Bingo, bocha e bilhar

"BBB" (o terceiro "B" reclamou porque sinuca não começa com "B", bilhar sim, então, vamos fazer a vontade dele).

Em uma das noites em que retornamos para casa, gelada como estes dias que enfrentamos agora, 1h30 da madrugada, depois de umas horas passadas no bingo (sem aquela sorte do bingo da Augusta) da Aratãs e na sinuca (bilhar) da Nhambiquara, seguimos tranquilos pela Marginal Pinheiros, em direção a nossa casa. As esposas jogaram bingo, cada uma com seu quinhão de despesa ou de ganho e nós, os "quatro cavaleiros do Apocalipse" (assim denominamo-nos), desopilamos o fígado e refrescamos a cuca no salão de sinuca (rimou!).

Àquela hora a Marginal tem o trânsito dos sonhos na pista expressa, além de nós, mais três ou quatro veículos seguiam na mesma direção (força de expressão). Quando nos aproximamos do shopping Vila Lobos, deixamos a pista expressa para seguir pela pista local. No exato momento em que deixávamos uma para entrar na outra ouve-se um estrondo debaixo do carro, como se tivesse soltado alguma peça de grosso calibre. Fez o carro balançar, tive que parar no acostamento como se uma roda puxasse violentamente para a direita.

O pneu não havia furado, ele estava estraçalhado, rasgado, como se alguém tivesse usado uma foice e, em um golpe certeiro, rasgado sua "barriga" em um piscar de olhos. Com o reduzidíssimo movimento de trânsito naquele momento e naquela hora, não me foi muito dificultoso encostar o carro, devagar e com muito cuidado. Saímos do carro, eu e a Myrtes, assustados, tremia, não sabia se era o frio ou o medo de ter que parar naquele lugar.

Quem conhece bem aquele trecho sabe que, mesmo durante o dia, lá ninguém para, não tem o que ver, nada que justifique uma parada, além de ser proibida, uma cerca de arame farpado que separa a estreita calçada da reserva da borda do Parque Vila Lobos de um lado e da pista carroçável do outro. Fui verificar a causa de tamanho estrago e descobri, no local, um pedaço de ferro ou aço, de mais ou menos 40cm de comprimento por 10cm de largura e 5 milímetros de espessura, bem pesado. Um pedaço de mola de caminhão, não tem dúvida, disse a minha mulher. Logo, uma suspeita saltou a nós dois: não teria sido proposital esse pedaço de ferro naquele lugar?

"Eu te falei, Mô, vamos embora mais cedo, quando deu meia-noite”, “chega, vocês parecem crianças, será que nunca mais vão jogar sinuca?" – começou a Myrtes, "bem, agora não adianta chorar o leite derramado, temos que sair daqui o mais rápido possível…”. Pedi a ela que entrasse no carro enquanto eu desatarraxasse as "porcas" (na época, ainda tinha condições físicas de trocar um pneu, não tinha feito ainda a cirurgia do joelho), preveni de que se alguém parasse, sairíamos correndo, mesmo com o que restava do pneu, o Ceagesp estava a poucos quilômetros dali. Nem bem dei esse recado, um Sedam parou direto atrás do nosso, um Gol. Segurei com força a chave de rodas, gritei para Myrtes:

“- Dê a partida e vá embora!"
“-… e deixar você sozinho? De jeito nenhum…”

Encarei quem saia do carro, rezando para que aparecesse uma viatura da polícia ou um outro carro qualquer. Nada! Do carro, saiu um casal de estatura mediana, aparentando maturidade. Ela de beleza agradável, ele todo preocupado, esportivamente trajado, vendo logo que tinham nos assustado, imediatamente falou: "Estou vendo que o senhor teve um azar danado de ter que trocar a roda justo aqui, um lugar perigosíssimo… o que tem de assalto não está no gibi, troquei ideias com minha esposa e resolvemos te ajudar". Agradeci muito e se ele ficasse olhando trânsito enquanto eu tirasse a roda… "Não, respondeu ele, o senhor fique de lado enquanto eu troco as rodas, não vou embora e deixá-los sozinhos aqui. De jeito nenhum, senão, como posso ir para casa com isso na cabeça?"

Bendito seja Deus que mandou este casal. Feito o serviço, quis lhe pagar, sentiu-se quase ofendido, me falou que eu lhe havia dado uma oportunidade de prestar uma gentileza da qual nunca iriam, ele e a esposa, esquecer. Esperou entrarmos no carro (a Myrtes havia saído) e, quase em lágrimas, nos despedimos. Nem seus nomes tive a lembrança de saber. Saíram atrás de nós, acenando as mãos para nunca mais nos vermos. Uma pena. Noite de bingo, bilhar e bocha, ganhamos nos três eventos, com uma sorte maior do que a bingada de $5.000,00 da Rua Augusta, nunca vou esquecer um casal tão simpático, bondoso e humano. Prova cabal de que sempre devemos confiar na humanidade. Está tão difícil, mas não impossível. Eis a prova. Onde estiverem, meus irmãos, meus efusivos agradecimentos. Modesto e Myrtes.

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