ou talvez mesmo esquecido. Mas, nada arrefecia este primeiro sentimento de bem querer.
Certo dia, ao chegar ao colégio, cruzamos na entrada e o meu colega, para meu gáudio, me apresentou Maria L…., sua irmã. Exultei! E surrupiando um verso da linda poesia musical de Lamartine Babo: “Vitórias de amor cantei!”. Quiçá estivesse novamente no pátio para uma conquista especial. A pele parecia árdua, pois já notara não ser o único a perceber alguém tão especial a desfilar pelos corredores da escola. Aproximei-me na medida em que minha timidez permitiu. Agradável, porém discreta, amizade se estabeleceu. Por muitas vezes foi infrutífera a tentativa de demonstrar sentimentos. O acanhamento mantinha em um platonismo perene os anseios. Meses se passaram e dia a dia a via, às vezes conversávamos, ir para o colégio tornara-se um verdadeiro prazer. Sua imagem me encantava, esvaiu-se o ano letivo, findou mais um ano, férias que sempre foram sinônimos de alegria foram interminavelmente longas.
Volvemos para novo ano letivo, as noites me eram alegres, e para serem felizes faltava vê-la como namorada. Na segunda metade do ano, certo dia, o irmão dela me informou sobre um daqueles fantásticos bailes da época e perguntou se eu desejava ir, pois todos iriam inclusive sua irmã. Claro que aceitei animado. Eis a oportunidade que carecia, esperava vencer os outros que a admiravam, e de algum modo conquistá-la. Dias antes já buscava novamente os versos do poeta
Lamartine e, à noite, ensimesmado, cantarolava em pensamento na ansiedade:
“Eu sonhei que tu estavas tão linda
Numa festa de raro esplendor
Teu vestido de baile lembro ainda
Era branco, todo branco, meu amor
Olhavas só para mim
Vitória de amor cantei”
Chegou finalmente o grande dia. Conforme a etiqueta de então, fui ao baile de smoking, com um lencinho de seda no bolso da lapela e que delicadamente na hora da dança servia para evitar o contato do suor das mãos entre os pares. O grupo de conhecidos, composto de alguns rapazes e meninas do colégio, permitiu-me sentir que outros olhavam Maria L… com um olhar especial. Não desisti devido à quantidade de colegas, dancei com ela um pouco, mas sem me intimidar.
“A orquestra tocou umas valsas dolentes,
Tomei-te aos braços, fomos dançando, ambos silentes
E os pares que rodeavam entre nós,
Diziam coisas, trocavam juras a meia voz…”
A noite se esvaneceu rápida demais. Retornando a casa, acalentando sonhos, acreditei que aquele sentimento que talvez fosse uma paixão e que estava maduro para se transformar em amor…
“Violinos enchiam o ar de emoções
E de desejos uma centena de corações…
P'ra despertar teu ciúme, tentei flertar alguém,
Mas tu não flertaste ninguém!…”
Passou-se o tempo e, apesar da inconteste simpatia talvez da primeira paixão, os caminhos da vida nos ditaram rumos diversos.
“Mas foi tudo um sonho… acordei!…”
Versos de Lamartine Babo, de 1942. Música: “Eu sonhei que tu estavas tão linda”.
E-mail: [email protected]