Light – UTP, o primeiro emprego ninguém esquece – Parte III de III

Fato curioso acontece quando não se fala ou entende bem um idioma, essa aconteceu também com o Sr. Wladimir. Em uma das conversas dele com uma moça visitante da usina, por sinal, muito bonita, vestia uma blusa de manga larga e longa com faixas, tirinhas de couro ao longo de toda manga e uma calça jeans. Ele disse para ela: – Você tá "bonitinia", minina; tá parecendo mocinha de faraeste, só falta a pistola. Parece que a moça interpretou mal o elogio e saiu de perto, ele perguntou: – Por que será que ela não gostou?

Um operador que não tinha apelido, por incrível que pareça, era o Sr. Antonio Damélio, homem tranquilo, de fala mansa, sempre me dizia: “Rasputin, sai dessa empresa, aqui você não tem futuro, termine seus estudos, a usina está parando, estamos todos ociosos aqui, não há mais promoção”, sempre ensinava os mais novos o trabalho com seus croquis.

Nosso encarregado era "Garrincha", tinha a semelhança incrível com o futebolista, inclusive bom de bola com as pernas bem tortas, também foi embora sem avisar. Outro mineirinho era o Walter, apelidado de "Beregué", também estudava e pretendia sair logo dali, saiu em meados de 1978 e hoje é bancário, se é que já não se aposentou, também apelidado por Itu; o que chamava a atenção de todos era que o Walter "Beregué", estava perdendo os cabelos na parte alta da cabeça e ele ficava o tempo todo passando o mão úmida e puxando os fios laterais da cabeça para cobrir a careca que se avizinhava e todos riam.

Como esquecer nosso amigo "Baianinho" do fusca vermelho, trabalhou a vida toda na usina, o "terror" do bairro de Pedreira, no bom sentido, conhecido também como Batista, Diomedes Batista de Souza, que faleceu em setembro de 2010 na Bahia, depois de uma longa vida em São Paulo voltou para sua terra natal já aposentado, talvez meu melhor amigo na usina.

O grandão Urani Rosa, mulato de corpo avantajado, não lembro se tinha apelido, um tanto que reservado e muito forte, diziam alguns que ele gostava muito de cultivar flores, tinha paixão por relógios e também tinha sensibilidade artística, tocava piano e tinha um na sua casa e tocava bem, segundo os amigos, mas, o pessoal falava: um negão daquele tamanho com esses gostos.

Ângelo Lombardo, o italianinho, "o Chicharão", careca, mas, os apelidos não pegaram, ele era meio sério, morava em Santo Amaro, na Rua Cerqueira Cezar, um operador antigo da usina. Ele também tinha uma mania, quando ia almoçar ou jantar no restaurante da usina sempre levava consigo um azeite de alta qualidade, do qual se gabava, para usar na comida e não dava nenhuma gota para ninguém. Certa vez, alguém trocou o vidrinho dele por outro igual, mas com óleo de soja comum. Ele usou e nunca reparou que foi trocado, quando falaram ele ficou uma fera, caiu o mito do molho ou óleo incomparável; já falecido, que Deus o tenha.

O Manoel, o "Tucano", outro mineirinho, nariz aquilino, rapaz alto e magro de pouca conversa e trabalhador, fui padrinho de casamento dele no civil, na igreja verde do bairro Campo Grande, deixou a operação das turbinas e fez curso de instrumentista de equipamentos. Outro operador era um "mestiço", "japonês", chamado Paulo Kanada, filho de brasileiro com japonesa, fumava que parecia uma chaminé, esse era viciado em jogos de baralho, quando não tinha serviço passava a noite toda jogando.

No meio de tantos colegas e tantos apelidos tinha outro encarregado das unidades 3 e 4 da usina que não tinha apelido por sua seriedade, era o Antonio Gaspari, morador do centro de Santo Amaro. Sem contar também com o discreto colega como Heleno Ladeira Rodrigues, do bairro Vila Prel. Havia também um supervisor de outra turma quer, às vezes, substituía o nosso, era o Sr. Ely, que muitos chamavam por Suely, devido ao cacófato de Sr. Ely para Seu Ely e Suely, não sei se ele reparava nessa combinação de palavras.

No departamento de tratamento de água havia o maranhense José Ribamar, com ele fiquei sabendo na época que nesse estado predomina esse nome de Ribamar. Foi nessa empresa que conheci o banheiro turco, fazer as necessidades de cócoras, lembrando à época de criança quando íamos caçar e fazíamos as nossas necessidades agachado no mato. Os chuveiros eram grandes e altos, o controle da temperatura se fazia por dois registros, um era de água fria e outro de vapor saturado que vinha de um desvio da Caldeira, tínhamos que fazer a mistura de ambos para chegar à temperatura ideal, os boxes eram de azulejos amarelos, creio que uns dez boxes, cinco de cada lado separado por um corredor e tinha vários corredores com esses boxes, no inverno aquilo parecia um "fog londrino", imaginem que cerca de 20 homens ao mesmo tempo tomando banho a quantidade vapor que saia, parecia uma sauna, e na hora de se trocar, cada um usava um tipo de desodorante, o cheiro do perfume misturado com o vapor do lugar, haja estomago, mas se acostumava. No banho, tinha que tomar cuidado, pois havia aqueles que saiam do seu box para fechar a válvula de água quente do box vizinho para que só saísse água gelada, só se ouvia gritos de dor e xingamento daquele que recebia o jato gelado nas costas.

A usina era a maior termoelétrica do Brasil naquela época, até anos 1970, hoje ainda deve ser, pois foram criadas novas unidades, foi duplicada e com queima de gás natural e por isso era e ainda deve ser muito visitada por estudantes e autoridades. Também tinha o lado cômico ou maldade nossa, no setor das caldeiras onde se acendiam os maçaricos para a queima do petróleo, também jogávamos um produto chamado dolomita, um pó químico branco de textura de um talco, que era para reagir nas paredes, água tubular e evitar corrosão, porém, quando as visitas estavam passando embaixo desse patamar acima do painel de controle, uns três metros, muitos de nós deixávamos esse pó derramar em cima dos visitantes, era uma correria, pois formava uma nuvem branca, aderia a roupa e a pele, pura maldade mas inocente, pior quando alguém jogava água lá de cima, a bronca era geral.

Vale ressaltar que a flutuação entre os jovens recrutados para esse emprego era grande, a maioria entrava pelo bom salário inicial, mas depois, vendo a usina estagnada sem promoção, sem perspectiva, iam embora, os mais velhos com tempo de 20 anos de casa ficavam para terminar o tempo de casa e se aposentar, que é de 25 anos de trabalho.

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