Ano 1958, eu ia fazer 10 anos de idade, mas lembro-me muito bem da Copa do Mundo de futebol na Suécia, o Brasil não tinha ainda conseguido ser campeão do mundo, o que deixava os brasileiros muito frustrados, pois países de populações menores já haviam conquistado o maior título do futebol. A nossa grande oportunidade aconteceu em 1950 em uma Copa realizada no Brasil, que inclusive mostrou ser o melhor time do mundo e acabou perdendo para o Uruguai em pleno Maracanã, eu até achei que em 1978 iria acontecer o mesmo com Argentina se não tivessem a ajuda do futebol peruano.
O Brasil entrou para o primeiro jogo com Gilmar, de Sordi, Beline, Orlando Nilton Santos e Dino, Joel, Didi, Vavá, Dida e Zagalo, na continuidade entraram Garrincha no lugar de Joel, Djalma Santos no lugar de Desordi e Pelé, um garoto de 17 anos, no lugar de Dida. Na época, não tínhamos TV, então o jogo só era transmitido pela rádio e devido às dificuldades financeiras em uma população, acredito eu, de 80 milhões brasileiros (dei um “chute”). Vocês veem que hoje as pessoas acham difícil ter um automóvel, mas, em 1958, as pessoas não conseguiam ter um rádio (olha a diferença de vida e de tecnologia). Eu por exemplo. Minha família não tinha um rádio, meu pai já era falecido e a nossa vida era muito difícil, não conseguíamos nem ter um rádio. Então, eu tinha uma família vizinha que me chamava para ouvir o jogo pelo rádio, pois sabiam que eu adorava futebol.
O campeonato prosseguia, o Brasil estava vencendo a Rússia, um dos piores adversários, aí passou pelo País de Gales, que seria a Inglaterra. O rádio tinha um barulho grande e muitas vezes fugia a voz do narrador. Tínhamos, na época, dois deles que eu adorava ouvir: Edson Leite e Pedro Luiz. O Edson Leite era mais devagar, como Fiori Gigliote, e Pedro Luiz seria mais agressivo na narração. Chegamos à final: Brasil e Suécia. A Suécia, por estar em seu país, achava que teria maior chance de ser campeã, começou o jogo e tomamos um gol. Suécia 1×0, mas, dizem que o jogador Didi foi buscar a bola dentro do gol do Brasil, levou esta até o meio de campo e deu a saída para o jovem Garrincha que, com seus dribles, levou a bola até a linha de fundo e cruzou para Vavá empatar. O Brasil deu um passeio, chegou a 4×1, aí sofreu outro gol, 4×2, e Pelé fez o último gol do jogo: Brasil 5×2 Suécia.
Brasil campeão do mundo pela primeira vez. Foi uma festa terrível, abraços, choros, pagamentos de macumbas, as esquinas ficaram cheias de oferendas, faziam essas entregas espirituais à noite, pois era proibido, na ocasião, esse tipo de ritual. Lembro-me que o céu ficou coberto de pipas, você não sabia em qual correr atrás para pegar, pois caiam mais de cem pipas ao mesmo tempo, quando os jogadores campeões do mundo voltaram da Suécia fizeram uma passeata no Anhangabaú e eu fui assistir, eles desfilaram em caminhões abertos pelo centro de São Paulo lotado de pessoas. Lembro-me também dos aviões que levaram e trouxeram os jogadores brasileiros, nem sei como aquilo conseguia voar, mas, engraçado que caiam menos do que os aviões atuais, não sei por quê. Mas, jamais esqueci o ano de 1958, ficou marcado em minha vida.
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