Tínhamos vindo da idade de Carlópolis no Paraná para São Paulo, até hoje fico pensando porque meus pais fizeram isto, viemos só para sofrer porque ninguém ficou rico, ninguém estudou, nem se formou. Morávamos na Rua Caçador, na Vila Paiva, eu estava já com oito anos e meu irmão José com sete, João com seis e a mais velha a Carmelinda com quase dez anos.
Morávamos em um cortiço, era uma casa que ficava em um terreno bem alto da rua, tinha uma escada que devia ter uns 30 degraus, coitada de mim quando chovia, como eu não tinha chinelos de borracha e o que eu usava nos pés era meu pai que fazia com sobras de um plástico preto e era muito escorregadio, não podia descer pela escada se não eu caia por causa do piso molhado, ao lado da escada tinha um barranco e era lá que eu cortava o caminho para chegar á rua.
As casas ao lado eram todas casas boas, ao lado da minha morava uma senhora com o marido dela, chamava Augusta e usava tamancos de madeira, os tamancos do meu sonho, até hoje não sei onde vendem aqueles antigos, cheguei a ver alguns rachados no meio, se um dia eu ver em algum lugar quero comprar.
A nossa situação era difícil, me lembro que estudava no Grupo Escolar Toledo Barbosa que ficava na Rua Maria Cândida, no período diurno era este nome, a noite se chamava Ginásio Estadual Jaime Cortesão.
Minha irmã era muito arteira e vivia arrumando confusão e eu que era muito quieta tinha medo dela. Muitas vezes saiamos para ir à escola, mas no caminho ela me pegava pelo braço e dizia que não era para ir não, porque ela não queria ir e se ela não entrasse na escola me obrigava a ficar com ela, lembro que na Rua Maria Cândida tinha uma igreja católica e eu ficava lá até a hora de ir embora, até que um dia, uma pessoa conversou comigo na igreja e eu falei porque estava lá e meus pais foram avisados, apanhamos até. Lembro que tinha uma professora que se chamava Eglantina, era muito boazinha comigo.
Um dia depois do domingo de páscoa, a gente nem sabia que tinha este dia, porque naquela época pobre era pobre mesmo, acho que quando éramos criança nunca tomei Coca-Cola, lembro que quando compravam maçã, cortavam a maçã e repartiam um pedaço para cada um.
Cheguei à escola e uma menina da minha classe que sentava perto de mim me estendeu um embrulho e disse que era para mim, quando abri para minha surpresa era um pedaço grande de chocolate, achei que ela estava dando o doce para a pessoa errada, mas ela falou que tinha se lembrado de mim e resolveu trazer aquela parte para mim, era como se eu tivesse ganhado um tesouro, uma coisa do outro mundo de tanta felicidade.
Mas meus pais não tinham culpa de tudo ser tão difícil. Eu muito criança gostava tanto dos meus irmãos que se visse algum deles chorar também chorava, lembro que um dia minha irmã fez arte e meu pai estava bravo e ela se escondeu dentro de um caixote, meu pai já tinha visto ela lá dentro e perguntava para mim se eu sabia onde ela estava e eu ficava em pé em frente ao caixote para tampar e dizia que não. Falava que quando ela aparecesse era para ele não ficar bravo com ela, ele só dizia porque era muito amoroso, quando mandei ela sair meu pai brincando falou que ela ia dormir lá fora e eu falei que ia dormir com ela, dai ele sorriu e falou que estava brincando. Não tínhamos televisão, muitas vezes íamos assistir na casa de um farmacêutico que morava na mesma rua, o Sr. Antonio, usava um terno marrom e chapéu da mesma cor e sempre tinha uma maleta na mão que carregava os remédios, era muito bonzinho com a gente.
Quando começava a escurecer, a gente costumava brincar de correr e se esconder de um gorila, o gorila sempre era o meu irmão, ele corria atrás de nós e fingia que era um macaco e nós tínhamos que correr e se esconder dele, era muito bom até nossos pais nos chamar para tomar banho e dormir, quando convidávamos alguém para brincar nós chamávamos esta brincadeira de Gurilândia (vamos brincar de Gurilândia era assim que a gente falava).
Muitas vezes meu pai e minha mãe diziam que ia fazer uma coisa bem gostosa para a gente comer e nós já sabíamos que era o molhinho de cachorro-quente, meu pai também gostava de fazer pão para a gente, ele não sabia, mas do jeito que saia para nós estava bom.
Nesta época ele já trabalhava na Metalúrgica Estampotec, na Rua Maria Cândida, não ganhava muito, resolveu fazer um cone com uma lata de óleo e começou a fazer biju para vender na rua, ficava igual a casquinha de sorvete, nós adorávamos quando ele voltava e sobrava alguma ou os farelos, era uma delícia.
Dali, mudamos para a Rua Laureanos, onde eu participava aos domingos com o meu pai, que gostava de números de magia, em um Salão perto de casa e assim continuamos nossa humilde vida em São Paulo. Neste quintal onde fomos morar, tinha uma pequena fábrica de chinelos de borracha e com as sobras meu pai recortava e fazia tapetes de borracha para banheiro e vendia para ajudar em casa.
E assim fomos crescendo no meio de simplicidade e humildade, mas com muito amor e dedicação dos meus pais, meus irmãos são Carmelinda- José – João – Jacob – Gilberto e eu Iolanda.
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