Amiúde ocorrem coincidências, ou, para contentar meus colegas junguianos, sincronicidades, que nos trazem memórias que merecem ser narradas para que façam parte deste cabedal que é a Memória com M. Estava recentemente tirando fotos às imediações das Ruas Apeninos, do Paraíso e Nilo, quando, passando pela porta da Igreja Presbiteriana Coreana, encontrei-me com uma amiga que não via desde os idos da faculdade. Saía de um culto de homenagem a um senhor, chamado Jeong Mark. Por razões que só o inconsciente, muito mais amplo do que nossa parca consciência, poderia "saber", o nome não me saiu da cabeça por semanas, até que subitamente ocorreu-me uma diáfana memória de uma história que li em uma tese de doutorado sobre imigração coreana. Corri ao Caph da Fflchusp para relê-la. Tratava-se do relato do senhor Jun Maru.<br><br>Após a assinatura do Tratado de Shimonoseki, entre Japão e China, ao termo da contenda entre as duas nações extremo-orientais, em 1895, a península coreana passava ao domínio japonês, como protetorado do Dai Nippon (grande Japão). As duras condições impostas aos coreanos fizeram com que centenas de nacionalistas se organizassem em grupos que tentavam, na medida de suas exíguas forças, minar o poderio nipônico em Coréia. Alguns saíam de noite e pichavam um pequeno "tenten" (traço ideogramático em diagonal) à direita do ideograma de "Dai" (grande) em todas as repartições públicas e organismos do governo imperial japonês em solo coreano. A letra então alterava seu significado para "cão" passando a indicar não mais "Grande Japão" porém "Japão Cachorro". <br><br>Parece-me desnecessário dizer que os "inu no sendô-sha" (agitadores cães), como as autoridades japonesas os chamavam, eram sumariamente presos e, na maioria, executados. Após pichar "cachorro Japão" à porta de um cartório, foi preso um senhor chamado Jeong Mark. Com ajuda de amigos, subornou um dos guardas, que o deixou fugir. "Niponizando" – isto era não só permitido, mas inclusive incentivado pelo governo japonês como forma de arrochar a cultura coreana – o nome para Jun Maru, emigrou a uma terra conhecida então como "Yumi no Kuni" (terra da esperança), ou Burajiru (Brasil).<br> <br>Na travessia, todos os emigrantes japoneses motejavam de seu sobrenome, pois Maru (fortaleza) é nome comum para navios japoneses. Mal sabiam eles que era nome falso. Após trabalhar por dez anos na lavoura cafeeira em Ribeirão Preto, saldou sua dívida e, tendo acumulado uma pequena pecúnia vendendo macarrão de amido de batata doce (que plantava em sua pequena horta) de sabor muito próximo ao macarrão de Konhaku japonês, veio a São Paulo. "Recoreanizou" seu nome para Jeong Mark e abriu a primeira alfaiataria do bairro da Aclimação. Dedicou-se a vida inteira à poesia, que escrevia em coreano.<br> <br>Casou-se com uma brasileira e teve dois filhos. Sua filha, cujo nome omito para preservar-lhe o anonimato, foi minha colega: a que saía da Igreja Coreana. Jamais me esquecerei do título de uma de suas poesias que a filha (minha amiga) me traduziu: De Maru do Sol Poente a Mark no Sol Nascente. Deve estar declamando seus belos versos lá no TenGoku (Paraíso em japonês) ou sei lá como se fala em coreano. Ficará feliz quando se abrir a cátedra de língua e literatura coreanas à Fflchusp nos próximos anos. Se já estiver aposentado, como pretendo, talvez a curse.<br><br><br>E-mail: [email protected]