O cinema é a arte que nos leva às fantasias e aventuras. A possibilidade de recriar momentos históricos de qualquer data, dando-lhe animação, frescor e dinamismo eram coisas incríveis que os filmes acabaram trazendo aos espectadores. Fui tocado profundamente por esse tipo de arte na primeira sessão de cinema a céu aberto em uma pracinha em minha infância. Porém, o cinema era algo meio distante em termos de aplicação prática principalmente para as classes mais humildes.
Mas, com relação à fotografia, prima-irmã do cinema, era bem mais fácil o seu manuseio. Na época de meu nascimento, em 1949, meu pai estava muito interessado por fotografia. Aprendeu todo o processo da revelação em preto e branco em casa. Suas fotos saiam de câmeras do tipo caixote da “Agfa”, que eram populares. Chegava em casa e corria para revelar seus negativos que, depois de devidamente processados, poderiam gerar cópias fotográficas. Sei que ele se divertiu um bocado tirando fotos de seu filho recém nascido…
Próximo ao meu aniversário de 8 anos, ele já desfilava com uma “Rolei Flex” que era muito bem guardada aos olhos de qualquer ser humano curioso. Festas e aniversários eram sempre registradas. As viagens também foram devidamente clicadas por ele. Pelo canto dos olhos, acompanhava para aprender o modo como ele manejava sua câmera. Ficava a espreita para saber como era o processo para tirar fotos. Em forma de capítulos fui fazendo o meu aprendizado sem que ele percebesse.
O difícil era saber o esconderijo onde guardava.
Quem espera sempre alcança… Tarda mas não falha. Enfim o dia chegou. Na noite anterior, meu pai havia chegado de uma viagem ao Rio Grande do Sul em companhia de minha mãe, onde foram comemorar 25 anos de casamento. Foram e voltaram de carro com duração de 25 dias cansados da viagem. Meu pai tinha como costume mato-grossense tirar uma pestana após o almoço. E no caso era sempre na sala com a TV ligada. Ao passar pelo quintal, percebi que sua câmera estava dando sopa em cima da penteadeira de minha mãe. E lá fui eu sondar quais eram as condições. Meu pai tirava sua pestana com grandes roncos que se escutava de longe. Com cuidado, atravessei a sala em direção ao quarto dele. Já dentro, dei de cara com aquele tesouro. Fui conferir se ele ainda dormia e vi que estava tudo calmo.
Sem demora, me pus a mexer em tudo, apertando todos os botões que havia. Olhei e mexi em tudo. Consegui armá-la para dar o “clic”, mas com a excitação não conseguia fazer o foco correto ficando tudo embaçado. Estava em frente ao espelho da penteadeira manuseando, sem querer apertei o botão de disparo e deu-se um “clic”. Assustado, deixei tudo ali e pulei a janela do quarto e me mandei. Passaram-se dias e acabei por esquecer-se do assunto.
Nesse mesmo dia, meu pai trouxe para casa o envelope contendo as fotos de sua viagem. Eram mais de 4 rolos de filmes. Meus pais se deliciaram vendo as fotos e recordando pessoas e lugares por onde passaram em sua viagem. Depois de algum tempo, ouvi meu pai chamar pelo meu nome. Ao me aproximar, ele logo perguntou se eu havia encostado o dedo na sua máquina. Claro que eu disse que não. Ele, então, me mostra uma foto toda embaçada tirada diante do espelho com um cara pequeno atrás da câmera clicando. Essa não dava para mentir e nem escapar. Acabei indo para o castigo com um puxão de orelha, coisa clássica da época.
Ao invés de me afastar das fotografias, isso acabou me aproximando mais ainda. Minha madrinha de batismo, de profissão médica, viajava pelo mundo todo sempre tirando suas fotos. Ao saber de minha aventura, trouxe de presente uma máquina tipo caixão da “Agfa” 6×9. Teve toda paciência do mundo para me ensinar a tirar boas fotos. Graças a ela fui iniciado nessa arte. Anos depois, ela me deu um livro de bolso que ensinava como revelar fotos em casa de maneira simples.
Em menos de um ano eu havia construído um aparelho em madeira (caixote de laranja) devidamente modificado para fazer cópias do negativo diretamente ao papel. Neste aparelho colocam-se dois tipos de lâmpadas para sensibilizar o papel pelo negativo. Depois desse processo levava o papel para banho no revelador, depois no fixador e por último em água corrente. Punha-se para secar e estava pronto.
Jamais esqueci a emoção ao ver pela primeira vez, no quarto escuro, aquele papel branco, mas sensibilizado, de repente, do nada, aparecer uma imagem. No primeiro momento a imagem era fraca e sem brilho. Aos poucos ela tomava sua forma final e aquilo que fora capturado em momento único aparecia com força, eternizando aquele instante. Era mágico. Minha mente ficava querendo entender muito rapidamente como tudo tinha acontecido. Este momento ficou marcado com todos os cheiros e odores de ácido acético em minhas lembranças visuais e olfativas.
Hoje, ainda não domino as técnicas em direção a Sétima Arte. Ainda estamos buscando reviver a sensação do primeiro filme visto. Fazemos clipes e algumas montagens apenas como ensaio. A qualquer momento poderá nascer algo que valha a pena assinar.
A primeira foto que tirei em frente ao espelho, ficou guardada até 2005, quando a levei para uma exposição de “Pinhole” ou foto de lata na Escola Alves Cruz e acabou se perdendo.
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